Tenis Guga (foto:Paulo Sergio/LANCE!Press)

Guga recebeu o LANCE! durante inauguração de loja no Rio de Janeiro (foto:Paulo Sergio/LANCE!Press)

Jonas Moura
27/12/2015
08:05
Rio de Janeiro (RJ)

Na vida pessoal, Gustavo Kuerten tem razões de sobra para abrir o fácil sorriso. Há menos de um mês, o tricampeão de Roland Garros (FRA) voltou a surfar e a praticar tênis de praia. Disposição para os esportes é algo que ele cultiva.

Além de festejar os 15 anos da conquista da Masters Cup de Lisboa (POR), completados no último dia 4, título que levou o Brasil pela primeira vez ao topo do ranking mundial de simples, o ex-tenista comemora outra vitória marcante.

As dores, cruel sequela de uma das carreiras mais vitoriosas entre atletas brasileiros, diminuíram consideravelmente nos últimos meses. E permitiram ao catarinense manter-se mais próximo da modalidade que o levou a ser melhor mundo por 43 semanas.

Aos 39 anos, Guga foca em projetos de disseminação do tênis e lamenta o desperdício de talentos no Brasil, bem como o cenário político atual no país. Mas pede otimismo.

Em meio aos compromissos, ele recebeu o LANCE! durante a inauguração de uma loja da Lacoste, marca da qual é embaixador, no Rio de Janeiro. Na conversa, falou do presente, relembrou a carreira e manteve o espírito crítico característico de sua vida pós-quadras. Veja:

Quem é o Guga hoje? Como é a rotina e quais as suas metas?
O tênis ainda é o alicerce dos meus desafios, mas de uma forma diferente. Hoje, minha contribuição é maior do que há 15 anos, quando eu era o melhor do mundo. Temos diversos projetos de iniciação, escolinhas, torneios e um contato pleno com o desenvolvimento do esporte. Isso me comove, pois ainda há muito desperdício de talentos no Brasil. A ideia é arrebanhar os atletas no país inteiro. O número de potenciais atletas que conseguem tocar em uma raquete ainda deve ser menor do que 5%. Penamos para ter profissionais e amadores. Isso é o que mais mexe comigo no dia a dia. Gosto de me envolver com esporte e educação. Fui criado assim e consegui uma trajetória de sucesso nesses universos.

E na vida pessoal?
Em paralelo aos projetos e parcerias, passo o tempo com as crianças e a família. A vida é bem mais controlada do que na época de atleta (risos). Antes, a gente surfava aquela onda que era carregada pela intensidade do circuito. Hoje, consigo programar as séries no mar e surfar de acordo com a maré, e na cadência que eu mesmo planejo. Por isso, acho que minha contribuição é ainda maior, no sentido de gerar um retorno com mais qualidade e profundidade, por estar na hora certa no local adequado e, assim, promover o tênis de forma interessante. É o que vem acontecendo nos últimos dez anos.

O que não sente falta de jeito nenhum daquela vida de atleta?
Ah, dos hotéis... de arrumar a mala e ir para o aeroporto! Putz, essa era a pior parte (risos). A cada semana, tinha isso duas vezes. Normalmente, era domingo à noite, depois de uma final. Eu chegava no mesmo dia e, na segunda-feira, já tinha de desfazer tudo em outro quarto de hotel. Eu costumava acordar e me confundia, achando que a porta estava de um lado, mas estava do outro, porque eu já tinha mudado de quarto e não me lembrava. Subia para o andar errado, porque havia ficado naquele andar na semana anterior (risos). Essa parte da vida do atleta e do tenista sul-americano, em especial, é muito dura. Você sai para dois, três meses, não uma semana ou duas. É difícil...

Como está o seu físico, em especial o quadril, e o que dói mais: as dores de ex-atleta, hoje, ou as dores do tempo de atleta?
Graças a Deus eu consegui voltar a surfar há três semanas. Pela primeira vez, depois de muito tempo, também voltei a jogar tênis de praia. Posso trocar uma bolinha, mas o diálogo com a quadra ainda é complicado. É, de certa forma, frustrante, pois minha capacidade física é limitada. Mas, em relação às dores, melhorei muito. Tomara que, aos poucos, minha aptidão para exercícios físicos se amplie, porque é o que gosto de fazer. Gosto de brincar com meus filhos, correr atrás deles. Fui de dois, três passos para 15. Foi uma vitória! Neste ano, tive um empenho brutal. Passei duas, três horas fazendo exercícios e fisioterapia para alcançar tal condição.

