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Julia Polastri divide sua rotina de atleta com a venda de trufas no trem (Foto: Reprodução)

LANCE!
11/09/2020
12:20
Rio de Janeiro (RJ)

Por Mateus Machado 

Oriunda do Muay Thai, Julia Polastri migrou para o MMA em busca do sonho de, futuramente, lutar pelo UFC, desejo que está presente no imaginário da grande maioria dos atletas da modalidade. Moradora do bairro de Gramacho, município de Duque de Caxias, no estado do Rio de Janeiro, a lutadora iniciou cedo sua caminhada e hoje, aos 22 anos, já tem em seu currículo o cinturão peso-palha do Shooto Brasil, um dos principais eventos de MMA no país, e recentemente, oficializou sua ida para o SFT, que vem se destacando como uma das melhores organizações da América Latina.

Se a trajetória nas artes marciais mistas está ocorrendo de forma promissora, muito se deve ao esforço da jovem lutadora fora do cage. Ciente dos desafios em ser uma atleta de alto rendimento no Brasil e dos custos elevados que isso envolve, Julia resolveu vender trufas no trem para poder complementar sua renda e, assim, manter vivo o sonho de lutar no UFC. Todos os sábados, logo no início da manhã, a casca-grossa cruza o ramal Saracuruna vendendo os doces, que são preparados pelo próprio treinador e namorado, Douglas Bastos. Em entrevista à TATAME, Julia Polastri explicou que dedica sua semana aos treinos, e que o sábado ficou destinado à venda das trufas.

- Essa ideia das trufas surgiu porque eu queria trazer uma grana para mim. Eu morava com meus avós ainda e não tinha tanta necessidade de ter dinheiro, mas sempre gostei dessa independência. Comecei a vender pelo meu bairro e pensei logo em seguida de ir vender no trem. No começo era só para os meus gastos de atleta mesmo, e eu sempre deixei para ir aos sábados, para não interferir em nada dos treinos durante a semana. Hoje em dia, eu consigo manter minha vida com as trufas, consigo pagar aluguel, luz e água, a gente se divide entre as trufas e o dinheiro que a academia faz também com as aulas, e graças a Deus é o que tem nos sustentado e, principalmente, bancado uma vida de atleta sem faltar nada pra mim. Eu tiro o sábado todo para vender as trufas, fico o dia todo no trem. Geralmente, chego às 6h/6h30 e só saio quando consigo acabar, por volta de umas 19h/20h, então o dia é voltado mesmo para a venda das trufas - disse a lutadora.

Profissional no MMA desde 2017, Julia Polastri possui um cartel de sete vitórias e duas derrotas em seu cartel na modalidade. Ao longo do bate-papo, a lutadora falou sobre o início de sua carreira, a migração para o MMA, a conquista do cinturão do Shooto Brasil, ida para o SFT, as dificuldades relacionadas a se manter como profissional da modalidade no Brasil e o sonho de lutar no Ultimate.

Conheça mais sobre a história de Julia Polastri:

– Você é oriunda do Muay Thai, então quais foram os principais desafios na migração para o MMA?

A maior dificuldade, com certeza, foi no jogo agarrado. Confesso que não gosto muito dessa parte, mas já me acostumei a treinar, porque tenho muita vontade de evoluir. Hoje em dia me considero bem completa, mas tenho a trocação como meu carro-chefe mesmo, só que sei usar melhor a parte agarrada para completar meu jogo e logo logo vou estar com essa parte bem afiada também.

– Você conquistou o cinturão do Shooto Brasil ainda muito nova. Qual foi a importância desse título para sua carreira?

Sim, também acho que sou nova e que as coisas aconteceram bem rápido na minha carreira, mas sinto também que tudo veio na hora certa. O cinturão (do Shooto Brasil) é uma conquista muito grande, porque trouxe um respeito ainda maior pelo meu nome, e tenho certeza que estou só no começo da minha trajetória no MMA. Tenho muito para viver no mundo do MMA ainda, mas acredito que estou no caminho certo.

