Neymar vive novo drama em Copas e repete história de Pelé em 1969
Rei afirmou que não combinava com Copa do Mundo e cogitou não jogar em 70

Em diferentes eras, dois camisas 10 da Seleção Brasileira parecem atravessar um mesmo fio invisível de história e expectativa. De um lado, Pelé; de outro, Neymar. Em comum, além do peso simbólico da liderança técnica, a relação marcada com Copas do Mundo que nem sempre se completam da forma esperada — muitas vezes interrompidas por lesões que mudam rumos, narrativas e destinos.
Em 1969, Pelé deu uma entrevista e afirmou:
— Pelé e Copa do Mundo não combinam — afirmou o Rei.
A frase, ainda que interpretada sob diferentes contextos ao longo do tempo, remetia diretamente ao desgaste físico e às lesões que o acompanharam em Mundiais anteriores. Em 1962, no Chile, o craque se lesionou no primeiro jogo e acabou sendo substituído por Amarildo, em uma campanha que terminou com o bicampeonato mundial do Brasil. Já em 1966, na Inglaterra, o Rei sofreu faltas violentas nos confrontos contra Bulgária e Portugal, e novamente problemas físicos o tiraram de combate em um torneio que terminou de forma precoce para a Seleção. A narrativa de um gênio interrompido pelo corpo passou a fazer parte da construção de Pelé em 1969.
Décadas depois, a história parece ecoar em outra geração. Em 2014, Neymar era o grande nome da Seleção Brasileira, vindo de uma Copa das Confederações em alto nível e tratado como principal referência técnica do time. Até que, nas quartas de final contra a Colômbia, em Fortaleza, uma pancada de Zúñiga resultou em uma fratura na coluna, encerrando sua participação no torneio de forma dramática. O atacante deixou o estádio e depois a concentração na Granja Comary de helicóptero, em cenas que correram o mundo e marcaram aquela Copa para o torcedor brasileiro.
Quatro anos depois, em 2018, o roteiro voltou a ser interrompido antes do esperado. Neymar sofreu uma fratura no quinto metatarso em fevereiro e passou por um longo processo de recuperação. Ele só retornou aos gramados às vésperas do Mundial da Rússia, entrando em campo ainda sem ritmo ideal. Na estreia contra a Suíça, o Brasil empatou por 1 a 1, e o camisa 10 iniciou sua trajetória de forma discreta, cercado por receios naturais após a lesão. Ainda assim, marcou dois gols ao longo da competição, mas sem conseguir conduzir a equipe ao título.
No Catar, em 2022, a história voltou a ser escrita sob o peso das lesões. Na estreia contra a Sérvia, Neymar sofreu uma entorse no tornozelo e ficou fora da fase de grupos. Retornou apenas nas oitavas de final, contra a Coreia do Sul, quando marcou um gol na vitória por 4 a 1 e mostrou sua importância imediata ao time de Tite. Ainda fez o gol do empate por 1 a 1 com a Croácia, pelas quartas de final. A Seleção acabou eliminada nos pênaltis.
A sequência desses episódios reforça uma narrativa que acompanha o craque há mais de uma década: o talento incontestável que, em momentos decisivos, esbarra na fragilidade física. Assim como aconteceu com Pelé em diferentes contextos, Neymar também vê sua história em Copas ser atravessada por interrupções que acabam influenciando o destino da Seleção Brasileira.
Agora, em 2026, um dia antes da convocação de Carlo Ancelotti, Neymar levou uma pancada na panturrilha. O que parecia não ser grave virou drama. O departamento médico da Seleção Brasileira informou nesta quinta-feira (28) que o jogador tem uma lesão grau 2 no local e será reavaliado dia a dia. O risco de corte ainda não foi cogitado, mas ele ronda o camisa 10 da Seleção, que, diferentemente de Pelé, pode ter um fim sem títulos mundiais ou levantar uma taça no torneio.
Entre gerações distintas, o paralelo se impõe menos como comparação direta de carreiras e mais como um lembrete da imprevisibilidade do futebol em sua forma mais cruel: aquela em que o talento precisa, também, conviver com o acaso do corpo.

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