Obrigado, Professor, por tantos ensinamentos
Morreu na sexta-feira (27), o cronista esportivo gaúcho Ruy Carlos Ostermann

É uma pena que tantas gerações de ouvintes, leitores e colegas de redação não tenham convivido e não terão mais a chance de conviver com uma figura como Ruy Carlos Ostermann. Carinhosamente chamado por todos de Professor, o jornalista e eterno professor de Filosofia (daí o apelido) deixou uma série de admiradores, colegas e familiares órfãos nesta sexta-feira (27), quando faleceu em Porto Alegre.
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Duas pequenas histórias pessoais retratam um pouco do porquê da admiração de tantos colegas por esse que é e sempre será o melhor cronista esportivo gaúcho. Talvez do Brasil.
No meu primeiro dia como redator em Zero Hora, jornal onde o Professor trabalhou até 2014, me instalei onde havia um computador vago, no fundo. Logo depois, entra na redação o Ruy, que já conhecia, claro, do rádio e as colunas nos jornais. Boa tarde, pra cá. Oi, pra lá. E ele se instala na mesa ao lado.
De pronto quis saber quem eu era. Nervoso, com as mãos suando por estar lado a lado com o grande Professor, me apresentei e expliquei que estava ali como freelancer. Cordado e cordial como era, me deu as boas vidas e já entabulou conversa, até me dando um dos apelidos que guardo com carinho, Bob Garden.
E essas conversas viraram quase diárias. O tema principal era o futebol, claro, mas não só isso. Entravam livros, filmes, músicas etc. Verdadeiras aulas tive nesses momentos.
Aliás, para dar uma dimensão a mais do Professor, ele teve por anos um programa de entrevistas nas tardes da rádio Gaúcha. Era capaz de conversar com a mesma desenvoltura com um artista local começando a carreira ou com um filósofo internacionalmente conhecido como Edgar Morin.
Corta para alguns anos depois. Eu em outra redação no mesmo grupo. Passo por ele no corredor. Ruy saía de uma entrevista. Como havia ouvido no rádio de pilha que sempre levava comigo, comento que havia gostado muito e digo que seu programa estava cada vez melhor. O Professor, parecendo um foca elogiado por um colega experiente, se saiu com um "é mesmo?", e emendou:
– Sabe como a gente faz? Uma vez, o João Saldanha (outro gigante da crônica esportiva) me contou. Perguntei para ele como fazia para ser muito bom em tudo. E ele me puxou de lado e falou baixinho: "me cerco de gente melhor do que eu. Assim, pareço melhor do que sou". É assim que costumo fazer.
Obrigado, Professor, por tantos ensinamentos.
Quem era Ruy Carlos Ostermann
É muito provável que boa parte do Brasil, principalmente os mais novos, não conheçam Ruy Carlos Ostermann. Quem viu as inúmeras homenagens a ele que pipocam nas redes sociais na manhã deste sábado (28), seja de Grêmio ou de Internacional ou então de grandes nomes do Jornalismo Esportivo, como Mauro Beting, José Trajano, Paulo Cesar Vasconcellos e Galvão Bueno, entre outros, deve ter se perguntado quem ele era.
O Professor é apontado como um dos pioneiros no uso de dados do futebol nos comentários. Ele praticamente criou o uso da prancheta com informações nos jogos para embasar suas falas e textos. Só que não usava esses dados pura e simplesmente. Ele escrevia verdadeiras obras literárias em cima dessas informações que anotava a cada jornada.
Autor de 11 livros, Ruy era, sem dúvida, do time de cima do Jornalismo. Tinha um olhar diferenciado sobre o jogo de bola, talvez por sua formação em Filosofia. Possuía um texto quase literário, uma voz marcante e empostada. Tinha tudo para ser um intelectual empolado, daqueles que andam de cabeça empinada e se acham acima dos demais, meros mortais. Era o inverso disso, porém.
Trabalhou 57 anos nas redações gaúchas. Cobriu 13 Copas do Mundo. E, a cada uma, acabava se reunindo com outros monstros da nossa crônica esportiva, como o próprio Saldanha, mas nomes também como Armando Nogueira, Alberto Helena e Juca Kfouri, entre outros.
Ruy é o tipo de Jornalista Esportiva que muitos tentam ser, ou até imitar, mas que jamais terá outro igual. Sorte de quem pode ouvir seus comentários no rádio, de ler seus textos nos jornais ou, mais ainda, e conviver com ele numa redação.

Nota do Grêmio
"O Grêmio lamenta profundamente o falecimento do jornalista Ruy Carlos Ostermann. Um dos maiores nomes da história da imprensa esportiva brasileira, e dono de um estilo único, Ruy contou as glórias do nosso esporte com competência e elegância. Nos solidarizamos com a família e amigos neste momento de profunda dor. Vai em paz, Professor! 🙏🤍"
Nota do Internacional
"O Rio Grande do Sul se despede de um dos maiores comunicadores de sua história. 🖤
Faleceu nesta sexta-feira, aos 90 anos, Ruy Carlos Ostermann, jornalista e cronista de brilhante trajetória na imprensa gaúcha. O Professor cobriu 13 Copas do Mundo, e também escreveu o livro "Meu Coração é Vermelho", que conta a história do Clube do Povo no século XX.
Neste momento de dor, toda nossa solidariedade à família e amigos.
Vá em paz, professor! 🙏"
Homenagens de colegas
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