A história das três cores do São Paulo: como a união de dois clubes formou a identidade tricolor
Vermelho, branco e preto como síntese de fusão, resistência e história.

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O São Paulo Futebol Clube ocupa um lugar singular no futebol brasileiro. Diferentemente da maioria das instituições esportivas, sua identidade cromática não nasceu de uma escolha isolada, mas de uma fusão deliberada entre dois clubes distintos, cada um com tradição, cores e estruturas próprias. O Lance! conta a história das três cores do São Paulo.
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Essa união ocorreu em 25 de janeiro de 1930, data escolhida de forma simbólica por coincidir com o aniversário da cidade de São Paulo. Desde o início, o clube foi concebido para representar algo maior do que uma simples associação esportiva: a síntese de forças sociais, esportivas e culturais da capital paulista.
A história das três cores do São Paulo
As origens: Paulistano e Palmeiras como matrizes do São Paulo
A formação do São Paulo FC envolveu dois pilares fundamentais:
- Club Athletico Paulistano
Detentor das cores vermelho e branco, era o clube mais vitorioso do futebol paulista na era amadora. Em 1929, havia conquistado o Campeonato Paulista e, ao aderir à fusão, cedeu cerca de 60 jogadores campeões, formando a base técnica do novo time. - Associação Atlética das Palmeiras
Portadora das cores preto e branco, contribuiu com a estrutura física, especialmente o estádio da Chácara da Floresta, além de parte da organização administrativa.
A união desses dois clubes não foi apenas prática: foi simbólica. Vermelho, branco e preto passaram a coexistir como expressão visual dessa convergência.
O primeiro uniforme e a formalização do tricolor
O uniforme inaugural do São Paulo FC deixou explícita a intenção de representar essa fusão. A camisa era branca, com três faixas horizontais atravessando o peito:
- vermelho
- branco
- preto
Essas faixas simbolizavam a integração das cores dos clubes fundadores e consolidavam, desde o primeiro dia, o conceito de tricolor como identidade central.
O escudo também foi criado especificamente para o novo clube. O desenho ficou a cargo do estilista alemão Walter Ostrich, com colaboração de Firmiano de Morais Pinto Filho, um dos fundadores. O formato em coração de cinco pontas foi adotado desde então e permanece como elemento estrutural do símbolo até hoje.
Três cores, três significados institucionais no São Paulo
Segundo o estatuto do clube, as cores do São Paulo possuem tríplice origem simbólica:
- Vermelho e branco → herança do Paulistano
- Preto e branco → herança da Associação Atlética das Palmeiras
- Vermelho, branco e preto → referência indireta à bandeira do estado de São Paulo
Essa sobreposição confere às cores tricolores um caráter institucional raro: elas não representam apenas estética, mas continuidade histórica e legitimidade jurídica.
A quase extinção e o risco de perder as cores
A década de 1930 foi marcada por instabilidade política e esportiva no futebol brasileiro. A adoção do profissionalismo em 1933 gerou conflitos internos no São Paulo FC, dividindo dirigentes, conselheiros e sócios.
Entre 1934 e 1935, o clube entrou em crise profunda. Uma tentativa de fusão com o Clube de Regatas Tietê previa, na prática, a extinção do São Paulo FC, com perda de nome, escudo e cores — situação formalizada em cartório.
A decisão foi judicializada. A 2ª Vara Cível entendeu que uma fusão só poderia ser válida se aprovada em assembleia geral de associados, abrindo caminho para uma votação histórica.
A assembleia de 1935 e a resistência do São Paulo
Na assembleia decisiva, o resultado foi devastador para os defensores da continuidade:
- 113 votos a favor da fusão com o Tietê
- 33 abstenções
- 5 votos contra, registrados nominalmente
Os cinco votos contrários — entre eles Carlos Monteiro Brisolla, José de Godoy e José Sampaio — tornaram-se símbolos de resistência institucional.
Apesar da derrota formal, torcedores e dirigentes ligados ao futebol se recusaram a aceitar o fim do Tricolor.
O Grêmio Tricolor e a refundação sem ruptura
Em 9 de fevereiro de 1935, foi criado o Grêmio Tricolor, uma associação interna com objetivo explícito: impedir que o São Paulo desaparecesse.
Esse grupo articulou a criação do Clube Atlético São Paulo, em 4 de junho de 1935, como continuação legítima do projeto esportivo iniciado em 1930. Embora dificuldades legais e profissionais tenham impedido plena continuidade imediata, o vínculo simbólico foi preservado.
A solução definitiva veio em 16 de dezembro de 1935, quando o São Paulo FC foi refundado sob convocação do Grêmio Tricolor, garantindo juridicamente que o clube fosse considerado o mesmo desde 1930, sem interrupção histórica.
A evolução do uniforme e a permanência das cores
Após a refundação, o uniforme passou por ajustes, mas sem romper com a identidade tricolor. A mudança mais relevante ocorreu em 1983, quando a camisa branca foi oficializada como padrão, com:
- faixa central branca mais estreita
- faixas vermelha e preta mais próximas e destacadas
O escudo sofreu alteração mínima: apenas a retirada dos pontos entre as letras SPFC na década de 1980. A estrutura, o formato e as cores permaneceram intactos.
Um tricolor forjado por fusão, crise e permanência
As cores do São Paulo não são apenas resultado de união entre dois clubes. Elas sobreviveram a disputas políticas, batalhas judiciais e tentativas formais de extinção.
Vermelho, branco e preto representam:
- fusão institucional
- continuidade histórica
- resistência jurídica
- identidade paulista
O tricolor do São Paulo é, antes de tudo, a prova visual de que um clube pode quase desaparecer — e ainda assim permanecer o mesmo.
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