David Nascimento e Guilherme Amaro
10/06/2016
08:00
Rio de Janeiro (RJ)

Era 5 de agosto de 2015. O Vasco anunciava a contratação de Nenê, que retornara ao Brasil após mais de dez anos fora do país. O contrato era válido até o fim desta temporada, já que não se sabia se ele iria bem. Quase um ano depois, o camisa 10 de São Januário renovou o vínculo até 2018 por causa de assédios de outros clubes, se fixou como a maior estrela da equipe, nome essencial na invencibilidade que já dura 34 jogos, e já é aclamado pelos torcedores como ídolo vascaíno. E falou com exclusividade ao LANCE! sobre o passado, o presente e o futuro.

Aos 34 anos, Nenê respondeu aos críticos que não esperavam que ele teria desempenhos como os atuais por conta da idade. O camisa 10 do Vasco revelou ainda até ter se surpreendido por não ter desfalcado a equipe por lesões até agora (ficou fora este ano apenas uma vez, contra o Friburguense, por suspensão, e pelo mesmo motivo não pega neste sábado o Atlético-GO).

– Eu sabia que fisicamente estava bem, essa era a grande preocupação de todo mundo, se eu ia voltar fisicamente bem, essas coisas, mas eu sabia da minha situação, da minha capacidade. Estava bem, me cuidava, não tinha problema com lesão nem nada, então sabia que poderia surpreender muita gente. Acabei até me surpreendendo em relação à intensidade de aguentar todos os jogos, uma bateria muito grande, o calendário é bem pesado... Então fico feliz de poder mostrar meu trabalho como antigamente. Muitos pensavam que com essa idade eu não poderia mais ficar em alto nível – afirmou o camisa 10.

Confira a seguir a íntegra da entrevista exclusiva feita com Nenê:

O que pesou para ter a decisão de retornar ao Brasil no ano passado, ainda mais para um clube que apresentava dificuldades no Brasileiro?
Já estava muito tempo fora do Brasil. Meus filhos moravam aqui no Rio de Janeiro. Na época, me separei, estava em Monaco, eles vieram morar no Brasil com a mãe. A partir de então morei sozinho, depois de uns quatro ou cinco anos eu casei de novo, daí fiquei com minha esposa. Então eu meio que estava querendo voltar, já estava há bastante tempo fora e acabou dando certo. Acertei com o Vasco. Graças a Deus estou fazendo bem o meu trabalho e conseguindo ajudar a equipe com boas atuações.

Dez meses depois, o que você planejava ao assinar o contrato com o Vasco, aconteceu?
Eu já estava pensando em voltar para o Brasil antes de ir para o Qatar. Quando eu estava no PSG... Acabou que fiquei por lá, tinha chance de eu voltar para a Europa de novo, tanto é que fui para Londres depois, joguei no West Ham, mas acabou não dando muito certo. Daí falei “vamos voltar para o Brasil”. Já era uma coisa esperada, foi até mais do que eu esperava. As coisas difíceis no ano passado em relação ao rebaixamento, mas acho que todo mundo viu que nós mudamos a cara, o segundo turno foi outra coisa, todo mundo viu o empenho... E acabou sendo uma coisa que chegando vivo na última rodada já era uma “coisa boa”. Com a continuação do trabalho para este ano, estou muito feliz.


Chegou em algum momento a temer não se adaptar novamente ao futebol do Brasil?

Nunca penso por esse lado negativo, receio de não dar certo... Sempre penso de uma maneira positiva. O que me ajudou é que não vim direto do Qatar. Lá o nível técnico é muito mais baixo, a competitividade é muito menor, então seria realmente mais complicado. Mas como eu voltei para a Europa, tive essa transição lá, seis meses, eu me readaptei, porque acho que hoje em dia o futebol no Brasil está muito parecido com o da Europa.

Em quais características você se refere às semelhanças entre o futebol do Brasil e da Europa?
A intensidade é muito grande, taticamente muito parecido, hoje em dia não é como antes quando os atacantes não voltavam para guardar posição, hoje em dia se um setor não estiver organizado, acaba complicando. Acho que está bem parecido com a Europa nesse termo, está bem diferente da época que joguei aqui antes de sair, em 2003.

