Luiza Tavares de Almeida (foto:Divulgação)

Sonhando com a vaga na Rio-2016, Luiza Almeida posa com seu cavalo (foto: Liz Gregg/FEI)

Guilherme Cardoso
13/07/2016
06:05
São Paulo (SP)

“Musa do hipismo”, “novata”, “talento precoce”... Até o momento, nunca faltaram rótulos na carreira da amazona Luiza Almeida. Não que as denominações não façam sentido, afinal, a bela atleta ainda tem o recorde de mais jovem a competir no hipismo em uma edição dos Jogos Olímpicos, com os 16 anos em Pequim-2008. Mas agora, na expectativa por disputar sua terceira Olimpíada na carreira, a brasileira quer ser lembrada por um resultado histórico na prova do adestramento na Rio-2016.

Atualmente com 24 anos, Luiza dificilmente vai estar fora da lista de convocados, que será divulgada na próxima segunda-feira. Apesar de ser nova, ainda mais nessa modalidade, ela já se sente experiente. E esse pode ser o diferencial para atingir seu principal objetivo: ser a primeira brasileira a ir para a semifinal de sua prova e estar no top 30 olímpico.

– A experiência conta muito para nosso esporte. É muito importante o cavaleiro ter a calma, tranquilidade e sangue frio. Isso não é mito. A gente sente tudo o que o cavalo pode sentir. Então, a experiência vai ajudar muito – afirmou a amazona ao site do LANCE!.

Em sua estreia olímpica, em Pequim-2008, Luiza terminou a disputa na 39 colocação. Já em Londres-2012, acabou no 47 lugar. Mas quem pensa que tais resultados poderiam deixar ela desanimada se engana. O que parece incomodar um pouco é o preconceito. Não por conta do gênero, já que o hipismo é disputado igualmente entre homens e mulheres. Mas pela pouca idade.

– É bastante irônico isso. Comecei um pouco cedo minha carreira e isso me ajudou muito. Ao mesmo tempo, isso foi uma barreira e um preconceito que tive de vencer. Nos Jogos Pan-Americanos de 2007, o técnico disse que não me escolheria pelo fato de ser a mais nova. Então, sempre tive de provar que, apesar da idade, eu poderia competir de igual com os outros cavaleiros. Sempre com mais treino e dedicação – avaliou a atleta, que no Pan do Rio acabou se tornando titular de última hora e faturou a medalha de bronze por equipes.

Mesmo com essas dificuldades, o hipismo não é uma novidade na vida de Luiza. A família toda é envolvida com o esporte – o avô materno criava cavalo manga-larga, enquanto o pai era criador da raça sangue lusitano – e os irmãos, Manuel e Pedro, também sonham com uma vaga nos Jogos Olímpicos.

Até por isso, a amazona começou cedo na modalidade, por volta dos cinco anos. Até os 13 praticava a prova de salto, quando resolveu mudar e ir para o adestramento.

Estudante de direito (se formaria no fim do ano, mas pode adiar o fim do curso), o foco está na Rio-2016 e na busca por novos rótulos. E como é passar uma entrevista sem falar sobre a alcunha de musa?

– Estou achando ótimo (risos). Não sei o falar sobre isso. Acho que já passou isso (de ser uma musa).

Luiza Tavares de Almeida (foto:Divulgação)
Luiza Almeida durante uma competição (foto: Divulgação)

CONFIRA UM BATE-BOLA COM LUIZA ALMEIDA:

Qual a expectativa para disputar os Jogos Olímpicos do Rio?
Luiza Almeida: Estou super ansiosa. A confirmação sai bem próxima do início dos Jogos, mas tem de ser assim no nosso esporte. Como estamos lidando com um ser vivo, tudo pode mudar. O cavalo pode estar bem nesse momento e, depois, mal. Então, por conta disso, quanto mais perto decidir (o time), melhor.

Ainda comentam muito com você sobre o fato de ter sido a mais nova a participar do hipismo nos Jogos? Como foi a reação ao disputar a primeira Olimpíada?

LA: Comentam muito, ainda mais porque não é comum nessa modalidade. Os mais tradicionais nesse esporte achavam um absurdo, não era algo normal. São várias etapas para chegar até o nível profissional, e eu pulei todas. Até hoje, gravaram um pouco. Para mim, foi um sonho que é difícil de acreditar. Todo mundo pergunta como eu fiz isso. Não realizava o tamanho da responsabilidade, não tenho palavras para descrever. Fui realizando um sonho atrás do outro.

