Lauter no Lance!: Fatos, resultados e histórias num Mundial inesquecível. Adeus, Tóquio!
Confira o balanço de uma competição para lá de movimentada

Seja na prova mais rápida do atletismo, ou da mais longa. Talvez na prova mais complexa, que dura dois longos e exaustivos dias. Ou, quem sabe, na despedida da maior velocista que o mundo já viu competir. Ou na epopeia brilhante da nova rainha das pistas. Este Mundial de Atletismo deixa marcas profundas no esporte. Segue, a seguir, uma pequena lista de grandes momentos de Tóquio 2025:
Os Gigantes do asfalto:
Elas acontecem fora dos estádios, que são apenas para a largada e chegada. E quando ganharam as ruas, ganharam também nossos corações. A quantidade de emoção e drama que as provas de Marcha (25 e 35km) e Maratona proporcionaram, as tornaram inesquecíveis. E, delas, emergiram das marchas, os dois grandes nomes do asfalto: o nosso Caio Bonfim, com o ouro e prata, e a "fúria espanhola" Maria Perez, com ouro nas duas provas, foram gigantes! A marcha, tida por muitos até o fim do milênio, exótica e enfadonha, se tornou evento imperdível. A melhora técnica e física de seus atletas, e a tecnologia que trouxe para perto do público o show "das punições", que se tornou transparente e passou a fazer parte ativa e estratégica dos atletas e treinadores! O público, presente e virtual, acompanha e torce à cada "raquete" apresentada aos atletas, pelos árbitros.

Em novo Mundial, Shelly Ann Fraser encerra carreira
E das ruas para as pistas. Na prova mais rápida, partidas e chegadas:
Depois de 10 títulos mundiais, Shelly Ann Fraser decide encerrar sua longa e vitoriosa carreira, em um mundial. E se despede mostrando a velha bravura e competitividade. Passando entre as melhores nas eliminatórias. E olhe que isso já significa muito, pois a prova estava repleta de grandes velocistas. E Fraser chega às semifinais com fome de final. Ganha a sonhada vaga nas finais, correndo uma duríssima semi. Chega em segundo, na cola de Julien Alfred, a campeã olímpica, de Santa Lucia. Elas terão ótimas companhias na grande final, como as também jamaicanas Tina Clayton e Sharicka Jackson, a jovem revelação Melissa Jefferson, a britânica Dina Smith e a marfinense Ta Lou. Que time de mulheres velozes! Um cenário perfeito para o réquiem da rainha dos cabelos coloridos!
E assim foi. Prova veloz, aliás, velocíssima. Teve recorde do campeonato, e várias melhores marcas pessoais. Uma final, onde apenas uma atleta destoou, e foi justamente a que se esperava mais, Julien Alfred, do alto de seu ouro em Paris, chega num modesto 3º lugar.
E surge de forma meteórica, mostrando a temporada arrebatadora que faz, Melissa Jefferson. Fraser, se despede do atletismo acenando e sorrindo, como sempre fez, agradecendo o carinho que este público lhe recebeu por quase 20 anos! No mesmo momento em que Jefferson também sorri, prevendo a tríplice coroa da velocidade, em Tóquio. E assim foi. Dos 100 para os 200 e dos 200 para os 4x100, só deu ela! Melissa Jefferson a nova rainha da velocidade, e Shelly Ann Fraser, sempre em nossos corações, os nomes da velocidade em Tóquio.
Para o alto e avante! O Super Duplantis colhendo recordes!
Desafiar a Lei da Gravidade! Essa é a dura missão de um sueco americano, que coleciona recordes mundiais no salto com vara desde 2020, em Glasgow, num torneio indoor, e 2022, aí já no Mundial de Atletismo, no Oregon, quando ultrapassou a marca de 6,21. A contagem continua, agora já nos 6,30 e continua…. para o alto e avante! A conta-gotas, homeopaticamente, lá vai Armand Duplantis, a colecionar recordes. Como ele ainda tem 25 anos, a expectativa é que Sir Isaac Newton ainda terá muita dor de cabeça pela frente. Nunca se viu alguém a contestar tão veementemente uma lei da natureza com tamanha força e determinação. Ele não salta, voa!
