Rafael Valesi
18/03/2016
05:55
São Paulo (SP)

O cavaleiro Rodrigo Pessoa é daquelas personalidades que podem falar com propriedade sobre a relação entre o esporte brasileiro e os Jogos Olímpicos.

Dono de três medalhas na história do evento, o principal ícone do hipismo nacional está prestes a quebrar um recorde histórico. Na Olimpíada Rio-2016, ele disputará sua sétima edição dos Jogos, marca que nenhum outro brasileiro poderá se orgulhar de ter.

A trajetória de Pessoa nos Jogos é bastante peculiar. O cavaleiro de 43 anos foi porta-bandeira na abertura dos Jogos de Londres-2012, foi desclassificado em Pequim-2008 por doping de seu cavalo Rufus, e viu Baloubet du Rouet refugar na competição individual em Sydney-2000. Além de tudo isso, ainda tem em sua galeria uma medalha de ouro e duas de bronze na competição (veja mais abaixo).

O cavaleiro sabe como poucos o caminho para conquistar um lugar no pódio. E, na opinião dele, não se constrói um vencedor em apenas um ciclo olímpico.

Em entrevista ao LANCE!, por e-mail, Pessoa criticou a cultura esportiva brasileira na busca por medalhas na Olimpíada do Rio. E também disse que não liga para o recorde que irá quebrar.

– No Brasil é tudo muito na base do imediatismo, os resultados precisam ser a curto prazo e isso não é bom – falou o cavaleiro.

Confira abaixo a entrevista:

Qual é o significado de disputar uma Olimpíada no Brasil? Mesmo sem o hipismo ser um esporte popular no país, você acha que a torcida local poderá ter um peso importante para ajudar a equipe brasileira?
Com certeza. Competir em casa traz uma motivação a mais. Poder estar ao lado da nossa família e amigos, e sentir o calor da torcida brasileira, é sem dúvida muito especial.

Você está indo para a sua sétima Olimpíada, algo que nenhum outro brasileiro jamais alcançou na história olímpica. O que este recorde representa para você?
É bom saber que você está quebrando uma marca importante, mas eu confesso que não ligo muito para isso. O que quero mesmo é poder fazer o melhor resultado possível e brigar por uma medalha em casa.

Você tem uma história olímpica rica, com seis participações, três medalhas olímpicas e também foi o porta-bandeira em Londres, em 2012. Quais são as suas principais recordações dos Jogos?
Qualquer atleta sonha em chegar a uma Olimpíada, e quando eu olho para trás e vejo tudo o que pude vivenciar, sem dúvida é algo emocionante. Desde a minha primeira Olimpíada até a última, cada uma teve uma história especial. Mas se puder escolher alguns momentos marcantes, eu fico com a de Atlanta, que foi a conquista da primeira medalha da história do hipismo brasileiro em Jogos Olímpicos. Fui o último conjunto do Brasil a entrar, e tínhamos que fazer zero pontos. Foi muita pressão, mas depois veio a recompensa com a conquista da inédita medalha. Depois teve a medalha de prata em Atenas, que mais tarde virou ouro. E em Londres, poder ser o porta-bandeira do Brasil foi muito especial. Curti cada segundo daquele momento, pois sei que ele não vai se repetir de novo.

"Temos cavaleiros com mais de 60 anos que competem, como o canadense Ian Millar, por exemplo, que tem 69 anos e pode ir para a sua 11ª Olimpíada. Mas eu confesso que não sei se chego até lá"

O hipismo proporciona certa longevidade aos competidores. Sendo assim, você planeja competir nas Olimpíadas após a Rio-2016? Você tem em mente quando será sua última Olimpíada, ou deixa isso em aberto?
No hipismo você pode competir até mais tarde do que em outros esportes. Temos cavaleiros com mais de 60 anos que competem, como o canadense Ian Millar, por exemplo, que tem 69 anos e pode ir para a sua 11ª Olimpíada. Mas eu confesso que não sei se chego até lá. Não escondo de ninguém que depois dos Jogos do Rio eu quero diminuir um pouco o ritmo e ter mais tempo para a família. Mas vamos ver o que acontece.

