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Parou por quase três anos, cuidou da mãe e renasceu na várzea: a volta de Yohan ao futebol

Destaque da Portuguesa Santista, meia passou quase três anos longe dos gramados após deixar a Europa e encontrou na várzea o caminho de volta

Guilherme Lesnok
São Paulo (SP)
Dia 05/05/2026
16:27
Atualizado há 1 minutos
Yohan foi eleito craque do Paulistão A3 (Foto: Paulo Victor/Ludus Comunica)
imagem cameraYohan foi eleito craque do Paulistão A3 (Foto: Paulo Victor/Ludus Comunica)

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Quem vê o meia-atacante Yohan, destaque da Portuguesa Santista no título e acesso do Paulistão A3 para a A2, não imagina o cenário que o jogador precisou enfrentar para viver o atual bom momento na carreira. Para começar a entender essa trajetória, é preciso voltar no tempo.

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Nascido em Praia Grande, no litoral de São Paulo, Yohan fez parte da geração 2000 do São Paulo e chegou a atuar ao lado de Antony, que hoje é um dos destaques do Betis, da Espanha.

— Foram seis anos no São Paulo. Geração 2000, eu treinei com todos: Brenner, Helinho, Rodrigo Nestor, Antony. Foi também ali essa base que eu fiz no São Paulo, foi muito bom mesmo para aprimorar a técnica. Então foram esses anos trabalhando com pessoas muito boas que eu consegui essa técnica, esse entendimento até mesmo do futebol — disse o jogador com exclusividade ao Lance!.

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Yohan na base do São Paulo (Foto: Arquivo Pessoal)
Yohan na base do São Paulo (Foto: Arquivo Pessoal)

— Todo mundo era do mesmo nível. São coisas da vida, cada um toma um caminho diferente, um rumo diferente, escolhas diferentes. Então era todo mundo do mesmo nível e, graças a Deus por eles, fizeram escolhas certas e conseguiram deslanchar. Mas ali mesmo era todo mundo do mesmo nível, até mesmo um jogava, outro não. Então todo mundo era do mesmo nível — seguiu.

Apesar do início no Tricolor Paulista, a profissionalização de Yohan aconteceu do outro lado do continente. Em Portugal, começou no Trofense (2018–2021) e passou por Vilafranquense (2021–2022) e Fafe (2022–2023).

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— Logo quando eu fiz 18 anos, eu tive essa oportunidade de ir para Portugal. Então não pensei duas vezes. Foi um convite bem legal ali, os meus empresários resolveram, e eu não pensei e fui, que foi também um momento muito feliz lá — disse.

— Totalmente diferente (diferença futebol Brasil e Europa). Eu senti uma grande diferença: a intensidade, até mesmo a força física, e o clima. O clima bastante diferente, ainda mais no inverno, que eu cheguei lá no final do ano, que é inverno. Então eu peguei esse frio. Mas foi muito bom. Eu tive até um acesso e fui campeão também com o Trofense. Foi um começo de temporada no profissional que foi muito bom para mim. Eu consegui me adaptar muito rápido e fui muito feliz — comentou.

Pausa na carreira

Em 2023, a carreira de Yohan foi interrompida por uma mudança profunda fora de campo. Durante as férias no Brasil, o jogador decidiu não retornar ao futebol europeu e, aos poucos, se afastou da rotina profissional.

— Foi um momento bem delicado da minha vida. Foi ali em 2023 que eu volto de Portugal de férias e, para me reapresentar e voltar para lá, eu não quis mais. Não foi uma decisão concreta, só foram passando os dias, foi acontecendo, eu fui me desligando do futebol e, quando me dei conta, já tinham passado dois anos e sete meses. Mas eu entendi o propósito, o porquê de ter acontecido isso. Também tive problema interno com a minha família, especificamente com a minha mãe, então pude entender o porquê de ter acontecido. Hoje eu entendo e fico tranquilo, porque sou outra pessoa, outro jogador, com outra mentalidade, e os números falam, os números mostram que eu entendi tudo — explicou.

Ao falar da mãe, o discurso ganha outro peso. Aos 50 anos, ela foi diagnosticada com Alzheimer, condição que passou a exigir atenção integral da família e impactou diretamente as escolhas do jogador.

Os primeiros sinais surgiram antes do diagnóstico definitivo, que veio após um curso realizado por Yohan ao lado da mãe. A partir das mudanças de comportamento percebidas no período, veio a orientação para avaliação médica, que confirmou a doença. Desde o momento, o futebol deixou de ser prioridade.

