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Por que Wall Street está olhando para os mercados de previsão

Mercado de previsão e Wall Street: como os bancos entraram no jogo

PorMatheus CelticRio de Janeiro (RJ)
21/08/2026 12:45
Mercado de previsão e Wall Street como os bancos entraram no jogo
Mercado de previsão e Wall Street: como os bancos entraram no jogo

Durante muito tempo, mercados de previsão foram vistos principalmente como produtos de nicho.

Isso começou a mudar.

Firmas de trading, bancos e instituições financeiras passaram a estudar esses mercados porque perceberam que existe algo valioso ali além da possibilidade de especular sobre um evento:

informação.

Um contrato sobre juros, por exemplo, não mostra apenas quem está comprando ou vendendo.

Ele mostra quanto o mercado está disposto a pagar por cada cenário.

Se um contrato está sendo negociado a US$0,65, podemos ler aquele preço como aproximadamente 65% de probabilidade implícita.

Para Wall Street, isso transforma eventos futuros em algo que pode ser precificado, negociado e até usado para proteção de risco.

E é justamente por isso que nomes como Susquehanna, Jump Trading e DRW começaram a olhar para esse mercado.

Primeiro: o que é um mercado de previsão?

Um mercado de previsão permite comprar e vender contratos ligados ao resultado de algum acontecimento futuro.

Pode ser:

  • uma decisão de juros;
  • uma eleição;
  • um dado econômico;
  • o valuation de uma empresa;
  • um resultado esportivo;
  • uma decisão regulatória.

Normalmente, um contrato resolve em US$1 caso o evento aconteça e US$0 caso não aconteça.

Mas o mais interessante acontece antes da resolução.

Enquanto o mercado está aberto, o contrato é negociado.

Se estiver custando US$0,65, o mercado está colocando aproximadamente 65% de probabilidade naquele resultado.

Se novas informações aparecem e o preço sobe para US$0,80, a leitura muda para aproximadamente 80%.

É quase como acompanhar uma ação.

A diferença é que, em vez de o preço representar quanto uma empresa vale, ele representa quanto o mercado acredita em determinado acontecimento.

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Information finance: transformar informação em mercado

Existe um termo cada vez mais usado para explicar essa ideia:

information finance, ou finanças da informação.

A lógica é simples.

Pegue uma pergunta:

"O Federal Reserve vai cortar os juros?"

Agora transforme as possíveis respostas em contratos negociáveis.

Pessoas com informações, modelos e opiniões diferentes começam a comprar e vender.

O resultado dessas negociações vira um preço.

Esse preço passa a funcionar como uma informação pública sobre o que o mercado acredita naquele momento.

É parecido com o mercado financeiro tradicional.

O preço da Nvidia não representa a opinião de uma pessoa sobre a Nvidia.

Ele é resultado de milhares de investidores comprando e vendendo ao mesmo tempo.

Mercados de previsão tentam fazer algo parecido com acontecimentos futuros.

A diferença é que aqui o ativo negociado é, na prática, uma probabilidade.

Por que opções e futuros não resolvem exatamente o mesmo problema

Wall Street já possui futuros, opções, swaps e dezenas de outros instrumentos.

Então por que criar mais um?

Porque contratos de evento conseguem responder perguntas muito específicas.

Imagine que você queira saber:

"Qual é a chance de o Fed cortar os juros na próxima reunião?"

Você consegue tentar extrair essa informação de contratos futuros.

Também pode analisar opções.

Pode olhar pesquisas com economistas.

Mas normalmente existe algum cálculo ou interpretação no meio.

Em um mercado de previsão, a leitura pode ser muito mais direta.

FerramentaO que ela mostra

Pesquisa

O que determinado grupo diz acreditar

Futuro

Expectativa sobre o preço futuro de um ativo

Opção

Distribuição de preços e volatilidade

Contrato de evento

Probabilidade implícita de um resultado específico

Se um contrato está a US$0,38, a leitura básica é:

aproximadamente 38% de probabilidade.

Essa simplicidade é uma das grandes vantagens.

Mercados de previsão conseguem transformar praticamente qualquer evento em preço

Outra diferença importante é o tipo de risco que pode ser negociado.

Mercados tradicionais funcionam muito bem para coisas como:

  • dólar;
  • petróleo;
  • juros;
  • ações;
  • commodities.

Mas existem eventos muito específicos que não possuem um ativo financeiro óbvio.

Por exemplo:

A Nvidia continuará sendo a empresa mais valiosa do mundo?

O Fed reduzirá os juros exatamente na próxima reunião?

Uma empresa vai fazer IPO antes de determinada data?

É aí que contratos de evento começam a ficar interessantes.

Uma pergunta binária pode virar um mercado.

E esse mercado pode produzir um preço.

O case da Marex e da Nvidia

Um dos exemplos mais interessantes dessa aproximação entre mercados de previsão e finanças tradicionais veio da Marex.

