Lauter no Lance!: Do que falo, quando falo de maratonas! Parafraseando Murakami

Pensando em recordes, mas antes falemos sobre vidas salvas

PorLauter NogueiraRio de Janeiro (RJ)
02/05/2025 12:43
Atualizado em 20/05/2025 17:27
Tigst Assefa - Maratona de Londres 2025
Tigst Assefa cruza a linha de chegada - Maratona de Londres 2025

Depois de um abril desembestado, onde muita coisa interessante e estranha aconteceu, resolvi parar, respirar fundo, preparar um forte café, e propor a todos vocês, 11 ou 12 assíduos comparsas: precisamos conversar sobre as maratonas de abril!

Algumas performances especiais e alguns fatos relevantes aconteceram nas maratonas de abril, no hemisfério norte, mais precisamente em Paris, Boston e Londres.

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Um fato comum às três provas foi a altíssima adesão, mostrando que o número de inscritos é infinitamente menor do que o de pretendentes, por contado rigor dos organizadores quanto à segurança e conforto dos participantes. Tanto Paris como Londres tiveram mais de 50 mil participantes cada (Paris: 57.000 e Londres: 56.500), mas o que assusta e quase me faz engasgar com o café recém feito, são os números de inscritos para os respectivos sorteios de inscrições: 830 mil e 845 mil, respectivamente!

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Quanto a Boston, os números são forçadamente menores, por conta dos tempos de prova exigidos para cada categoria de idade. Mesmo assim, se tivesse livre acesso, mataria Woodstock de inveja.

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Mas eu gostaria de conjecturar (gostei, não a uso há tempos) sobre dois casos, um ocorrido em Boston e reverberou muito nas redes sociais, e outro, em Londres, uma estreia estrondosa, que nos faz sonhar com recordes:

Boston, 21 de abril, a 300 metros da chegada...

... o maratonista brasileiro de Niterói, Pedro Arieta (um ótimo triatleta que tinha a corrida como sua melhor modalidade, e acabou dedicando suas últimas temporadas à maratona, e queria baixar de 2h40 em Boston) seguia firme para atingir a chegada e a meta de sub 2h40. Só que uma imagem logo à sua frente faz mudar seu destino na prova: um atleta ajoelhado, tenta se erguer e seguir para a chegada, mas, provavelmente, por exaustão e baixo nível de oxigênio e glicose no cérebro, não conseguia coordenar seus movimentos, denotando severo descontrole motor. Nesse momento, por compaixão, empatia e humanidade, Arieta abre mão de seu sonhado sub-2h40 e tenta erguer e arrastar seu adversário (na verdade, nas categorias de idade, numa maratona, nosso grande adversário é o tempo), para juntos tentarem cruzar a desejada linha de chegada. O público enorme que se concentra próximo à chegada aplaude e incentiva freneticamente, e como se empurrados por esta multidão barulhenta, a dupla cambaleante enfim cruza a linha de chegada!

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Foi bonito e tocante o auxílio de Arieta, ajudando ao atleta desconhecido a cumprir sua maratona, a resposta a este ato de fraternidade inundou a mídia e redes sociais mundo afora.

Mas, após passados alguns dias e assistido várias vezes aquele momento tocante, e apresentando o "caso" a alguns amigos médicos e paramédicos, fiz a eles a seguinte pergunta: E SE ISSO VIRA MODA?

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Explico: quando um atleta amador, bem treinado, chega ao ponto de quase desfalecer, perder a coordenação motora e a lucidez, devemos arrastá-lo em direção à linha de chegada, ou buscarmos socorro imediato, para tentar reverter um quadro que pode ser fatal?

E se esta perda da coordenação motora, falência muscular, quadro de torpor e confusão, for por conta de alguma falha cardíaca, ou obstrução? Ou a incongruente, porém factível "morte súbita em esportes"?

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Os dados estatísticos mostram que eventos fatais em maratonas e meias maratonas acontecem no último décimo de prova (últimos 4,2km e 2,1km respectivamente).

Compilando todas as informações sobre o caso Boston e seus desdobramentos, devemos redobrar as atenções para os seguintes fatos:

- Proibir o auxílio dramático entre atletas, afinal uma das regras das grandes maratonas é que o atleta só deve se deslocar usando SEUS PRÓPRIOS RECURSOS FÍSICOS. Sob pena de desclassificação.

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- As organizações de provas devem dedicar atenção médica especial ao último décimo do percurso das provas, deslocando médicos, paramédicos com ressuscitadores em motos, ambulâncias e hospitais de campanha para esta região.

Desta forma, conseguiríamos frear uma verdadeira onda de "influencers" entrando em ação, desastrosamente, atrás de likes e notoriedade em fins de maratonas, onde a possibilidade de eventos fatais acontece em maior número e o PRONTO ATENDIMENTO É CRUCIAL!!

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O que aconteceu em Boston, no finzinho da prova, me assustou. Mostrou a empatia e solidariedade de Pedro Arieta, que renunciou a seu objetivo já quase na chegada, mas também mostrou o despreparo da organização de Boston para um "caso" de fácil solução. Não havia staff no km 42 da Maratona, apenas seguranças!! Preocupados apenas com terroristas e bombas, e nenhum deles, se prontificou a auxiliar ou chamar por rádio o atendimento médico, que talvez o atleta caído precisasse com urgência.

Londres, 27  de abril, na linha de chegada da maratona...

... Onde pudemos ver o ugandense Jacob Kiplimo sorridente, quase eufórico. Não era para menos, ele acabava de cruzar a linha de chegada da espetacular Maratona de Londres em segundo lugar em sua estreia como maratonista. Na minha coluna dedicada à prova, chutei despreocupado com números, que o recorde mundial, e talvez a barreira das 2 horas na maratona, já tinham dono, Jacob Kiplimo. Será?

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Jacob Kiplimo comemora a vitória e o título do Mundial de Meia Maratona, em Gdynia, na Polônia. (Divulgação)
Jacob Kiplimo comemora a vitória e o título do Mundial de Meia Maratona, em Gdynia, na Polônia. (Divulgação)

Vamos lá, Kiplimo em números:

Idade: 24 anos     Altura: 1,75     Peso: 54,5

Marcas analisadas, em resultados nos últimos 300 dias:

Meia Maratona - 56:42 (02/2025) Barcelona à predição de maratona: 1h58'56"

15km - 40:42 (11/2024) Holanda à predição de maratona: 2h01'02"

10km - 26:32 (12/2024) à predição de maratona: 2h01'24

5km - 12:40 (05/2024) Bislet, NOR. - predição de maratona: 2h01'10

Se este garoto escolher Berlim, Chicago ou Valência, a sua maratona de outono, este ano teremos quebra de Recorde Mundial!

Até terça, torcendo pela camisa magenta, fúcsia, ou flicts da nossa ex-canarinho!

  Lauter Nogueira

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