De Soberano ao caos: como a instabilidade fez do São Paulo uma máquina de trocar técnicos
Instabilidade e crise explicam o São Paulo antes mesmo do início do novo técnico

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Com apenas dois meses e um dia de trabalho, Roger Machado deixou o cargo no São Paulo. Uma demissão que começou antes mesmo de seu anúncio, mas que teve influência considerável e forte da parte política e de uma crise que passa longe de ser algo recente, mas sim de uma situação que se arrasta há mais de quatro gestões.
O episódio escancara um padrão que se arrasta há mais de uma década no Morumbi: a dificuldade do clube em sustentar projetos esportivos em meio a crises políticas, mudanças de rumo e decisões tomadas sob pressão. Um lado político que, por muitas vezes, acaba falando até mais alto do que a bola rolando.

De "Soberano" até a crise
Nos anos 2000, o São Paulo tinha o posto de "Soberano". Tricampeão Mundial, tricampeão brasileiro entre 2006 e 2008 e com uma prateleira de ídolos, chegou a ser apontado como modelo de gestão. O clube-modelo era referência em vários aspectos. Centro de formação de base, revelando atletas para Europa, de recuperação e tecnologia. Era um clube que assistia à crise dos rivais enquanto servia de referência internacional.
A partir da década seguinte, porém, o cenário mudou. O último título internacional veio em 2012, na conquista da Copa Sul-Americana. Desde então, o clube acumulou frustrações esportivas, perdeu protagonismo e passou a conviver com crises financeiras e disputas políticas constantes nos bastidores.
A gestão Juvenal Juvêncio foi o estopim para a crise começar. Presidente em três mandatos consecutivos, Juvenal comandou o clube durante a fase mais vitoriosa recente. Com o passar dos anos, porém, a hegemonia interna deu lugar ao desgaste natural de um grupo que concentrava poder havia muito tempo.
A crise começou justamente após o tricampeonato nacional. Nesta centralização do poder nas mãos de Juvenal Juvêncio, o estatuto foi alterado, justamente para garantir mais mandatos, como acontecia como outros clubes, o que atrapalhava qualquer projeto de evolução política ou renovação.
Cresceram críticas sobre centralização administrativa, dificuldade de renovação política e decisões menos eficientes no futebol. O time já não repetia o desempenho dos anos anteriores, a base financeira começava a sofrer impactos e o ambiente interno dava sinais de fragmentação. O Lance! conversou com Alexandre Giesbrecht, historiador com profundo conhecimento sobre o clube e dono do "Anotações Tricolores".
— A crise começou, sem sombra de dúvidas, com o golpe do Juvenal. E é sintomático, porque, ao mesmo tempo em que ele demitiu o Muricy porque os títulos vinham "da estrutura", ele também achou que era a única pessoa que poderia comandar o São Paulo, dando o golpe do terceiro mandato, que se somou ao aumento dos mandatos de dois para três anos. Pode até ser coincidência, mas, em 1978, o São Paulo passou a ter dois anos de mandato com uma reeleição (antes, eram dois anos de mandato desde o início dos anos 1950, mas com reeleições ilimitadas, o que fez com que o clube tivesse apenas três presidentes em 31 anos). Nesse formato, passou a haver uma boa rotatividade de cabeças na presidência e, coincidência ou não, saiu o período mais glorioso da história do clube. Aí, o Juvenal deu o golpe — explicou.
Nos últimos anos de Juvenal, o clube já passou por mudanças no comando técnico. Depois de Ricardo Gomes, saíram Paulo César Carpegiani, Adilson Batista, Emerson Leão, Ney Franco, além dos retornos de Muricy Ramalho. A sucessão de treinadores mostrava que o São Paulo começava a perder justamente uma das marcas que o fortaleceu no passado: a continuidade.

Carlos Miguel Aidar e a ascensão das turbulências
Na sequência, a eleição de Carlos Miguel Aidar, em 2014, ocorreu sob promessa de modernização e retomada de competitividade. O mandato, porém, rapidamente mergulhou em turbulência. O presidente passou a conviver com denúncias, disputas internas e sucessivas rupturas com aliados. O clima político se deteriorou a ponto de paralisar decisões estratégicas e contaminar todas as áreas do clube. A crise culminou na renúncia de Aidar, em 2015, em um dos episódios mais traumáticos da história administrativa são-paulina.
No futebol, os reflexos foram imediatos. Muricy Ramalho deixou o comando em 2015, Juan Carlos Osorio teve passagem curta e deixou o clube no mesmo ano, enquanto Dorival foi aposta emergencial antes da chegada de Edgardo Bauza. Em pouco mais de um ano, o São Paulo trocou diversas vezes de treinador em meio ao caos institucional.

A saída de Osório foi bastante polêmica. Quando recebeu proposta para assumir a seleção do México, optou por deixar o Morumbi após apenas 26 partidas. Em diversas oportunidades, deixou claro e explícito como a política influenciava em seu trabalho.
— A situação é delicada, mas não é o melhor momento para dar uma resposta final. Tenho sentimentos confusos. Todos conhecemos como é o ser humano; vou analisar a situação com a minha família e decidir. Depois do jogo anterior, recebi uma mensagem de um membro da diretoria e fiquei muito surpreso. Vou pensar. Pensarei no que é o melhor. Não me falaram que venderiam tantos jogadores. Se vocês lembrarem os primeiros jogos, com todo o elenco, tivemos várias vitórias consecutivas. Quando perdemos jogadores, começamos a descer. Normal. Trabalho com o elenco que está aqui, escalo o time que está ao meu alcance – foi uma fala que marcou a saída de Osório, em 2015.