"O número de potenciais atletas que conseguem tocar em uma raquete ainda deve ser menor do que 5%. Penamos para ter profissionais e amadores. Isso é o que mais mexe comigo no dia a dia" - Guga

Ainda faz fisioterapia?
Sim, faço constantemente. É uma sequela da carreira. Recentemente, conversei com o Andre Agassi (ex-tenista americano) por mensagem e ele até me perguntou do quadril. É o preço que a gente paga por investir tanto e tão profundamente em um limite máximo. Os jogos às vezes são a parte mais fácil. Os treinos é que são muito pesados. Em 1997, quando as pessoas me viram pela primeira vez, já havia milhares de horas dentro da quadra exigindo do corpo uma demanda absurda. Faz parte também e preciso entender este processo. A vantagem que tenho hoje é ter tempo para que as coisas aconteçam com mais tranquilidade. Se a cada ano eu evoluir dez metros na minha performance, estará bom. Logo estarei voltando às quadras (risos).

Você assiste ao Federer hoje? O que pensa ao lembrar de quando se enfrentavam?
Federer é um exemplo em todos os aspectos. Tem um tênis absurdo. Se eu tiver de escolher entre os dez melhores da história, ele estará lá. Entre os cinco, três, dois, ele estará também. Tem de estar. Difícil é definir quem é o melhor de todos os tempos, porque é injusto comparar. Mas ele é o cara que sempre será considerado um dos maiores. É uma pessoa espetacular, com um carisma especial para o tênis, de uma gentileza ímpar, uma decência e conduta exemplares. É chover no molhado elogiá-lo. E um cara que foi meu contemporâneo! Quando eu o vejo hoje em dia, fico com a sensação de que o circuito não está tão distante da minha trajetória.

Você já disse que costumava se apegar a um desafio maior para superar algo menor que estivesse à sua frente nas quadras e já até deu essa dica ao Bellucci. Isso serve para a vida, no dia a dia?

Um parâmetro que considero comum entre minha vida profissional e agora é ter uma visão positiva sobre todos os aspectos. No tênis, isso me ajudou bastante. Nós já vivemos tantas situações complicadas que, se tentarmos enxergar o cenário ruim, já vem uma avalanche de pessimismo pela cabeça. Funciona muito analisar positivamente. Até mesmo em relação à minha lesão. Olhar de forma entusiasmada, com expectativa e prognóstico facilita e diminui o impacto negativo das situações. São poucos os casos em que realmente deveríamos sofrer. Às vezes, nós nos lamentamos por uma besteira. O difícil é praticar isso no dia a dia, mas é o que eu venho tentando fazer (risos).

O que a situação política conturbada que o país enfrenta atualmente te leva a refletir?
Fico cada vez mais convicto de que o único caminho do Brasil para chegar a uma transformação é pela educação. As pessoas tendem a pensar que são as classes mais pobres que precisam disso, mas nossos principais governantes mostram que das maiores fortunas, muitas vezes, vêm os piores exemplos. A educação precisa enxaguar o país, com decência e respeito. As pessoas devem entender suas responsabilidades, não ficar apenas sob o aspecto da lei. O Brasil cada vez mais tenta comprimir a sociedade com leis e obrigações para fugir da criminalidade, de desvios, da corrupção, mas não promove a boa conduta ou formas decentes de se viver. Para quem tem convicção de que precisa desviar do caminho e criar atalhos para crescer, não vai haver lei no mundo que consiga impedi-los. E não há dinheiro no mundo que consiga construir projetos com tudo isso acontecendo. Então, é preciso investir no ser humano e pensar em projetos educativos de longo prazo para ter respostas de maiores amplitudes.

E a Olimpíada? É uma resposta?
Nós temos um momento superfavorável e um prognóstico interessante de resultados. Acredito que o Brasil quebrará o recorde de medalhas em Olimpíadas. Mas sempre é pouco. Nossas conquistas são pequenas se comparadas às oportunidades que aparecem. Somos limitados por um cenário nacional muito drástico e dramático. Não dá para exigir que uma Olimpíada funcione bem se o país não vai bem na educação, na saúde, na infraestrutura, na segurança. Nos quesitos básicos tem de haver as grandes transformações. O esporte, as culturas e as artes vão sofrer as mesmas interferências positivas, mas enquanto ficarmos nesse lenga-lenga de inventar leis, fazer na marra e obrigar as pessoas a seguirem certas regras, as coisas não irão funcionar.

