Após Matheus Cunha dizer que táticas são ilusórias, técnicos analisam: 'Não é bem por aí'
Abel Braga e Lisca, porém, concordam que não há como ficar engessado em um sistema

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Matheus Cunha concedeu entrevista na manhã de sexta-feira na Granja Comary, e uma das suas ponderações chamou atenção: afirmou que questões táticas no futebol de alto nível muitas vezes são ilusórias. Ele se referia à necessidade de se identificar esquemas, definir se um time joga no 4-4-2, 4-3-1-2, 3-5-2, ou qualquer outra combinação.
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Para o meia da Seleção Brasileira, no futebol moderno, isso acaba quando o juiz apita o início do jogo, pois, com o dinamismo atual, é necessário adaptar-se rapidamente dentro de campo.
— Eu acho hoje, sinceramente, essas questões táticas durante o alto nível do futebol em muitos momentos ilusórias. Eu acho que a gente começa jogando de certa forma e, durante o jogo, acho que todos os jogadores já são muito acostumados a se adaptar e mudar. Eu acho que, principalmente, o meu dia a dia durante o clube é muito fácil. Os grandes jogos que eu venho disputando são muito claros; a gente está marcando num 4-4-2 e tem que se adaptar, porque em 10 minutos de jogo o outro time já mudou a formação e a gente automaticamente também muda. Então é difícil responder qual é a formação mais fácil ou mais confortável, até porque você, durante várias formações, às vezes exerce a mesma função.

O Lance! procurou treinadores experientes para explicar se, de fato, os esquemas táticos estão perdendo lugar no futebol moderno. Abel Braga e Luiz Carlos Cirne, o Lisca, concordam com o jogador, pelo menos em parte. Para ambos, as questões centrais são posicionamento e função no campo.
Abel, porém, não acredita que as coisas mudem em 10 minutos, como citou o atleta, a não ser em situações em que você marca, ou sofre um gol logo no começo, por exemplo.
— Os sistemas táticos são realmente diversos, dinâmicos. Mas não creio que essa mudança seja feita, por exemplo, como foi dito, em dez minutos. Em dez minutos, ela só é feita quando você está perdendo, e você muda, ou quando você está ganhando, e o adversário muda. Não é bem por aí, não.

O treinador, contudo, concorda que é preciso adaptação. Ficar fixo em uma ideia de jogo pode não funcionar, dependendo das peças que terá à disposição.
— Ninguém consegue ir para uma equipe ou ter uma equipe e chegar e dizer: a minha forma de jogar é essa. Porque um cara com capacidade, que entende bem a parte tática, isso não existe. O melhor sistema é aquele que você vai adaptar aos jogadores. Não pode ser o contrário. Eu, por exemplo, sempre joguei, teoricamente, com um 4-3-3. Mas isso tem anos e anos. Sempre com dois jogadores rápidos pelo lado do campo. Mas, se eu não tenho esse tipo de característica, esse tipo de jogador, eu tenho que fazer algumas mudanças.
Lisca, por sua vez, concordou com Matheus Cunha em relação a ter um esquema engessado, e destacou que as funções desempenhadas importam muito mais que números e nomenclaturas.
— O Matheus quis dizer que o que é ilusório é o vaticínio, é o congelamento do sistema. Você diz: "Ah, o time joga num 4-2-3-1". E assim que ele fica o tempo inteiro. Futebol, na verdade, é muito mais função do que número. E você tem variações durante o jogo. As referências do jogo mudam de acordo com o que o adversário propõe e os espaços que aparecem. Então, não adianta você ficar engessado daqui a pouco num 4-2-3-1 se o espaço está um pouco mais baixo, nas costas do volante, pelo lado direito, e aí você vai acabar descendo ali, o meia centralizado vai descer ali e vai configurar quase que um 4-3-3 em várias situações do jogo. Também em situações sem a bola é preciso se adaptar ao adversário — explicou.
A superioridade posicional, para Lisca, é o mais importante:
— E isso não tem a ver com o sistema, tem muito a ver com leitura de jogo, adaptação, versatilidade, inteligência também para se posicionar sem a bola, tanto para jogar como para defender, porque todo mundo acha que quando você está falando sem a bola é só para defender, mas sem a bola é para jogar, é muito importante hoje também, então acho que ele tem razão.
Abel afirmou ainda que esse dinamismo se intensificou de maneira muito rápida, e que, nas suas passagens como treinador pela Europa, era diferente do que acontece atualmente:
— Esquemas variam muito, fico até um pouco surpreso, porque faz anos que trabalhei na França. Em Portugal, as mudanças não eram tão constantes. Isso até muito pouco tempo atrás. As equipes começavam e terminavam no mesmo esquema de jogo. Hoje, em qualquer jogo, o que muito varia é a marcação. Hoje tem de ter o plano B. Analisa o adversário, de repente entra com outra formação, troca um volante de posição. A maioria hoje, sem a bola, muda para uma linha de cinco; isso é muito claro — concluiu Abel.
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