zach wilson new york jets

Zach Wilson posa com com a camisa do New York Jets em visita ao CT da franquia (New York Jets)

Vinícius Las Casas -
04/05/2021
18:38
Balneário Camboriú (SC)

Por volta de 21h30 na última quinta-feira (29), Roger Goodell subiu ao palco em Cleveland e anunciou o quarterback Zach Wilson, de BYU, como a escolha do New York Jets, na posição número 2 do Draft da NFL. Na sala de espera, Wilson recebia abraços de seus pais, irmãos e namorada, além de seus treinadores na faculdade e high school. Mais de 2700 quilômetros dali, em Sandy, Utah, o avô “brasileiro” de Zach Wilson celebrava a grande conquista do seu neto.

- Ele é muito, muito bom. Na noite do Draft, ele telefonou e disse que queria avisar que estava pensando na gente (em Gary e Rose, avós de Zach Wilson) e agradeceu pelo apoio que nos demos a ele. Ele é muito ligado na família – emociona-se Gary Neeleman.

Nascido nos Estados Unidos, Gary Neeleman, 85 anos, é tão brasileiro quanto eu ou você. Fala um português impecável e se delicia relembrando histórias do Brasil. Ele morou e trabalhou por sete anos no país, onde três dos seus filhos nasceram. De 1954 até 2019, visitou o Brasil anualmente. Em 2020, a pandemia o fez abortar os planos de manter a sua tradição de visitar o país, mas ele já fez planos de pisar em solo nacional assim que a situação da Covid-19 estiver mais controlada. Sua esposa, Rose, escreveu em inglês um livro de receitas brasileiras, incluindo pratos típicos como vatapá e pão de queijo. Ahh, por falar na nossa deliciosa culinária, Gary revela que o natal dos Neeleman não pode faltar feijoada.

- Nas festas de Natal sempre temos o peru, que é típico nesta época nos Estados Unidos, mas também temos uma feijoada, celebrando o Brasil e comidas brasileiras. Todos (da família) sabem fazer as comidas que gostamos (do Brasil) - destacou.

Em conversa exclusiva com o Lance!, Gary Neeleman conta a emoção de ver o seu neto ser draftado na NFL e as lembranças do Brasil. Inclusive, revelando a especial ligação de Zach com Dilma, a babá brasileira que cuidou da nova estrela do New York Jets até os três anos de idade.

- Quando o Zach nasceu, minha filha precisava de uma babá. Ajudei a achar uma senhora para esse trabalho. O nome dela é Dilma. Ela veio aqui 21 anos atrás. Ficou na casa dele, como babá e, inclusive, estava conosco na festa do Draft. Quando o Zach tinha três anos de idade, ela se casou e então parou de trabalhar como babá do Zach. Ele chorou muito e falava: não vai embora, Dilma. A mãe do Zach então disse: ‘a Dilma casou, ela vai pra casa do Mário (marido dela). Você prefere ir morar com ela ou ficar aqui com a gente?’. Ele pensou um minuto e falou: ‘acho que vou com Dilma’ – se diverte Gary Neeleman.

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Zach Wilson, aos dois anos, no colo da babá Dilma (Arquivo Pessoal)

Celebrando Zach Wilson

Após a escolha do quarterback pelos Jets na quinta-feira, 400 pessoas se reuniram para comemorar no sábado (2) junto a Zach Wilson. O vovô Gary Neeleman, obviamente, estava presente no local e não escondeu o orgulho que sente do seu neto. Nos guiando pela festa, ele conta que companheiros de times, treinadores da faculdade e high school (ensino médio) e outros personagens da vida do QB estavam presentes na celebração.

- Essa (última) semana foi uma loucura. O Zach está felicíssimo, porque ele tem muitas ligações em Nova York. O David (Neeleman, tio de Wilson e filho de Gary) tem muitos amigos na cidade por causa da JetBlue e eu também tinha um escritório na rua 42 pela United Press. Temos conhecidos lá em Nova York e vai ser uma oportunidade enorme para ele. Ele só tem 21 anos de idade, um dos mais jovens no Draft. Mas é um cara fantástico – disse Neeleman, com um português impecável.

- Nós tivemos uma festa no sábado à noite, na casa dele, com quatrocentas pessoas. Técnicos de high school, universidade, jogadores de BYU. E eles serviram churrasco e sobremesas, foi uma noite tremenda. Nós estamos muito orgulhosos dele. Falei com Kalani Sitake (técnico de BYU): muito obrigado por tudo que você fez pelo meu neto. E ele respondeu falando que era ele quem tinha que agradecer pelo que o Zach fez por BYU.

Na festa, também havia outra presença importante na história de Zach Wilson: Dilma da Silva Montemayor. Por três anos, ela foi babá da hoje estrela do New York Jets e gerou um curioso caso quando deixou a casa dos Wilson para se casar e morar com seu marido Mário.

- Quando o Zach nasceu, minha filha precisava de uma babá. Ajudei a achar uma senhora. O nome dela é Dilma. Ela veio aqui 21 anos atrás. Ela ficou na casa dele, como babá e, inclusive, estava conosco na festa do Draft. Quando o Zach tinha três anos de idade, ela se casou e então parou de trabalhar como babá do Zach. Ele chorou muito e falava: não vai embora, Dilma. A mãe do Zach então disse: ‘a Dilma casou, ela vai pra casa do Mário (marido dela). Você prefere ir morar com ela ou ficar aqui com a gente?’. Ele pensou um minuto e falou: ‘acho que vou com Dilma’. Ele tem paixão por ela até hoje. Ela tem 65 anos de idade e trabalha na loja do pai do Zach até hoje. Ela está muito ligada com a família – revela Neeleman.