— Então, acho que o real propósito de eu ter parado, de ter dado essa pausa, foi esse diagnóstico dela. Até mesmo a gente não sabia. Ela descobriu recentemente, já com 50 anos. Então eu pude entender por que eu tinha parado, por que tinha dado essa pausa, que era mais para ficar perto dela, para ajudar de alguma forma. E hoje ela já está bem, já está tranquila, e hoje eu entendo por que eu parei — comentou.

Yohan e mãe (Foto: Arquivo Pessoal)
Yohan e mãe (Foto: Arquivo Pessoal)

Ao "abandonar" a carreira, uma decisão vista como drástica, o caso rapidamente repercutiu entre pessoas próximas ao jogador. Empresários, o clube com o qual mantinha vínculo e integrantes de seu estafe buscaram contato para entender o que estava acontecendo e os motivos por trás da escolha.

— Sim, com certeza. Eles ficavam me ligando, perguntando. Mas muitas vezes eu não respondia ou também não sabia o porquê de eu não ter voltado. Até ali no começo eu não sabia, de fato, o que estava acontecendo. Como eu falei, foi um momento muito delicado, então foi acontecendo, foram passando os dias. Eles me ligavam, e chegou um momento em que eu falei: 'não, realmente eu não quero voltar, não quero mais jogar'. Então eles entenderam. No começo, pensavam que eu não queria voltar porque iria para outro time. Mas depois, com o tempo, entenderam que realmente eu não estava jogando mais, que eu não queria mais — comentou.

A decisão parecia definitiva. Longe dos gramados, o jogador passou a buscar novos caminhos e iniciou cursos na tentativa de encontrar uma nova profissão.

— Até essas pessoas que fizeram com que eu voltasse a jogar, eu conheci em um curso, até mesmo procurando profissões, tentando me achar, porque minha vida toda foi no futebol. Então eu estava em um curso tentando me achar em uma nova profissão, em alguma coisa. Procurei bastante outras profissões, outros caminhos, mas, mesmo assim, acabei encontrando pessoas que fizeram com que eu voltasse — detalhou.

A importância da várzea

Hoje, a rotina da família de Yohan é outra. Com a mãe sob acompanhamento médico, o futebol voltou a fazer sentido, mas em um cenário distante da estrutura de Cotia, centro de treinamento das categorias de base do São Paulo, e também da realidade do futebol europeu.

O recomeço aconteceu na várzea. E, ao falar sobre essa fase, o jogador demonstra orgulho por ter incorporado esse capítulo à própria trajetória.

— Sim, eu não voltei para a várzea para voltar a jogar profissional. Eu voltei porque algo em mim estava vazio, tinha uma abertura ali, então eu fui para a várzea para disfarçar essa ausência do profissional. Foi acontecendo, fui jogando. Joguei aqui em Praia Grande mesmo, também joguei na várzea de São Paulo, e isso me ajudou muito. Me ajudou muito porque também foi o estalo para eu voltar, para eu pegar o gosto de novo pelo futebol. A várzea me ajudou muito. Eu falo que foi ali 60% por causa da várzea, porque eu comecei a recuperar o gosto pelo futebol — apontou.

— Se não tivesse a várzea, se eu não tivesse voltado a jogar lá, acho que não teria voltado. Como eu falei, eu recuperei o gosto pelo futebol ali na várzea. Foi na várzea que eu senti que poderia voltar. Percebi que era um desperdício ficar de fora sem jogar. Então a várzea, com certeza, fez com que eu voltasse — seguiu.

A várzea, nos dias atuais, ganhou protagonismo. Nomes conhecidos do futebol brasileiro, como Leandro Damião, Ricardo Goulart, Elias, Michel Bastos e Pará são exemplos de atletas que, após a carreira em clubes, seguiram por esse caminho.

— A várzea, para quem não sabe, chega perto do profissional porque tem muitos ex-jogadores, até mesmo como aconteceu comigo, jogadores que pararam. Então o nível é muito alto, e foi muito bom para mim, porque chegou perto do profissional e, quando eu voltei, já estava preparado — explicou Yohan.

— Acho que ali também tem muito a questão financeira. A várzea está crescendo muito, então, financeiramente, às vezes até compensa mais jogar na várzea do que estar em um clube inferior em questão de salários. Você joga um, dois, três jogos em um final de semana e já consegue ajudar em casa, ajudar a família — destacou.

O retorno ao futebol profissional

Yohan retomou a carreira profissional em 2025, com uma breve passagem pelo Itabaiana. Na sequência, surgiu a oportunidade que mudaria seu rumo: a Portuguesa Santista, em Santos, cidade próxima a Praia Grande, onde mora. O convite partiu de Sérgio Guedes, nome histórico da Briosa.

