Como Endrick mudou a rotina, o corpo e furou a fila para chegar à Copa do Mundo
Atacante montou academia em casa, levou preparador do Real e voou no Lyon

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Quando Endrick apareceu entre os convocados de Carlo Ancelotti para a Copa do Mundo, muita gente enxergou apenas o desfecho mais visível da história: os bons números no Lyon ou os 14 minutos decisivos contra a Croácia, em março, quando sofreu o pênalti convertido por Igor Thiago e deu assistência para Gabriel Martinelli. A atuação recolocou o atacante definitivamente no radar da Seleção.
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O que o campo mostrou naquela noite, porém, começou muito antes. Foi resultado de quase 14 meses de uma reconstrução silenciosa, marcada por lesões, mudanças profundas na rotina e um investimento pesado para transformar o próprio corpo em ferramenta de sobrevivência no futebol de elite.
Após o período mais difícil desde sua chegada à Europa, Endrick resolveu mudar a rotina. Em 18 de maio do ano passado, ele sofreu uma lesão no músculo posterior da coxa direita na partida contra o Sevilla. Pouco depois, já nos treinamentos finais antes da viagem da delegação do Real Madrid aos Estados Unidos, uma nova lesão apareceu exatamente na mesma região e o tirou da Copa do Mundo de Clubes.
As duas contusões musculares custaram quase cinco meses longe dos gramados e também as primeiras convocações de Ancelotti para a Seleção. O atacante só voltou a ser relacionado pelo Real Madrid em 20 de setembro de 2025.
Foi nesse período que Endrick decidiu radicalizar os cuidados com a própria preparação. Em Madri, investiu na construção de uma academia particular dentro de casa. O espaço recebeu equipamentos de última geração apresentados pelos mesmos profissionais que atenderam Lionel Messi e Cristiano Ronaldo durante os anos em que atuaram na Espanha. Especialistas do setor estimam que o investimento tenha alcançado aproximadamente R$ 1 milhão.
— A carreira de um jogador profissional vai durar de quinze a vinte anos, dependendo do quanto ele se cuidar, de quando ele chega no time principal. No alto nível, pode durar cinco, sete anos ou quinze. O que vai definir quanto tempo ele vai jogar e quanto tempo ele vai jogar grandes competições, em grandes clubes e, bem, vai depender de como ele construiu e cuidou do corpo dele. Os clubes nos ajudam muito, mas, nos clubes, os objetivos são a busca do melhor para a temporada. Dificilmente um clube vai conseguir unir um plano com o que é melhor para os próximos três, seis meses, com o que é necessário para um jogador nos próximos quinze anos, e por isso o jogador tem que assumir uma parte disso — falou Endrick, em entrevista exclusiva ao Lance!.
O cenário esportivo também começava a mudar rapidamente. Depois de uma temporada sob comando de Ancelotti no Real Madrid, Endrick passou a enfrentar concorrência cada vez maior no elenco merengue. A chegada de Xabi Alonso reduziu ainda mais o espaço do brasileiro. O próprio Ancelotti sugeriu que uma mudança poderia acelerar o desenvolvimento do atacante.
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Cuidar do físico virou prioridade
A transferência por empréstimo para o Lyon surgiu como tentativa de recolocar a carreira em movimento. Endrick desembarcou na França, acompanhado por uma nova etapa no projeto físico pessoal. O argentino Guido Spirandelli, que fazia parte da comissão técnica do Real Madrid, deixou o clube espanhol para trabalhar exclusivamente com o brasileiro.
O movimento representava uma mudança de mentalidade pouco comum para um jogador de apenas 20 anos. Endrick passou a tratar o próprio corpo como projeto central da carreira.
— O jogo é de contato. De invadir espaços. De sair e chegar na frente. Tem que ter força, velocidade e explosão. Isso depende do físico. O jogo não é só físico. Leitura, inteligência e técnica têm a mesma importância. Mas um jogador inteligente, com talento, se não tem um condicionamento de altíssimo nível, não joga em alto nível. A exigência nas principais ligas é muito grande. Intensidade muito alta — completa o atacante.

A preocupação de Endrick com a preparação física não nasceu agora. Desde os 15 anos, quando passou a ter a carreira administrada pela Roc Nation Sports, empresa comandada pelo cantor Jay-Z, o atacante passou a contar com acompanhamento individual fora do ambiente dos clubes. A ideia sempre foi complementar o trabalho diário com planejamento de longo prazo.
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A rotina montada ao redor do atacante passou a envolver muito mais do que treinos complementares. Compressão, câmaras de recuperação, termografia, eletroestimulação, controle rigoroso do sono e alimentação cuidadosamente monitorada passaram a ocupar espaço central na vida do jogador. O objetivo não era apenas ganhar massa muscular ou melhorar desempenho imediato. A preocupação estava ligada à longevidade.

— Atletas de alto nível não precisam apenas manter ou reduzir peso. Precisam ganhar força, acumular energia, se recuperar plenamente de cada dia de trabalho e também aprimorar movimentos, sua mecânica. Muitos atletas se lesionam por negligenciar algum ou mais de um desses componentes — aponta Thiago Freitas, COO da Roc Nation Sports.
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A decisão aprofundou um modelo de preparação que fugia do padrão da maioria dos jogadores da idade dele. O atacante passou a conciliar o trabalho diário do clube francês com sessões particulares e acompanhamento individualizado.
Os efeitos começaram a aparecer rapidamente. Endrick marcou logo na estreia pelo Lyon e transformou a mudança de ambiente em afirmação esportiva. Se, no Real Madrid, em 2025, havia disputado 25 partidas, marcado cinco gols e participado diretamente de um gol a cada 159 minutos, na França, o impacto se tornou muito maior.

Em 21 jogos, 8 gols e 8 assistências
Em 21 jogos pelo Lyon em 2026, sendo 19 como titular, marcou oito gols e distribuiu oito assistências. Passou a participar diretamente de um gol a cada 101 minutos. Também aumentou drasticamente a influência no jogo: saltou de 12,6 para 39,5 ações com a bola por partida e passou a registrar média de 2,1 dribles certos por jogo. A mudança apareceu também na agressividade ofensiva. Foram 71 finalizações e 11 grandes chances criadas.
A evolução física ajudou a potencializar exatamente as características que mais agradam a Ancelotti. Endrick passou a atuar tanto aberto pelos lados quanto como centroavante, oferecendo profundidade, aceleração e intensidade em um setor ofensivo que buscava novas alternativas.
O momento decisivo aconteceu em março, diante da Croácia. Foram apenas 14 minutos em campo pela Seleção em 2026. Tempo suficiente para sofrer um pênalti, distribuir uma assistência e mudar completamente a dinâmica da partida. A atuação condensou em poucos lances tudo o que Endrick vinha tentando construir nos bastidores: explosão física, agressividade, capacidade de atacar espaços e intensidade.
O atacante inicialmente era tratado como nome para o ciclo da Copa de 2030. Furou a fila. Seis meses depois de trocar Madri por Lyon, a aposta na França se mostrou decisiva.
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