Existe algum preconceito nas competições por ser mulher?
LA: Pelo contrário, não tem preconceito algum. Até brincam que mulher tem mais sensibilidade com o animal. Não concordo muito. É um esporte que dá chance de igual para igual para todos. É a parceria do atleta com o animal que consagra o campeão. Tive um pouco do preconceito por conta da idade, mas é diferente dos outros esportes. Quanto mais velho fica, é melhor. Então, precisa de experiência, tempo de sela. Claro que uma menina de 15 anos não pode ter tanta técnica, até tinham razão.

No Brasil, as pessoas falam muito da disputa do saltos. Qual diferença em relação ao adestramento?
LA:
O adestramento é uma modalidade dentro do hipismo. O salto é com obstáculo. O adestramento é como se fosse uma dança, cada movimento tem uma nota. Quem tem a maior nota se consagra campeão. Comecei no salto por influência da minha mãe, mas não estava gostando. O adestramento é a verdadeira equitação, ensina a montar, controlar o movimento. Fui temporariamente para o adestramento para melhorar no salto, Mas me apaixonei e não sai mais.

Mora no Brasil atualmente?
LA:
 Vivo em Dusseldorf (ALE), vim em julho do ano passado. Depois da Olimpíada, eu volto. Sempre venho para a Alemanha antes de grandes campeonatos. A diferença entre o Brasil e a Europa é o número de competições, isso é complicado. As competições que dão a chance ao cavaleiro ranquear. Quando preciso ir para o Pan, o Mundial, a Olimpíada, faço minha temporada nos Estados Unidos ou na Europa. Essa é minha terceira temporada na Alemanha.

Dá para viver só do esporte? 
LA:
É muito complicado, ainda mais o hipismo que não é muito barato. Sou estudante de direito. Não consigo viver só do esporte, então quero ter minha graduação. Nunca se sabe o dia de amanhã. Quero me formar, me profissionalizar e viver do esporte. Se organizando e se dedicando, a gente consegue. Mas não é fácil ainda. É difícil conciliar (os estudos), estou para me formar em dezembro, mas não sei se vai dar. Talvez, tenha de postergar por seis meses. Mas é com muita determinação e vontade, se organizar, ter apoio grande da faculdade. Quando os dois lados se apoiam, tem de querer.

Como é seu dia a dia? E como conciliar o esporte com a vida pessoal?
LA: Treino de manhã e à tarde, e estudo à noite. Consigo conciliar (esporte, estudo, amigos...). Na vida, tudo tem de ter equilíbrio. Tento me organizar. Os amigos e o namorado sabem que essa é minha paixão. Todos têm seu sonho e vão abrir mão de certas coisas pelo seu sonho. Esse é o meu. Quem quiser ficar do meu lado precisa entender.

Até quando pretende competir?
LA:
Como o hipismo é um esporte técnico, é o único esporte olímpico que competem por igual homem e mulher. O atleta de força é o animal. Em Pequim-2008, competiu um atleta japonês mais velho da história. Espero bater o recorde dele.

Como é a relação como o cavalo?
LA:
É muito bonito isso no nosso esporte. Sou suspeita para falar. Falam que é um esporte individual. Não acredito nisso. É 50% cavalo e 50% cavaleiro. Precisa ter uma sintonia forte, precisa conhecer muito o cavalo, o que ele gosta ou não gosta, dar o melhor de si na prova, passar por qualquer circunstância, driblar uma situação adversa... É diminuir erro e aumentar a chance sucesso. Então, precisa estar há mais tempo com cavalo, isso dá mais chance de conhecer. Isso que eu acho mais importante. O cavalo é diferente do cachorro, que vai com todo mundo. Você precisa conquistar a confiança do cavalo. Isso só acontece com o tempo. É importante ter tempo de montaria.

Já tem a confiança do seu cavalo?
LA:
Não tive a sorte de ter tanto tempo com meu cavalo, o Vendaval. Comecei a montar em setembro do ano passado, que não é muito tempo. Mas a grande sorte é de ter uma sintonia muito grande, a gente está se dando super bem. Vamos fazer mais algumas competições e treinar para nos aperfeiçoarmos.

Como é ter toda sua família ligada ao hipismo ?
LA:
A família toda é ligada ao esporte. Meu avó materno era criador de cavalo manga-larga, por isso ligação da minha mãe. Meu pai é criador de cavalo sangue lusitano, que uso para competir hoje. Tenho três irmãos que estão tentando vaga no Rio de Janeiro. Só vejo coisas positivas nisso. Em casa, é muito natural, isso une a minha família, eles entendem minhas aflições, conseguem dividir as derrotas e as vitórias. É muito apoio. É muito bom. Entre os irmãos, nos ajudamos muito dando dicas, quando viaja é normal uma briga. Mas é bom tê-los aqui para apoiar.