— Foi o Sérgio que me ligou. Eu tive uma pequena passagem no ano passado pelo Itabaiana, de Sergipe. Lá também fui campeão da Copa. Eu ia voltar para lá nesta temporada. Mas o Sérgio me ligou e não pensei duas vezes, ainda mais para ficar perto de casa, perto da minha família. Então eu escolhi ficar aqui perto — explicou.

O retorno aos gramados não poderia ter sido mais positivo. Além do acesso e do título da Série A3, Yohan foi eleito o craque da competição e o melhor meio-campista.

— Foi uma escolha muito boa, porque consegui me reconectar, estar perto de quem eu gosto, de quem eu amo. Isso me ajudou muito. Não me pegou de surpresa essas premiações, porque eu trabalhei para isso. Eu trabalhei muito. Tanto que, no começo da temporada, até a quinta rodada, eu era reserva. Mas o Sérgio sempre falava que contava comigo, que não importava se fossem 10, 20 ou 30 minutos: quando entrasse, tinha que dar o melhor — comemorou.

— Eu fiz isso em todos os jogos e sabia que, quando chegasse a minha oportunidade, iria aproveitar. Então não me pegou de surpresa, mas fico muito feliz com todas essas premiações. O principal foi o acesso, que desde o começo era o foco. Conseguimos o acesso e também o título, além das premiações individuais, que me deixam muito feliz — completou.

O futuro já está definido. Yohan acertou com o CRB, da Série B do Brasileirão. Por conta do fechamento da janela de transferências, ele será emprestado ao ASA de Arapiraca. A tendência é que retorne ao clube alagoano na reabertura da janela.

Yohan deixou a Portuguesa Santista após se destacar e vai defender as cores do Asa (Foto: Paulo Victor/Ludus Comunica)
Yohan deixou a Portuguesa Santista após se destacar e vai defender as cores do Asa (Foto: Paulo Victor/Ludus Comunica)

Melhor momento na carreira e amadurecimento 

Yohan destacou o momento vivido na Portuguesa Santista, classificando a fase como a melhor da carreira, e atribuiu a evolução à mudança de mentalidade. Ao projetar o futuro, Yohan demonstrou confiança na continuidade do bom desempenho e ainda deixou uma mensagem sobre perseverança, disciplina e fé para quem busca seguir no futebol.

— A Portuguesa me ajudou muito, então sou muito grato a ela. É o meu melhor momento da carreira, tanto em jogos quanto em números e no nível de qualidade nas partidas. Mas isso foi porque eu coloquei minha cabeça no lugar, eu entendi. Então sei que, daqui para frente, não é só um momento que estou vivendo, isso sou eu. Eu sou essa pessoa, eu sou esse jogador. Sei que, daqui para frente, só coisas boas virão — exaltou.

Além do desempenho em campo, Yohan ressaltou o amadurecimento pessoal como fator determinante para a fase atual, destacando a importância de manter o foco diário, evitar distrações e seguir disciplinado para sustentar o nível apresentado.

— O que eu passo é que tem que seguir. Se realmente é o seu sonho, se é o que você quer, se você nasceu para isso de alguma forma, então tem que seguir, não pode parar. É muito complicado, é muito difícil, eu sei porque vivi isso minha vida toda. Então tem que ter muita disciplina e não pode parar. Por mais que às vezes esteja lá embaixo, não esteja jogando ou esteja com lesão, não pare. Confie em Deus, se apegue a Ele, que sabe todas as coisas. No momento certo, se for da vontade d'Ele, vai acontecer — disse.

— É fazer a nossa parte todos os dias, diariamente. Não deixar que nenhuma distração impeça isso. É seguir focado, com disciplina, que as coisas acontecem — seguiu.

Ao relembrar a trajetória desde as categorias de base, Yohan destacou a confiança no próprio potencial e a convicção de que pode alcançar níveis mais altos na carreira. 

— Com certeza. Tanto é que, da minha geração, eu joguei com os melhores e não tive a mesma oportunidade ou, às vezes, fiz um caminho diferente. Mas tenho a mesma qualidade, estive no mesmo lugar. A vida é assim. Não é porque você está lá embaixo que vai ficar para sempre. Você não pode pensar pequeno. Tem que pensar como um Neymar, como os caras que já estão lá. Essa é a minha cabeça hoje. Eu penso assim e vou chegar, sim. Vou chegar aos poucos — finalizou.

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