A empresa estruturou um produto de US$10 milhões ligado a uma pergunta bastante simples:

A Nvidia continuará sendo a empresa de maior valor de mercado?

O produto funcionava assim:

    1.
  1. Valor: US$10 milhões.
  2. 2.
  3. Condição: pagar 7% de juros caso a Nvidia permanecesse como a empresa mais valiosa.
  4. 3.
  5. Principal: protegido.
  6. 4.
  7. Proteção da Marex: contratos negociados na Kalshi.

Isso é interessante porque mostra uma mudança importante.

Uma pergunta que poderia existir normalmente dentro de um mercado de previsão passou a fazer parte da estrutura de um produto financeiro tradicional.

Na prática, o contrato de evento virou uma peça de engenharia financeira.

Um contrato pode funcionar como hedge

Esse exemplo também ajuda a entender uma das aplicações que mais interessa às instituições.

Hedge.

Imagine uma empresa que perde dinheiro caso determinado evento aconteça.

Talvez seja:

  • uma decisão do banco central;
  • determinada condição climática;
  • uma mudança regulatória;
  • um resultado econômico específico.

Se existir um contrato diretamente ligado àquele evento, a empresa pode abrir uma posição que ajude a compensar parte da perda.

Isso é diferente de tentar montar uma proteção indireta usando ações, opções ou outros ativos relacionados.

Você está tentando negociar exatamente o risco que importa.

É essa granularidade que chama atenção.

O Federal Reserve começou a estudar esses preços

Outro sinal importante veio do próprio Federal Reserve.

Em fevereiro de 2026, pesquisadores ligados ao Fed publicaram um estudo chamado "Kalshi and the Rise of Macro Markets".

O trabalho comparou preços de mercados de previsão relacionados a juros com fontes tradicionais de expectativa.

Entre elas:

  • consenso da Bloomberg;
  • pesquisa do Federal Reserve de Nova York;
  • contratos futuros de juros.

Segundo o estudo citado no material original, os preços desses mercados conseguiram antecipar decisões de juros de forma competitiva com essas fontes tradicionais.

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Para quem acompanha mercados, isso é interessante por um motivo simples.

O preço deixa de ser apenas algo usado por quem está operando o contrato.

Ele também pode ser observado como dado.

Você nem precisa negociar.

Pode simplesmente olhar o mercado para entender o que participantes com dinheiro em risco estão precificando.

Por que Wall Street vê dinheiro nesse mercado

Existe outro motivo bem mais simples para bancos e firmas de trading estarem interessados:

existem várias formas de gerar receita.

Market making

Criadores de mercado mantêm ordens de compra e venda e tentam capturar o spread.

É uma atividade que grandes firmas de trading já fazem em ações, opções, cripto e outros mercados.

Arbitragem

O mesmo evento pode ter preços diferentes em plataformas diferentes.

Se um contrato equivalente estiver sendo negociado a preços incompatíveis, traders podem tentar capturar essa diferença.

Produtos estruturados

O exemplo da Marex mostra uma possibilidade.

Contratos de evento podem ser utilizados dentro da estrutura de produtos financeiros maiores.

Execução de grandes ordens

Conforme fundos entram, surge demanda por infraestrutura capaz de executar operações maiores sem movimentar demais o mercado.

Dados

Talvez uma das partes mais interessantes no longo prazo.

Um histórico de probabilidades sobre:

  1. inflação;
  2. juros;
  3. eleições;
  4. política;
  5. economia;
  6. empresas;

pode ser valioso mesmo para quem nunca negocia um contrato.

O dado em si pode virar produto.

Susquehanna, Jump e DRW

Algumas das empresas que começaram a aparecer nesse mercado não são nomes pequenos.

Susquehanna, Jump Trading e DRW são firmas conhecidas por operar mercados altamente competitivos.

Elas trabalham com:

  • market making;
  • arbitragem;
  • algoritmos;
  • opções;
  • execução de alta frequência;
  • gestão de risco.

A entrada desse tipo de participante muda o nível do mercado.

Eles não precisam ter uma opinião forte sobre quem vai ganhar uma eleição ou qual será a próxima decisão do Fed.

O interesse pode estar simplesmente na estrutura.

Se existe spread, volatilidade, fluxo e preço, existe algo que pode ser modelado.

Instituições ainda representam uma parte pequena

Apesar de toda essa atenção, é importante colocar o tamanho atual do mercado em perspectiva.

Segundo os dados citados no material original, a participação institucional ainda era estimada em menos de 5% do total em aberto.

Isso significa que Wall Street está olhando para o setor, mas ainda não domina o mercado.

E existe um motivo importante:

liquidez.

O grande desafio ainda é liquidez

Para uma pessoa operando US$500 ou US$5 mil, determinado mercado pode parecer bastante líquido.