– Ida para o SFT e expectativa pela estreia na organização

Olha, gostei bastante da organização, me senti bem acolhida, mas infelizmente ainda não tenho uma data para poder estrear, rolam alguns boatos sobre isso, mas ainda não conseguiram encontrar uma adversária que aceite lutar comigo. Acredito que a minha estreia no SFT ainda não será pelo título, mas eu ganhando, com certeza a segunda luta já traz esse cinturão em jogo.

– Sonho de ir para o UFC

Com certeza eu sinto esse sonho (ida para o UFC) cada vez mais próximo. Estamos trabalhando muito para esse contrato chegar e daqui a pouco é certo eu estar lá dentro. Já pensei bastante sobre os outros eventos (Bellator, Invicta FC, entre outros), mas confesso que meu interesse maior é o UFC. Acho que posso atrasar as coisas entrando em uma outra organização internacional, então o meu foco está todo direcionado em ir para o UFC.

– Durante toda sua trajetória no esporte, você pensou em desistir em algum momento?

Várias vezes pensei em desistir, e se algum atleta disser o contrário disso, é mentira. A vida de atleta é um trabalho de 24h por dia, alimentação, sono, treino… Tudo tem que ser seguido ao máximo para obter um desempenho excelente na hora da luta, e isso não é nem um pouco fácil. Sem contar a parte financeira, que é bem complicada também. Dificuldade em conseguir patrocinador, sem tempo para trabalhar com outra coisa, fica bem difícil viver única e exclusivamente do esporte. Mas quando a gente tem um objetivo, nada pode nos parar e isso dá uma força maior para passar por tudo isso.

– Como surgiu a ideia de vender trufas para complementar sua renda?

Essa ideia das trufas surgiu porque eu queria trazer uma grana para mim. Eu morava com meus avós ainda e não tinha tanta necessidade de ter dinheiro, mas sempre gostei dessa independência. Comecei a vender pelo meu bairro e pensei logo em seguida de ir vender no trem. No começo era só para os meus gastos de atleta mesmo, e eu sempre deixei para ir aos sábados, para não interferir em nada dos treinos durante a semana. Um tempo depois, eu tive uns problemas e saí da casa dos meus avós e vim morar com meu treinador/namorado Douglas Bastos, e aí eu precisei intensificar as trufas para a gente conseguir se manter legal e suprir todos os gastos que a vida de atleta traz. Hoje em dia, eu consigo manter minha vida com as trufas, aluguel, luz e água, a gente se divide entre as trufas e o dinheiro que a academia faz também com as aulas, e graças a Deus é o que tem nos sustentado e, principalmente, bancado uma vida de atleta sem faltar nada pra mim.

Eu tiro o sábado todo para vender as trufas, fico o dia todo no trem. Geralmente, chego às 6h/6h30 e só saio quando consigo acabar, por volta de umas 19h/20h, então o dia é voltado mesmo para a venda das trufas. Não vou em outros dias da semana justamente para não interferir nos meus treinos. Tanto que se estou de férias ou dias mais livres, eu até consigo ir em alguns dias da semana, mas normalmente a venda é apenas aos sábados.

– Paixão pela música

Antes de me tornar atleta, eu tinha muita vontade de investir na música, mas por falta de apoio, eu não dei continuidade. Logo em seguida, conheci a luta e meus caminhos mudaram. Eu tive até uma banda, mas não fizemos shows e não foi para frente. Era uma coisa que eu gostava muito e ainda gosto, mas hoje faço com bem menos frequência. Antes eu vivia com o violão, tocando, cantando, era só isso que eu fazia, mas depois veio a luta e eu troquei totalmente o hobby. Comecei a fazer só luta e deixei o violão de lado (risos). Hoje em dia, eu só faço mesmo por lazer. Quem sabe, futuramente, eu possa investir melhor nisso, porque é uma coisa que eu gosto de fazer, e com estrutura/dinheiro, a gente consegue investir melhor.

– Por fim, como você gostaria de ver a Julia Polastri daqui a 10 anos?

(Risos) Olha, espero que com alguns cinturões enquadrados, tendo feito umas superlutas e, quem sabe, com o cinturão de duas categorias do UFC (risos), planejando minha aposentadoria e conhecida como a lutadora mais dominante que a categoria peso-palha já teve. Estou trabalhando muito firme para isso e vou em busca de realizar esses sonhos.