O fim do impossível: como atletas correram maratona abaixo de 2h
Tecnologia dos tênis, genética, evolução do treino: entenda as razões do recorde

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No último domingo (26), em Londres, o queniano Sabastian Sawe protagonizou o que parecia impossível até pouco tempo atrás, ao quebrar a barreira das duas horas na mais tradicional prova do atletismo, a maratona. Ele completou os 42,195 km da prova em 1h59min30s. Um feito impressionante: imagine ir para uma esteira ergométrica na academia e correr na velocidade de 21 km/h por quase duas horas seguidas!! Pois foi o que Sawe conseguiu fazer, aproveitando condições ideias - temperatura entre 13°C e 17°C e um percurso com a maior parte em ruas planas. Mas o novo recordista mundial valeu-se também de outros fatores que explicam o feito histórico: tecnologia de ponta, genética, evolução da ciência biomecânica e da qualidade de nutrição, além do monitoramento preciso do desgaste e da recuperação do corpo humano.
A façanha não foi apenas de Sawe. O etíope Yomif Kejelcha, segundo colocado, também correu a prova abaixo de duas horas. Os três primeiros marcaram tempos melhores do que o recorde mundial anterior, de 2h00min35s. O que, na opinião de um dos especialistas ouvidos pelo Lance!, Abdalan da Gama, professor e pesquisador independente na área de fisiologia do exercício, confirma que vivemos uma nova era na modalidade.
- O que houve em Londres foi um salto operacional, não apenas biológico. Há uma integração clara entre fisiologia, nutrição e instrumentação. O que vimos no dia 26 de abril foi um corpo humano sustentado por um sistema novo. Sawe manteve, por duas horas, uma intensidade muito próxima do seu limiar fisiológico, algo que a literatura clássica considerava insustentável nessa duração. O teto biológico não mudou. Sawe não corre num corpo humano novo. O que mudou foi a capacidade de operar perto desse teto numa janela de tempo maior, com fornecimento energético em tempo real e uso de tecnologia e dispositivos de medição que não existiam há dez anos. Não se trata, portanto, de fenômeno isolado, mas de uma mudança de regime - explicou.
A ciência entrou em cena para monitorar com precisão os treinos do campeão da maratona. A fabricante de suplementos nutricionais Maurten passou 32 dias com Sabastian Sawe no Quênia ao longo de 12 meses, conduzindo testes com vários parâmetros, para controlar o consumo de energia do atleta.
- Foram testes com marcação isotópica de carbono-13, água duplamente marcada, VO₂ máximo, economia de corrida, lactato, sangue, bioimpedância, monitoramento de carga e termorregulação. Esse é o salto invisível que venho enfatizando repetidamente. O treinamento virou um sistema totalmente mensurável. Sawe chegou a treinar até 240 quilômetros por semana, mas o queniano dos anos 2000 também já fazia isso. A diferença é que hoje cada quilômetro é instrumentado - observou Abdalan.
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Campeão terminou a prova acelerando
A questão da nutrição e reposição de energia durante a prova através de géis e líquidos é outro ponto importante na quebra do recorde. Sawe e Kejelcha não se preocuparam tanto em poupar forças e terminaram a prova acelerando, num grande duelo até a linha de chegada.
- A maratona deixou de ser um problema de estoque de energia e virou um problema de fluxo. Historicamente, o atleta dependia de reservas finitas de glicogênio muscular. A famosa "parede" dos 30 km, jargão comum entre atletas para designar o colapso fisiológico, surgia justamente quando essas reservas se esgotavam. Hoje, com ingestão de 90 a 120 gramas de carboidrato por hora durante a prova, parte significativa da energia é fornecida em tempo real. É o que chamo de sistema de fluxo. Sawe consumiu, em média, 115 g de carboidrato por hora, bem acima dos 60 a 90 g/h considerados padrão para maratonistas até pouco tempo atrás. O resultado é o mais contraintuitivo. Sawe correu a segunda metade da prova em 59s01, o trecho final mais rápido da história da maratona, 44 segundos mais veloz que a segunda metade da prova do antigo recordista, Kelvin Kiptum, em Chicago, 2023. Ele acelerou no final. Isso é o oposto da parede. É aceleração contra a fadiga - pontuou Abdalan.