Como você avalia as chances do Brasil em obter medalhas no hipismo saltos na Olimpíada Rio-2016? E como você analisa o atual ciclo olímpico do Brasil no hipismo saltos, com a quinta colocação nos Jogos Equestres Mundiais em 2014 e outros resultados importantes individuais ao longo dos anos?
O nosso nível técnico, sem dúvida, vem melhorando muito. Temos ótimos cavaleiros, mas o que nos falta são bons cavalos. Conseguir comprar um bom cavalo hoje não é fácil. Primeiro porque os preços estão bem altos e também porque não são todos os cavalos que montamos que conseguimos formar bons conjuntos. Sobre os resultados, no último Mundial mostramos que estamos na briga. A nossa diferença de pontos para a medalha de ouro foi muito pequena, o que prova que estamos no caminho certo. Sem dúvida vamos com o melhor time possível para os Jogos do Rio, e daremos o nosso melhor em busca de um grande resultado. Mas sabemos que não será fácil. Vai depender muito de como estará a saúde dos nossos cavalos nos dias das provas.

Além de cavaleiro, você também tem desempenhado o papel de técnico dentro da equipe brasileira. O que esta experiência te ajuda nas competições? Na Olimpíada Rio-2016, você também vai desempenhar este papel?
Não. Estamos com um técnico americano chamado George Morris. Ele é um dos técnicos mais respeitados do mundo, com seus atletas conquistando várias medalhas olímpicas. Estaremos em ótimas mãos.

Os dirigentes da Federação Internacional de Hipismo têm criticado os ritmos das obras da modalidade em Deodoro. Estes atrasos preocupam você de alguma forma, especialmente em relação à imagem do Brasil no exterior?
É sempre chato ver nas manchetes dos jornais o nosso esporte por este lado. Mas acho que nosso foco tem que ser a preparação, treinamento e etc. Não posso me preocupar muito com isso. Só acredito e espero que esteja tudo pronto para que possamos participar desta grande festa que serão os Jogos Olímpicos no Rio.

Outro problema relacionado ao hipismo e à Olimpíada Rio-2016 foram alguns focos de mormo (doença equina) no país, que inclusive criou um vazio sanitário em Deodoro. Isso atrapalhou a programação da equipe brasileira de hipismo, que planejava treinar no local algumas semanas antes dos Jogos?   
Como falei anteriormente, é sempre chato este tipo de assunto e prefiro não entrar em detalhes. O importante é a gente se preparar da melhor forma possível para os Jogos.

O COB tem a meta de colocar o Brasil no top 10 no quadro de medalhas na Olimpíada do Rio, no critério de total de medalhas. Você acha que o país vai alcançar esta meta?
Eu acho que estar numa Olimpíada é o sonho de qualquer atleta, e por isso cada um vai dar o melhor de si para alcançar seu melhor resultado. Eu não acompanho tão de perto algumas modalidades, mas acredito que se o COB colocou essa meta, é possível sim. Vamos torcer e tentar fazer com que esta previsão se concretize.

"Você não faz um campeão olímpico em quatro anos. Então, esse investimento tem que ser a longo prazo, na base, nas escolas. Infelizmente não temos a cultura deste investimento como vemos nos Estados Unidos, na Europa e na China"

Este foi um ciclo olímpico especial para o país, devido ao fato da Olimpíada ser no Brasil. Os investimentos aumentaram, e o interesse geral na Olimpíada tornou-se um pouco maior. Qual é a sua avaliação geral do esporte brasileiro neste ciclo olímpico que culminará na Rio-2016?
Eu confesso que esperava um pouco mais. Você não faz um campeão olímpico em quatro anos. Então, esse investimento tem que ser a longo prazo, na base, nas escolas. Infelizmente não temos a cultura deste investimento como vemos nos Estados Unidos, na Europa e na China. Achei que essa cultura pudesse mudar com a chegada dos Jogos, mas não vi muito isso acontecer. Além disso, no Brasil é tudo muito na base do imediatismo, os resultados precisam ser a curto prazo e isso não é bom.

Você credita que o hipismo saltos está se preparando adequadamente para formar uma nova geração de cavaleiros, pensando nos próximos Jogos Olímpicos?
Como falei, bons cavaleiros nunca foi o nosso problema. E, sem dúvida, estamos tendo cavaleiros despontando mais cedo. Esta renovação é bem importante e faz parte do ciclo do esportivo. Estamos no caminho certo sim!

A trajetória olímpica de Rodrigo Pessoa
Rodrigo Pessoa estreou nos Jogos Olímpicos em Barcelona-1992 aos 19 anos, e desde então disputou todas as edições. Em Atlanta-1996 e Sydney-2000, ele levou a medalha de bronze por equipes. Já em Atenas-2004, ele foi prata no individual, mas herdou o ouro (foto ao lado) após o cavalo do campeão, o irlandês Cian O’Connor, ser flagrado em exame antidoping. Em Pequim-2008, foi a vez de Pessoa ser desclassificado por doping de seu cavalo. E em Londres-2012, ele foi o porta-bandeira do Brasil na cerimônia de abertura.