"Somos limitados por um cenário nacional muito drástico e dramático. Não dá para exigir que uma Olimpíada funcione bem se o país não vai bem na educação, na saúde, na infraestrutura e na segurança" - Guga

O que fazer no cenário atual?
Tem de orientar, ensinar as pessoas a se posicionarem, a saberem dos seus direitos, obrigações e responsabilidades. Com isso, buscar um benefício mais coletivo. Eu me arrisco a dizer que o Brasil de hoje é o mais individualista que já vi na vida. Antes, o país não tinha dinheiro, mas pensava de forma mais coletiva. Hoje, o vejo em condições econômicas mais favoráveis, mas todos têm necessidade de querer tudo para si. Somos contagiados por uma carência enorme dos serviços públicos e dos exemplos que vêm dos governantes. O ser humano olha as diferenças ao seu redor e as reflete nas suas ações. É triste ver nosso país sofrendo todas essas dificuldades e saber todo o potencial que existe nesta nação.

Depois de oito anos aposentado, você desperta interesse das marcas e da mídia. Como você explica ainda ser tão visado?

Ainda é uma oportunidade de transmitir valores e conceitos com os quais eu trabalho, como esporte e educação. Não busco um atalho, um desvio de conduta que me leve a alcançar resultados sem o mérito. Cheguei onde cheguei com esforço e disciplina. Isso é um trunfo e uma bagagem fundamental que preciso compartilhar. As marcas me dão essa possibilidade. Porque é duro! A gente rema, rema, rema e não sai do lugar. Receber um abraço é bom (risos). É um grande desafio. Não dá para fazer uma transformação sozinho, então é um privilégio contar com grandes marcas e entregar uma mensagem fundamental ao país hoje: de cultivar a persistência nas pessoas. Todos já tendem a ficar cansados com o dia a dia e querem jogar a toalha. Mas temos de persistir e suportar o quase insuportável, que é a situação atual do nosso país, e seguir em frente.

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Guga se emociona em discurso no Prêmio Brasil Olímpico  (Foto: Cleber Mendes/LANCE!Press)

A CARREIRA

Número 1 do mundo
O ex-tenista liderou três vezes o ranking da ATP, entre dezembro de 2000 e novembro de 2001. Foram 43 semanas no total, sendo 30 a maior sequência.

Prêmios
Em 2010, Guga recebeu o Troféu Philippe Chatrier em reconhecimento às ações desenvolvidas pelo Instituto Guga Kuerten e pelo tri em Roland Garros. Ele também se juntou a Maria Esther Bueno no Hall da Fama no tênis.

Feito inédito
Guga é o único tenista a ter vencido os americanos Pete Sampras (semifinal) e Andre Agassi (final) em um mesmo torneio. Foi na Masters Cup de Lisboa (POR), em 2000.

O adeus
Guga fez sua despedida das quadras como tenista profissional de simples no dia 25 de maio de 2008, ao perder na estreia de Roland Garros para o francês Paul-Henri Mathieu por 3 sets a 0, com parciais de 6-3, 6-4 e 6-2.

Padrinho olímpico
Em 2011, Guga foi padrinho do Projeto Olímpico de Tênis Rio-2016, sob a supervisão de seu ex-técnico Larri Passos. Porém, um ano depois,  iniciativa fracassou, após consumiu R$ 2 milhões do governo federal e ficar marcada por denúncias de irregularidades na aplicação dos recursos por parte da Confederação Brasileira de Tênis (CBT).

AS CIRURGIAS

Fevereiro/2002
Guga passou por uma artroscopia no lado direito quadril feita pelo médico americano Thomas Byrd, em Nashville (EUA). O objetivo era remover a cartilagem desgastada em decorrência de uma inflamação.

Setembro/2004
O brasileiro voltou à mesa de cirurgia sob os cuidados do médico Mark Philippon, em Pittsburg (EUA) para tratar um problema ósseo que bloqueava a movimentação do quadril a causava dores.

Março/2006
Voltou a ser operado, desta vez em Vail (EUA), pelo mesmo médico da cirurgia anterior. O procedimento só foi revelado no ano passado, em sua biografia.

Março de 2013

O ex-atleta passou por um procedimento para implantação de uma prótese de quadril em Florianópolis, devido às fortes dores.

QUEM É ELE

Nome

Gustavo Kuerten

Nascimento
10/11/1976 (39 anos), em Florianópolis (SC).

Altura e peso
1,90kg/83kg

Principais títulos
Guga conquistou 20 títulos no circuito da ATP entre 1997 e 2004. O brasileiro é tricampeão de Roland Garros (1997, 2000 2001), campeão da Masters Cup (atual Finais da ATP) de 2000 e dono d cinco troféus de Masters 1.000. Em 553 jogos, teve 358 vitórias e 195 derrotas.