Genética, região geográfica e até fatores culturais influem
A escolha do Quênia como local de treinamento do campeão não foi por acaso. Fatores geográficos, genéticos e até culturais explicam o sucesso dos quenianos na maratona e em provas de longa distância do atletismo, como explica Lauter Nogueira, educador físico, treinador olímpico e jornalista esportivo. Por que os africanos têm tanto sucesso nessas competições?
- A resposta é a gênesis, o berço deles. É muito interessante que o Nordeste da África, chamado de Chifre, é o nascedouro desses atletas especialíssimos, Eritréia, Etiópia, Quênia, Uganda e, às vezes, Tanzânia. Por que eles vêm dali? É uma parte da África em que se praticava há milhares de anos o nomadismo. As pessoas ficavam certo tempo em condições de plantar rapidamente, colher e se alimentar, geralmente, de grãos e raízes. As dietas deles eram, basicamente, de carboidratos de média e longa absorção, que é o melhor combustível que existe. E também existe o fato de que, nos últimos 70, 100 anos, esses lugares prezarem demais por manter o conhecimento da história de seus ancestrais. Para isso, eles matriculavam seus filhos nas poucas escolas que existiam. E a distância para as escolas fazia com que as crianças e depois jovens fossem e voltassem cumprindo grandes distâncias, muitas vezes correndo.
O técnico olímpico também aponta o clima do país de origem de Sawe como um trunfo:
- Em grande parte do Quênia, existe uma altitude perfeita para treinamento, de 2.200m a 2.400m, em clima quase temperado, ao lado de grandes lagos, dando uma possibilidade real de um ambiente perfeito para treinamento. Conforme o tempo foi passando, começamos a ver o hino do Quênia, Etiópia, e, agora, mais recentemente, Uganda ser tocado mais de uma vez na mesma Olimpíada. Antes eram apenas nas provas de fundo e maratona, hoje eles já flertam com os 400m, 800, 1.500, 3.000m com obstáculos, que o Quênia domina há duas ou três décadas. Virou um celeiro de grandes atletas.
Competição nos treinos estimula atletas
Adauto Domingues, bicampeão pan-americano e ex-técnico de Marílson Gomes do Santos, bicampeão da Maratona de Nova York, acredita que um conjunto de fatores fez com que o recorde tivesse sido batido. Entre eles, o ambiente de competição de alto nível na prova e até nos treinos.
- A gente sabe que o técnico italiano Claudio Berardelli, que mora há anos com eles, realiza treinos extremamente duros. E fazer parte de um grupo de corredores de alto nível é fundamental para a evolução. São atletas extremamente rápidos. Por exemplo, os que correm acima de 30 minutos nos 10.000m não teriam a mínima condição. É preciso juntar atletas mais rápidos para ter uma gordura, que fazem 1h00 cravada na meia-maratona, depois dobram para 59 minutos. O que faz correr é um conjunto de situações, treinamento, material esportivo, que hoje é fundamental. Sabemos a evolução dos tênis, há estudos que dão 3 a 4 minutos no resultado da maratona, são atletas que iam correr 2h03m e fazem 1h59m. E principalmente pelo equilíbrio da prova. Se o líder tivesse escapado, ficasse sozinho, talvez não aconteceriam essas marcas. Eles estavam juntos até o 41º quilômetro e correram um absurdo nos últimos dois quilômetros, e só aconteceu isso devido à disputa dos dois no final - analisou Adauto.

A tecnologia dos tênis: fibra de carbono e só 97g de peso
A tecnologia é um dos aliados na quebra dos recordes no atletismo, de uma maneira geral, nos últimos anos. E não foi diferente no domingo.
- A tecnologia mais visível é o calçado. Os tênis com placa de carbono reduzem o custo metabólico em cerca de 4%, o equivalente a quase cinco minutos numa maratona de duas horas. O modelo usado por Sawe, o Adidas Adizero Adios Pro Evo 3, é o primeiro tênis de maratona com placa de carbono a pesar menos de 100 gramas, com entressola de 39 mm, quase no limite máximo permitido pela World Athletics. - observou Abdalan Gama.

A evolução dos treinos e da biomecânica
Adauto lembra da evolução da biomecânica. Mas ressalta que o talento individual de cada atleta também faz a diferença.
- Toda a parte de ciência é fundamental nos resultados, na evolução de todas as áreas, de equipamentos, de tecnologia. A biomecânica, por exemplo, é extremamente importante na aplicação de força, para que você cada vez tenha menos gasto energético para realizar a mesma intensidade, a mesma distância. Tudo isso hoje favorece três parâmetros muito confiáveis e conhecidos: o vo2 máximo (capacidade aeróbica total) e limiar anaeróbio (intensidade sustentável) e a economia. E essa economia faz com que eu consiga elevar o meu limiar lá em cima, mantendo uma velocidade de nível dois por mais tempo. Tem também a questão da nutrição, da fisiologia, tecnologia, com os supertênis, mas o principal nessa história toda é a qualidade desses atletas. Posso colocar um tênis desses muito bom em outros atletas e não vão conseguir fazer essa marca.
Sobre essa questão, Lauter pontua que a evolução dos treinos, com foco na qualidade e na intensidade, é um dos diferenciais.
- A tecnologia usada na preparação desses atletas é a mesma no mundo inteiro para esportistas de alta performance. Há monitoramento cardíaco, testes e subtestes, praticamente eles são testados a cada treino. Geralmente fazem de 12 a 13 treinos por semana, de manhã e de noite, algumas vezes até em três sessões no mesmo dia, gerando um volume normal de 180, 190, 200 quilômetros, tirando um pouco o que Sawe disse, ele atingia na fase de treinamento 240, 250, às vezes 260 quilômetros por semana. Mas isso perto do que os maratonistas percorriam semanalmente treinando nas décadas de 70, 80, começando nos anos 90, é brincadeira, normalmente eram 300, 310, 315 quilômetros. O que mudou é que são 200 e poucos, 230, 220 km com altíssima intensidade e totalmente monitorados, cada método percorrido desses 200 e poucos quilômetros tem um motivo em termos de volume e intensidade e é checado diariamente. Essa talvez seja a grande diferença e a mudança no treinamento físico é esse, dando mais ênfase à intensidade, à qualidade, em detrimento da quantidade. E aí, basta sofrer bastante para sobreviver - explicou.
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