Para um fundo querendo executar US$50 milhões, a situação muda completamente.

Uma ordem muito grande pode simplesmente destruir o preço que o fundo queria negociar.

Imagine um contrato a 20%.

O fundo começa a comprar.

20%.

22%.

26%.

31%.

40%.

Quando termina de montar a posição, o próprio fundo já empurrou o mercado contra ele.

Esse problema existe em praticamente qualquer mercado financeiro.

Mas é especialmente importante em mercados de previsão menores.

Quanto maior o capital institucional, mais profundidade é necessária.

Por que market makers são tão importantes

É justamente aqui que entram firmas como Susquehanna, Jump e outras casas especializadas.

Um mercado com bons criadores de mercado tende a ter:

  • spreads menores;
  • mais ordens disponíveis;
  • maior profundidade;
  • execução mais eficiente.

Isso torna possível operar volumes maiores sem mover tanto o preço.

É um ciclo.

Mais liquidez atrai traders maiores.

Traders maiores geram mais volume.

Mais volume pode atrair novos market makers.

E mercados mais profundos tornam o produto mais interessante para instituições.

Mais dinheiro também muda a competição

A entrada institucional não significa apenas mais liquidez.

Significa também competição mais forte.

Um trader operando manualmente passa a dividir o mesmo mercado com empresas que possuem:

  • modelos quantitativos;
  • equipes de pesquisa;
  • dados alternativos;
  • infraestrutura de execução;
  • algoritmos;
  • capital muito maior.

Isso já acontece em ações, futuros, opções e cripto.

Se os mercados de previsão continuarem crescendo, é natural que a mesma profissionalização aconteça aqui.

A informação talvez seja mais valiosa que a própria operação

Essa é uma parte que eu considero especialmente interessante.

Imagine um gestor de fundos tentando entender a probabilidade de um corte de juros.

Ele pode:

  • entrevistar economistas;
  • montar seus próprios modelos;
  • acompanhar futuros;
  • analisar opções.

E agora pode também observar um mercado em que milhares de participantes estão literalmente colocando dinheiro em diferentes cenários.

Mesmo que o fundo nunca opere naquele mercado, o preço pode entrar no modelo.

Nesse caso, o produto mais valioso não é necessariamente o contrato.

É a informação produzida pelas negociações.

É isso que torna a ideia de information finance interessante.

Os principais riscos

Liquidez baixa

Nem todo contrato possui volume suficiente para produzir um preço robusto.

Em mercados pequenos, poucas ordens podem movimentar bastante o preço.

Manipulação

Quanto menor o mercado, mais fácil pode ser movimentá-lo temporariamente com uma ordem grande.

Por isso, nunca faz sentido olhar apenas para a porcentagem exibida na tela.

Volume, spread e profundidade importam.

Probabilidade não é certeza

Um contrato a 70% continua podendo resolver no cenário de 30%.

O mercado está mostrando uma estimativa.

Não o futuro.

Qualidade do sinal

Um mercado ter funcionado bem para prever decisões de juros não significa que todos os mercados terão a mesma qualidade.

Alguns eventos possuem muito mais informação disponível que outros.

Regulamentação

O enquadramento dos mercados de previsão varia entre países.

No Brasil, autoridades passaram a enquadrar determinadas plataformas dentro das regras aplicáveis às apostas de quota fixa.

Nos Estados Unidos, algumas bolsas de contratos de evento operam sob supervisão federal da CFTC.

Por isso, o tratamento jurídico depende da plataforma, do produto e da legislação aplicável.

O que você precisa lembrar

Wall Street está olhando para mercados de previsão porque eles juntam duas coisas muito valiosas para o mercado financeiro:

informação e negociação.

Um contrato de evento consegue transformar uma pergunta específica em um preço.

Esse preço pode ser utilizado para:

  • especulação;
  • trading;
  • market making;
  • arbitragem;
  • hedge;
  • análise de probabilidades;
  • produtos estruturados;
  • geração de dados.

Já existem exemplos concretos dessa aproximação.

A Marex utilizou contratos da Kalshi na estrutura de um produto de US$10 milhões ligado à Nvidia.

Pesquisadores do Federal Reserve começaram a estudar esses preços como sinais para decisões macroeconômicas.

Firmas especializadas como Susquehanna, Jump e DRW também passaram a participar do setor.

Ao mesmo tempo, o mercado ainda enfrenta uma limitação importante: liquidez.

Instituições operam em uma escala completamente diferente do varejo, e muitos contratos ainda não possuem profundidade suficiente para receber ordens enormes.

Por isso, o ponto mais interessante talvez não seja simplesmente que "Wall Street chegou".

É entender por que essas instituições começaram a olhar para esse mercado.

Porque, pela primeira vez, uma quantidade enorme de acontecimentos que antes existiam apenas como perguntas pode começar a existir também como preços.

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