Vale a pena demitir técnico no Brasil? Números apontam cenário 'caótico' em clubes com mais trocas
Lance! analisou os cenários de trocas dos treinadores no Brasileirão nesta década

- Matéria
- Mais Notícias
O Brasileirão 2026 sustenta a marca de dez técnicos demitidos em dez rodadas de campeonato, média que se equipara aos cenários das edições de 2025 e 2024. As constantes trocas de comando técnico se tonaram uma característica quase intrínseca ao futebol brasileiro, mas será que ela é, de fato, saudável para os clubes e entrega os resultados esperados aos dirigentes e torcedores? O Lance! realizou um levantamento que analisa todas as trocas de treinadores nesta década na Série A para entender se as demissões são soluções viáveis para melhorar o desempenho técnico dos times dentro campo.
Relacionadas
➡️ Siga o Lance! no WhatsApp e acompanhe em tempo real as principais notícias do esporte
Talvez a resposta mais coerente seja "depende". E realmente é impossível quantificar todos os aspectos que rondam uma decisão de demitir um treinador. Além disso, as últimas temporadas têm colocado em xeque qualquer teoria determinista sobre esse tema, uma vez que Flamengo e Palmeiras dominam o futebol nacional e têm comportamentos de gestão de treinadores totalmente opostos. Mas os números, de certa forma, ajudam a ilustrar e encontrar um caminho de raciocínio neste debate.
O Lance! analisou 119 cenários diferentes de trocas de treinadores que envolvem todos os clubes que jogaram o Brasileirão entre 2021 e 2026 para expor quais são os cenários mais ou menos favoráveis para a demissão de um treinador. E o dado mais importante da pesquisa mostra que o cenário caótico passa a existir principalmente quando os clubes "quebram a barreira" do segundo treinador.
A 'linha de corte' das demissões
Dentre todos os cenários de trocas, aqueles que foram considerados mais estáveis estão ligados aos clubes que forçaram a troca de treinador apenas uma vez ao longo da edição. Em equipes que realizaram esse tipo de mudança, o aproveitamento médio é de 45,46%. Para efeito de comparação, este percentual na tabela do Brasileirão garante ao clube não só a permanência na Série A, mas uma classificação para a Copa Sul-Americana com direito a briga pela vaga de pré-Libertadores.
Por outro lado, há uma clara queda de rendimento quando o fator "terceira troca" surge nos clubes. Dos 119 cenários analisados, 94 deles são clubes que tiveram um ou dois técnicos no máximo a cada temporada, enquanto outros 25 tiveram três ou mais nomes no comando. Nesse segundo recorte, é possível perceber um cenário caótico porque o aproveitamento médio de equipes nesse padrão é de 31,96%. Todos os dados foram coletados em parceria com a plataforma Sofascore.
O cenário da primeira troca geralmente está relacionado ao perfil dos clubes que brigam contra o rebaixamento e buscam um fator novo para salvar a temporada, ou em equipes que projetavam uma competição de melhor nível e o treinador não entregou o esperado. A segunda troca está relacionada a equipes que usam a solução como um "botão do pânico", um troca emergencial após duas tentativas frustradas de corrigir a rota. O levantamento mostra que, em alguns casos, esse movimento gera um "pico de recuperação" e alguns nomes conseguem atingir aproveitamentos favoráveis. Mas não é uma regra e nem sempre o sprint final funciona.
O Santos, em 2025, teve três treinadores. A primeira troca foi logo na terceira rodada do Brasileiro, quando Pedro Caixinha cai com apenas um ponto em três jogos. Cléber Xavier assume e tem apenas 43% de aproveitamento, sendo substituído por Vojvoda, que fez 48% de aproveitamento e salvou o Peixe do rebaixamento. Esse é um dos exemplos de quando a terceira troca entrega o mínimo resultado.
Por outro lado, também no ano passado, o Fortaleza inicia o Brasileirão com Vojvoda, que cai com aproveitamento de 26%, depois contrata Renato Paiva, que soma 20,8% (contrariando a tendência de melhora do segundo treinador), e termina com Martín Palermo, que também teve um pico de desempenho, com 55%, mas não a ponto de salvar o Leão do Pici do rebaixamento. Ou seja, mesmo que numericamente exista um cenário de melhora com uma segunda troca na temporada, nem sempre o resultado em campo reflete o percentual. Geralmente o terceiro técnico não passa de 40%.

