Luiz Gomes: 'Ceni, Cruzeiro e um desafio gigante para o treinador'
Com o Cruzeiro em momento ruim, objetivo de Rogério Ceni deve ser sobreviver agora para construir no ano que vem um trabalho que tenha sua marca

Dirigir um time com a força do Cruzeiro é um marco na carreira de qualquer treinador. Rogério Ceni certamente levou isso em conta ao aceitar o convite para trocar a solidez do trabalho que vinha realizando em Fortaleza pelas incertezas que o esperam na capital mineira.
A fase é difícil. A Raposa afunda-se na zona de rebaixamento do Brasileirão, uma posição que nada tem a ver com os investimentos que faz e a tradição que tem. Se o campeonato terminasse hoje perderia sua vaga no seleto clube dos que jamais caíram para a segunda divisão, ao lado de Flamengo, Santos, São Paulo e, mais recentemente a Chapecoense. O time também precisa reverter incômoda situação provocada pela derrota para o Inter, semana passada no Mineirão, que acabou custando o cargo de Mano Menezes. É a única forma de seguir vivo na Copa do Brasil e não perder o ano de vez.
Missões como essas tornam gigante o desafio do ex-goleiro. Mas não é surpreendente que ele tenha topado encarar tudo isso.
Em sua curta carreira como treinador, Ceni tem se mostrado um profissional movido a desafios. Não é, definitivamente, um daqueles que se acomodam na zona de conforto. Ao contrário, desde o início, quando trocou as luvas pela prancheta, tem tomado decisões de alto risco. A primeiro delas foi assumir o São Paulo em um momento dos mais conturbados da história recente, o que poderia, se fracassasse, colocar em xeque inclusive sua relação de idolatria com a torcida tricolor. Perdeu a aposta, ficou em torno de um ano no cargo e naufragou engolido pela quebra de compromissos da cartolagem são-paulina.
A ida para o Fortaleza, pode se dizer assim, foi o recomeço do começo. Ao investir no treinador, embora inexperiente um nome de peso que poderia atrair holofotes da mídia sulista para o clube, a diretoria do tricolor cearense colocou o sarrafo no alto. O objetivo era voltar à elite do futebol nacional. Rogério pagou com sobras: foi campeão da série B e, este ano, conquistou o campeonato estadual sobre o rival Ceará e ganhou o inédito título da Copa do Nordeste, desbancando o Botafogo da Paraíba na final. No Brasileirão, o time vem se equilibrando no meio da tabela.
Que o Fortaleza perde com a saída de Ceni, não há dúvidas. A multa rescisória de R$ 1 milhão que vai receber do São Paulo certamente não vai fechar a lacuna aberta com a interrupção do trabalho. Ainda assim, o clube reagiu com surpreendente elegância postando em suas redes sociais um efusivo agradecimento ao ex-treinador. O que mostra que Ceni soube conduzir internamente o processo. A questão que se coloca agora é o outro lado dessa moeda: o que o ex-goleiro ganha – ou perde – ao assumir agora o comando do time estrelado de Minas?
Rogério tem suas convicções, seu jeito de armar um time. Mostrou isso no São Paulo, mais ainda no Fortaleza. É algo lapidado com o ajuda do francês Charles Hembert, o auxiliar técnico que o acompanha por onde passa, e do inglês Michael Beale, com quem trabalhou no tricolor paulista. É um daqueles treinadores – como Fernando Diniz, Roger Machado, Jorge Sampaoli ou Jorge Jesus - que precisa de tempo para se fazer entender. Mas vai encontrar na Toca da Raposa um elenco consolidado, há três anos rezando pela cartilha de Mano. Não será fácil, portanto, implementar uma outra cultura com o campeonato em andamento e o time em uma situação incômoda.
Por outro lado, a criticidade do momento do Cruzeiro, com os maus resultados em campo e os escândalos de bastidores, pode curiosamente agir em seu favor. A tarefa principal agora é tirar o time do Z4, espantar o fantasma da Série B, o que, diga-se de passagem, não é algo assim tão improvável. E mais: se amanhã a Raposa for eliminada da Copa do Brasil, ele obviamente não será responsável. Mas, se vencer o Inter e seguir em frente, será ele quem vai receber boa parte dos louros ainda que não tenha feito nada para isso. São idiossincrasias do futebol tupiniquim.
Enfim, Ceni precisa, para dar certo, ter calma e saber lidar com um ambiente muito mais minado do que encontrou no Fortaleza. Trocar o pneu com o carro em movimento pode não ser nesse caso uma opção confiável e, muito provavelmente, ele é que terá de adaptar-se, fazendo concessões. Seu objetivo deve ser sobreviver agora para construir no ano que vem um trabalho que tenha sua marca.

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