E, por falar em voar… Voar é com os anjos, e com Nicola Olyslagers … que passa o tempo em que não está voando, sorrindo e anotando em seu diário "de bordo". Tudo bem que duas das favoritas ao ouro, as ucranianas Mahuchikh e Levchenko, tiveram sérios problemas e contratempos, para se manterem vivas e bem treinadas. Mahuchikh ainda conseguiu um bronze, celebrado com leve sorriso e indiscretas lágrimas. Mas a estúpida invasão de um "vizinho" inconveniente e covarde, um dia terá fim, e as meninas aladas da Ucrânia, voltarão a sorrir e voar.
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Não só por conta disso, porque Olyslagers está tendo uma temporada impecável, e competiu com maturidade em Tóquio, passando sem erros até a marca da vitória, 2 metros! Sem dar chances a qualquer adversária. A religiosa campeã mundial, achou um meio especial de estar mais próxima do céu, enquanto treina e compete, voando.
Levanta, sacode a poeira e…
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Ninguém segura esse neozelandês!
O território sagrado dos quenianos, por décadas, foi os 3 mil com obstáculos. E muitas vezes com pódio completo! Depois vieram americanos, argelinos e etíopes. É prova para atletas duros, acostumados ao sofrimento e à dor. Nos últimos anos, o marroquino EL Bakkali era "o cara" na prova. Alto e com bom grau de coordenação, El Bakkali tinha velocidade suficiente para definir as provas na última volta, mas também conseguia manter ritmo punitivo desde o início, para flertar com o recorde mundial. Ao seu lado, uma boa trinca de quenianos, um par de etíopes e outro de americanos, comandam o pelotão líder. Puxando o 2º pelotão, tentando reconectar com os líderes, vinha o neozelandês Beamish. Como todo atleta de seu país, Besmish nasceu meio fundista, e costuma usar esta característica para obter alguns bons resultados. Como, por exemplo, nas eliminatórias, quando na passagem dos 1600 metros, foi desequilibrado por um adversário, foi ao chão, rolando como um barril de chopp vazio. Ao parar, ainda tonto, se levantou, sacudiu a poeira cor de telha, e saiu indócil, à caça dos líderes (um pelotão de 8 a 9 atletas).
Ninguém, a não ser ele, acreditava nesta empreitada suicida, a distância entre eles era enorme, coisa de 100 metros, ou mais, mas Beamish, apertava firme o ritmo, sem medo da dor. Somente os 5 primeiros de cada uma das 3 séries, passaria à final, deixando a sua missão mais impossível ainda! Ao soar o sino, indicando a última volta, ele já estava à menos de 15 metros do pelotão líder. Mas, é na última volta que a velocidade de todos aumenta. E lá foi ele, já com apoio irrestrito do público, incrédulo. Ele ignorando a fadiga, abre para a raia 3 e começa a "escalar" seus adversários, um a um. À frente, Marrocos, o nordeste da África, e parte da Europa, começam a ruir sob seus pés velozes. Ele cruza em segundo. Vai pra final, com todas as grandes feras do mundo.
Vai e vence! Numa prova técnica, impecável, onde pode usar, novamente, sua estupenda velocidade final. Bate o gigante El Bakkali por 7 centésimos de segundos, deixando quenianos, etíopes e americanos para trás. Um atleta da Nova Zelândia, conhecido mais por algumas vitórias no meio fundo, sem nenhum grande título global, vence uma das provas mais eletrizantes deste Mundial. Vence por acreditar, e saber utilizar, na sua estupenda resistência de velocidade. Naquele dia, em Tóquio, nos 3 mil com obstáculos, não havia um obstáculo sequer para ele! O solo sagrado desta prova, agora, desloca seu eixo para a Oceania, terra de grandes fundistas e meio fundistas.
Naquele dia, Beamish correu, e venceu, por seus ancestrais. Aqueles que honraram por décadas a camiseta negra, dos atletas da Nova Zelândia. Viva Arthur Lydiard, Peter Sneel, John Walker, John Lovelock e tantos outros!
Apagam-se, definitivamente, as luzes do Estádio Nacional de Tóquio, para reacenderem de novo em 2027, no mítico estádio Ninho do Pássaro, também sede dos Jogos Olímpicos de 2008.
Até lá!
Lauter Nogueira
Lauter no Lance! Leia mais colunas:
Lauter Nogueira escreve sua coluna no Lance! todas as terças e sextas. Confira outras postagens do colunista:
➡️Nova ordem do atletismo, diversidade pede passagem
➡️Repercussão e números do inesquecível Mundial de Atletismo
➡️O antes, o agora e o depois. Assim passam-se os dias em Tóquio
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