Gestão Esportiva na Prática: O erro no futebol e a ilusão da perfeição
Enquanto outros esportes entendem o erro como parte do processo, o futebol o transforma em sentença

Por ser um esporte de score baixo, o futebol trata muito mal o erro. Um gol muda o destino de uma partida e, por extensão, de carreiras e narrativas inteiras. Talvez por isso, o erro assuma um peso desproporcional, quase moral.
No entanto, é o erro que aproxima o futebol de sua humanidade. É ele que revela vulnerabilidade, coragem e aprendizado. E é exatamente o que o futebol insiste em negar.
Nos esportes de alto volume de ação, o erro é tratado com mais naturalidade. Um atacante de voleibol que acerta seis em cada dez ataques é considerado fora de série. Giovane, Tande, Giba, entre tantos outros, construíram suas carreiras em torno da repetição exaustiva e da aceitação de que errar faz parte da engrenagem do acerto.
No basquete, Michael Jordan encerrou sua carreira com 49,7% de acerto nos arremessos, LeBron James tem média de 50%, e Stephen Curry, o melhor arremessador de três pontos da história, converte pouco mais de 43% das tentativas.
Erro no futebol ganha mais peso
No futebol, entretanto, um atacante que perde dois gols é rotulado como inútil, um meio-campista que erra dois dribles é substituído sob vaias, e um zagueiro que falha uma vez em cem lances vira manchete negativa.
A diferença está no olhar. No basquete e no vôlei, há uma cultura de tolerância e compreensão do erro como dado estatístico.
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No futebol, o erro é visto como defeito moral. Essa distorção se amplifica com o calor da arquibancada e com a pressa das redes sociais, que transformam qualquer falha em julgamento instantâneo.
Na arbitragem, o cenário é ainda mais emblemático. Com a chegada do VAR, criamos uma ilusão de perfeição. O árbitro, agora observado por dezenas de câmeras, passou a ser cobrado como se fosse um software infalível. O problema é que o VAR não elimina o erro, apenas o muda de lugar. O erro tecnológico é tão humano quanto o erro de campo, mas, ironicamente, mais frio e menos compreendido.
O jogo entre São Paulo e Palmeiras, neste fim de semana, escancarou essa realidade: por mais tecnologia que tenhamos, ainda há subjetividade, interpretação e contexto.

E enquanto continuarmos exigindo precisão cirúrgica de um jogo que nasceu da emoção e do improviso, vamos seguir condenando o que o torna belo.
Talvez o maior erro do futebol seja acreditar que pode existir sem o erro. Porque é o erro que nos ensina a jogar, a decidir e, sobretudo, a compreender o que é ser humano dentro de campo.
E talvez seja hora de ampliarmos essa reflexão.
Temos falado tanto sobre a saúde mental no esporte e na sociedade como um todo, mas pouco sobre como está e como está sendo cuidada a saúde mental dos árbitros
brasileiros.
Talvez isso seja ainda mais importante do que a própria profissionalização, a mais nova solução mágica e simples para uma questão humana e complexa.
Como regra, nós brasileiros não gostamos de futebol. Gostamos do nosso clube. E a única coisa que nos importa é que ele ganhe sempre. Não importa como.
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Felipe Ximenes escreve sua coluna no Lance! todas as quartas-feiras. Confira outras postagens do colunista:
➡️Brasileirão de 40 clubes – equilíbrio, surpresas e a urgência da gestão
➡️ 5 + 1, a equação da nossa tragédia
➡️ Quando o vestiário fala
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