VAR

VAR foi utilizado em toda a Copa do Mundo de 2018 (Foto: Luis Acosta/AFP)

Paulo Henrique Ferreira*
15/07/2018
14:46
LANCE!

O VAR foi a grande transformação desta Copa. Mudou uma diretriz de quase 100 anos que a FIFA havia determinado: que o futebol amador e profissional deveria ser disputado com os mesmos recursos (um campo, dois gols, 22 jogadores, três juízes e uma bola).

Por um tempo esta mentalidade ajudou na difusão do esporte, mas de umas décadas pra cá este amadorismo estrutural mais atrapalhou que ajudou (inclusive atrasou pesadamente o desenvolvimento da indústria do futebol no Brasil e Argentina, é bom frisar).

Em 2018, justamente durante uma Copa do Mundo, o VAR finalmente separou o futebol profissional do futebol amador, como já acontece em outras grandes modalidades esportivas: tênis, basquete, futebol americano, vôlei, atletismo e natação, por exemplo.

Neste domingo (15), após uma final com uma penalidade marcada com auxílio do VAR, o futebol profissional se diferenciou, em definitivo, da modalidade praticada em nível amador. Já era tempo, pois esta mudança será muito positiva. Vai determinar uma série de transformações no jogo bonito e, sobretudo, na gestão do esporte daqui pra frente.

Afinal, o VAR determina uma nova cultura de trabalho. Não apenas para gerir este novo recurso, mas sobretudo na gestão do esporte sob um novo paradigma: agora o futebol é, de fato, uma indústria que demanda tecnologia e recursos de ponta. Para ser praticado em alto nível, é necessário, cada vez mais, sustentabilidade econômica das confederações, federações e clubes; estruturas mais competentes de gestão, em um ambiente mais criterioso; profissionalização dos árbitros, das comissões técnicas e dos atletas (que vão buscar uma atitude mais responsável, em virtude da transparência, que virou elemento central do esporte).

E este será o ponto de virada para uma nova fase da indústria do futebol. Assim como Pelé de 1970 consolidou o modelo do atleta profissional e a Copa de 1982 emplacou o conceito do futebol de resultados, a Rússia 2018 apresenta, de uma vez por todas, o Futebol Profissional, com "P" maiúsculo.

Esta ruptura torna o ambiente mais favorável para países e clubes que encaram a gestão de forma séria e consistente - da base à arbitragem. Com isso, abre-se uma clara oportunidade para o estabelecimento de uma nova ordem ao longo dos próximos anos, como aliás, já vimos nesta Copa.

Inclusive, vale o alerta: se a CBF e AFA não se atinarem, o abismo vai aumentar entre sul-americanos e europeus. Afinal, desde 2006 só europeu ganha a Copa. E esta diferença também já pode ser constatada no Mundial de Clubes.

Por isso, se os dirigentes sul-americanos não se mexerem, teremos transformações ainda mais profundas na "geopolítica da bola" em 2022, no Catar e, principalmente, em 2026, na Copa dos Canadá-EUA-México - que será disputada por 48 seleções.

Portanto, com o VAR e todas as mudanças que ele simboliza, a tendência é que novas potências, mais estruturadas, se consolidem. Tradição, claro, ainda vai pesar, como vimos na final entre França e Croácia. O imponderável (e a paixão) não nos abandonará. Mas o futebol moleque, no campo e extracampo, vai perder espaço. Por outro lado, a indústria do futebol só vai crescer, mais e mais, e será uma indústria definitivamente global. A Rússia 2018 representa este marco.

*Paulo Henrique Ferreira é jornalista, diretor da Barões Digital Publishing. Entre outras posições no mercado da internet, foi gestor de mídias digitais do LANCE! entre 2008 a 2015.