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À época jogando por BYU, Zach Wilson em restaurante com sua família. Ao fundo, o vovô Gary Neeleman (Arquivo Pessoal)

Um agradecimento especial

Com orgulho, o vovô Gary Neeleman fala de Zach Wilson. A humildade do neto é algo que chama a sua atenção. Logo após o mais importante momento da carreira profissional, Zach fez questão de relembrar a todos que o ajudaram a chegar até ali. Na sexta-feira (30), um dia após o Draft, havia um pacote na mesa dos funcionários do departamento atlético de BYU. Nele, como presente, havia uma camisa do New York Jets com o número 1, a assinatura de Zach Wilson e diversos outros artigos da Nike, agora patrocinadora do garoto.

- O mantra dele é humildade. Ele dá credito para todo mundo – conta Gary Neeleman, que revela a mensagem escrita por Zach para os funcionários dos Cougars.

- Então ele deu presentes para todos, com uma mensagem, dizendo muito obrigado pelo apoio que deram durante três anos. Ele é esse tipo de rapaz, muito simples e muito humilde. Ele visita pessoas em hospitais. Teve um rapaz com câncer, que ele foi visitar a cada semana. Ele fez também visitas a Nova York, com uma fundação, para ajudar os mais necessitados do Harlem. Cada ano, durante três anos, o Zach foi lá para visitar e ajudar os jovens.

Zach Wilson fez uma família ‘trocar de camisa’

Por mais de 50 anos, os Neeleman foram grandes fãs de Utah, com Gary e Rose (avôs de Zach Wilson) tendo a faculdade como alma mater e vendo seus filhos e netos seguirem o mesmo caminho e vestirem o vermelho dos Utes. Em 2017, o sonho era que Utah recrutasse Zach para que ele fosse quarterback da faculdade. No entanto, os Utes nunca fizeram uma oferta para o jogador, que foi cobiçado por, entre tantos outros, Boise State, Iowa e a grande rival BYU. Para se manter próximo da família, Zach optou pelos Cougars.

- Nós começamos como fãs de Utah. Por 50 anos todos éramos fãs de Utah, eu assistia aos jogos e fui do time de corrida. Minha família toda foi para a faculdade em Utah. Mas quando BYU pegou o Zach, viramos do vermelho para o azul. E, agora, somos verdes – afirma Gary Neeleman em alusão às cores dos Jets, nova casa de Wilson.

Um dos motivos na escolha da faculdade, a distância, agora, vai ser um fator para Zach Wilson e sua família, com a mudança do jovem para a costa leste americana, mais de 3.400 quilômetros de distância da região de Salt Lake City, onde a família reside. Gary Neeleman revela que seu filho David Neeleman (dono da companhia de aviação Azul no Brasil), ao lado do próprio Zach, já se movimentam para comprar um camarote no MetLife Stadium, para que a família possa acompanhar ao vivo cada snap do quarterback na NFL.

- Vamos sentir falta, pois ele estará longe, mas a gente vai acompanhá-lo e, de vez em quando, ele vem pra cá também. Vamos sentir um pouco de falta. Mas estamos acompanhando os outros irmãos também – comenta Neeleman.

Zach Wilson tem três irmãos mais novos que também se enveredam pelos caminhos do futebol americano. Joshua é linebacker e se juntou recentemente ao time de BYU. A temporada 2021 será o seu primeiro ano no circuito universitário. Micah, também linebacker, ainda joga no high school, mas já está acertado para se juntar a BYU em 2022. E Isaac Wilson, de quinze anos, é quarterback em Corner Canyon e deve ser titular nesta temporada. Se tudo seguir conforme o planejado, BYU contará em breve com outro Wilson como QB no College Football.

O amor pelo Brasil

- Nós somos brasileiros. Deus é Brasileiro e os anjos falam português – afirma Gary Neeleman, um americano tão apaixonado pelo Brasil que se define como brasileiro. Jornalista de formação, ele morou por sete anos ininterruptos no país, trabalhando como correspondente da United Press no país. Três dos seus sete filhos por aqui nasceram, inclusive David Neeleman, dono de empresas de aviação como Azul, JetBlue e, agora, Breeze – está última que usará, inclusive, jatos da brasileira Embraer nos primeiros anos de operação.

Esporte foi algo que sempre motivou Gary Neeleman. Vários intercambistas brasileiros já estiveram em sua casa, alguns deles para jogar basquete no circuito universitário enquanto estudavam nos Estados Unidos. Na Olímpiada de Montreal, em 1978, ele recebeu o time masculino de basquete do Brasil em Utah, pois a comissão técnica queria fazer a preparação em um local de maior altitude. Gary também esteve presente em Indianápolis na vitória da Seleção Brasileira no Panamericano de 1987 e no lado brasileiro da arquibancada.

- Ao final do jogo, o técnico dos Estados Unidos veio até e mim e disse que eu era o culpado, pois estava ajudando o Brasil – gargalha.

Outro episódio marcante do basquete no Brasil e Gary Neeleman foi quando Michigan State, com Magic Johnson em seu elenco, excursionou por diversas cidades brasileiras, fazendo jogos de basquete contra equipes do país.

- Eu levei o time de Michigan State, de basquete, com Magic Johnson, mais famoso jogador de basquete (à época), para o Brasil e jogamos em toda parte. Todo lugar nos levamos o time e Magic Johnson. Nós temos essa relação com o pessoal do Brasil – salientou.

Gary Neeleman é cônsul honorário do Brasil em Utah desde 2002. Ele auxilia brasileiros que moram na região de Idaho, Montana, Wyoming, parte do Colorado e, obviamente, Utah. Ao aceitar o cargo, recebeu uma bandeira brasileira e um brasão de armas e a responsabilidade de auxiliar cerca de 20 mil brasileiros que moram na região.