A troca sucessiva de treinadores naquele período reforçou um recorde negativo que começava a se consolidar. O São Paulo, antes reconhecido por ciclos longos e estabilidade técnica, passou a frequentar listas dos clubes que mais mudavam de comando no país. Entre 2015 e 2017, o time teve Muricy Ramalho, Osorio, Dorival, Bauza, Ricardo Gomes e Rogério Ceni. Seis treinadores em pouco mais de dois anos.
Gestão Leco
Leco assumiu inicialmente como solução de transição, mas passou a conviver desde o início com resistência interna, oposição ativa e questionamentos sobre legitimidade política. O Conselho Deliberativo virou palco frequente de embates entre grupos, votações tensas e cobranças públicas, cenário que manteve o São Paulo em permanente clima eleitoral mesmo fora do período de eleição.
Neste período, começaram a ser ouvidos com mais força os lados da oposição, justamente por esta ruptura que acontecia internamente.
O clube buscava equilibrar as contas ao mesmo tempo em que precisava investir para competir com rivais que se modernizavam e ampliavam receitas. Sem margem para grandes erros, o São Paulo alternou cortes de gastos, contratações pontuais e decisões emergenciais, muitas delas tomadas sob forte cobrança externa.
No departamento de futebol, a falta de continuidade virou marca do período. Edgardo Bauza levou o time até a semifinal da Libertadores de 2016, reacendendo momentaneamente o protagonismo continental, mas deixou o clube logo depois para assumir a seleção argentina. Em seguida vieram Ricardo Gomes e Rogério Ceni. A aposta no ídolo como treinador carregava enorme apelo emocional, mas ocorreu em ambiente instável e sem estrutura consolidada. Ceni caiu poucos meses depois, em meio à luta contra a parte de baixo da tabela.

A temporada de 2017 talvez tenha sido o retrato mais dramático da era Leco. O São Paulo, acostumado a disputar títulos, passou meses ameaçado de rebaixamento no Campeonato Brasileiro. O clube trocou de treinador novamente e contratou Dorival Júnior para salvar a equipe.
Em 2018, Diego Aguirre conseguiu reorganizar a equipe e levou o time à liderança do Brasileiro por várias rodadas. Na reta final da gestão, em 2020, quem marcou presença foi Fernando Diniz.
Casares e um dos episódios mais sombrios da história tricolor
A eleição de Julio Casares, no fim de 2020, representou a promessa de uma nova fase. Em campo, houve respostas importantes. O clube conquistou o Campeonato Paulista de 2021, encerrando um jejum de títulos que já pesava internamente, e em 2023 levantou a inédita Copa do Brasil, conquista que recolocou o São Paulo em posição de destaque nacional.
Ao mesmo tempo, uma mudança estatutária aprovada no período eleitoral acendeu novos debates. Em 2023, Casares não teve concorrência nas eleições, mas o lado obscuro da política são-paulina começou a aparecer mais, terminando em um processo de impeachment, casos registrados na polícia, destituições, camarotes ilegais e desvios de dinheiro, que passaram a ser mais manchetes do que o lado esportivo do clube.
Mesmo assim, a troca de técnicos foi um dos demonstrativos da má gestão. O caso mais marcante foi a saída de Hernán Crespo em 2021. Responsável por encerrar o jejum de títulos com a conquista paulista, o argentino deixou o comando poucos meses depois, de forma abrupta e sem o prestígio compatível com o feito recente. A demissão foi tratada por muitos como uma saída pela porta dos fundos.

Ceni voltou, mais uma vez, para tentar restabelecer a relação com a torcida. Após momentos de baixa, foi a vez de Dorival Júnior, o nome que mais marcou positivamente e que é cotado para retornar. Com proposta da Seleção, após um ano campeão, veio Thiago Carpini, aposta para renovação que resistiu pouco tempo diante da pressão por resultados.
Em seguida, Luis Zubeldía assumiu com respaldo interno. A diretoria insistiu na permanência do treinador, mesmo com a torcida sempre se posicionando contra. Em um ciclo vicioso que acompanha a década, houve mais um retorno de identificação com a torcida: Crespo.
A saída de Crespo, desta vez, foi a cereja do bolo para muitas rupturas. Demitido sem justificativa clara, muito por ir contra alguns posicionamentos, Roger Machado chegou como "escudo" e se despediu do São Paulo em rixa com a torcida, mesmo que não tenha sido sua culpa.
O novo treinador chega ao São Paulo em um momento de forte instabilidade institucional. O clube enfrenta um cenário de incertezas na diretoria, com presidente sob pressão, cargos importantes como marketing e Conselho Consultivo sem comando definido e disputas internas no Conselho Deliberativo. A Comissão de Ética voltou a atuar após período de paralisação, aumentando o clima de tensão política nos bastidores.
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