Clubes da Série A 2026 que mais trocaram de técnicos:
- Santos - 13
- Athletico-PR e Corinthians - 10
- Atlético-MG e Internacional - 9
- Botafogo, Cruzeiro, Flamengo - 8
- Coritiba, Fluminense, Grêmio, São Paulo e Vasco - 7
A lista considera todos os treinadores oficializados pelos clubes na Série A entre 2021 e 2026 e que estão na atual edição do torneio. Técnicos que estiveram à frente dos clubes na segunda divisão, por exemplo, não estão contemplados na lista. O mesmo treinador que teve duas ou mais passagens diferentes pelo clube também foi contabilizado mais de uma vez.
Os opostos de Flamengo e Palmeiras
De todos os clubes presentes no levantamento, Flamengo e Palmeiras são os dois que mais se destacam, mas por motivos diferentes. A dupla se tornou dominante no futebol brasileiro e todo ano figuram entre os favoritos para os títulos nacionais e na Libertadores, fato que não se repete com as mesmas equipes ano após ano. Entretanto, a diferença categórica na forma de gerir o comando técnico dos elencos expõe como as análises sobre demissões sem vão ter suas exceções.
Do lado do Palmeiras, a constância do trabalho de Abel Ferreira, à frente do time desde a virada de 2020 para 2021, o treinador acumula dois títulos nacionais, além das conquistas de Copa do Brasil e Libertadores, e um aproveitamento médio de pouco mais de 64%, excluindo o desempenho desse ano. O case prova que, diante de um bom desempenho, a demissão de um treinador torna-se improvável e, no longo prazo, o tempo de trabalho rende frutos ao clube, como melhora no padrão de jogo, adaptação do elenco ao técnico e, consequentemente, briga constante por títulos.
Em contraponto, o Flamengo apresenta uma "receita" de títulos que não se apega ao modelo de jogo ou a visão de longo prazo, e sim ao desempenho imediato do elenco naquela temporada. Desde 2021, o Flamengo teve oito treinadores à frente do elenco, além do atual Leonardo Jardim. Na década, a prateleira do Rubro-Negro tem um Campeonato Brasileiro, além de Copas do Brasil e Libertadores, número muito próximo do Palmeiras. No aproveitamento, o time carioca fica atrás com 57% de média.
Mesmo assim, diante das demissões, impressiona como o Flamengo consegue se manter no alto brigando por taças. Isso reforça os fatores subjetivos nessa análise, como a importância de ter um bom elenco e o poder financeiro que um clube tem, o que permite contratar melhores treinadores e melhores atletas para manter o bom desempenho mesmo que ainda tenha oscilações.
Com a exceção de 2025, o Fla teve dois técnicos em todas as outras edições de Brasileirão. E o padrão de melhora com o segundo treinador se repetiu todas as vezes. Em 2021, saiu Rogério Ceni (40%) e entrou Renato Gaúcho (71%). Em 2022, Paulo Sousa (40%) deu lugar a Dorival Jr. (59%). Em 2023, Jorge Sampaoli (54%) foi demitido e Tite (61%) foi contratado. Já em 2024, Tite caiu com 55% e Filipe Luiz assumiu com 64%. O ex-lateral subiu para 69% de aproveitamento em 2025.

A luta por estabilidade
Abel Ferreira é um caso único no Brasil. São cinco anos à frente do Palmeiras e uma relação poucas vezes vista entre clube e treinador. É difícil apontar outros nomes que possam seguir o mesmo caminho, mas Rogério Ceni, no Bahia, tem trilhado uma trajetória de quase três anos à frente do clube e com certa estabilidade. Rafael Guanaes, no Mirassol, também quebrou a barreira dos dois anos e, depois da campanha histórica em 2025, tentará passar ileso em 2026, mesmo com um calendário ainda mais apertado e disputado.
Diante disso, é quase impossível desenhar um campeonato onde a maior parte dos clubes dará tempo e material de qualidade o suficiente para os treinadores desenvolvam seus trabalhos. O imediatismo por resultado seguirá sendo pedra fundamental do futebol no Brasil e essa luta por estabilidade deve ser tratada como caso isolado, seja por uma sequência vitoriosa ou por um modelo de gestão adotado. Modelo esse que não diz respeito à SAF ou clube social, mas sim sobre quem está à frente dos projetos dos clubes.
Aproveitamento dos clubes e número de técnicos (2021 a 2026)
Temporada 2021

Temporada 2022

Temporada 2023

Temporada 2024

Temporada 2025

Temporada 2026*

*levantamento com as trocas de técnicos até a 10ª rodada do Brasileirão 2026
- Matéria
- Mais Notícias

