Quando você voltou para o Brasil e assinou com o Vasco, o contrato era até o fim deste ano. Mas acabou renovando em janeiro até o fim de 2018. Quais foram os motivos que levaram para ter esta decisão?
Foram vários fatores. O Vasco foi o time que me abriu as portas, confiou, foi quem mais demonstrou interesse nessa minha volta, me acolheu... Poxa, como se eu não tivesse ainda cumprido com minha missão de ajudar o time a se salvar, com 100%, o presidente e comissão técnica me mostraram a referência que eu poderia ser no time, mostraram a referência que eu era e poderia ser ainda... Ter uma história assim em um clube com uma tradição muito grande, isso em pouco tempo no Brasil, é difícil. Você se tornar um ídolo de um clube em tão pouco tempo é muito difícil e eu já estava no caminho certo.

Qual foi a importância da torcida do Vasco nesta renovação? Ainda mais porque o Vasco acabara de cair e você tinha propostas de outros times que iriam para a Libertadores...
A torcida é tudo. Assim, a minha carreira já é consolidada, a única preocupação poderia ser “poxa, vou disputar a Série B”, mas já tenho uma carreira consolidada, já disputei Libertadores... É claro que eu quero disputar Libertadores também, mas daí pensei, coloquei na balança. Posso jogar no Vasco, o time subir, a gente ganhar a Copa do Brasil e jogar a Libertadores ano que vem da mesma maneira e ter construído um respeito muito grande em tão pouco tempo. E no Rio de Janeiro eu me adaptei muito, eu gosto muito, minha esposa também, ambiente gostoso, praia... Tudo casou para eu renovar o meu contrato até o ano de 2018.

As suas boas atuações já rendem pedidos para que você seja convocado para a Seleção Brasileira. Acredita ter chance?
Acho que tem que sempre acreditar. É um sonho que eu tenho desde que comecei a minha profissão, acho que qualquer jogador sonha com Seleção Brasileira, e acho que se eu chegar em um nível fisicamente bem como eu tenho mostrado, as chances podem aparecer. Mas eu fico feliz de meu nome já ser falado. No futebol tudo é possível, acredito sim que pode chegar minha chance, tem exemplos aí do Ricardo Oliveira, Kaká que tem a minha idade, então acho que isso de ter 34 anos não seria empecilho. Eu, graças a Deus, estou muito bem, minha idade não seria problema.


Acha que pode chegar bem em 2018, quando terá outra Copa?

Aí eu já não sei, mas tenho que pensar no momento, não fico pensando muito nisso, eu confio que você fazendo as coisas bem feitas, as oportunidades podem aparecer. Eu estou tranquilo, se aparecer ou não vou estar feliz, sabendo que meu trabalho está sendo muito bem reconhecido no país inteiro, isso é muito importante.

Quando você acabar o contrato com o Vasco vai ter 37 anos. Tem meta de idade para se aposentar?
Uns 40 anos, por aí, acho que uns 40 está bom, né? Dá pra chegar (risos).

Depois de se aposentar, pretende seguir carreira no futebol?
Sim, ainda não tenho nada em vista, mas trabalhar com futebol, não sei ainda, trabalhar no clube, com jogadores. Se eu for continuar trabalhando, será nesse ramo, que é o que eu amo fazer, a única coisa que sei fazer. Não adianta querer fazer coisa que a gente não entende porque dá problema, assim seria melhor ficar quietinho que é melhor (risos).

Como é Nenê fora de campo?
Sou bem tranquilo, sou casado, tenho filhos, moram em Jundiaí, sempre que eu posso estou junto, eles vão me ver no Rio também. Sou bem família, eu gosto muito de sair para jantar, conhecer restaurantes, nada além disso, gosto de dormir bastante.

Você tem uma característica de usar muito as redes sociais para transmissões ao vivo. Por quê?
É mais para ter proximidade com fãs de uma maneira mais natural, eles verem o Nenê fora do campo, de eu realmente passar o verdadeiro eu, não que faço só uma imagem no campo, para eles verem que eu sou assim dentro e fora de campo, sou uma pessoa normal, igual a todos e tento retribuir o carinho deles.

É pressão ter que subir para a elite do Brasil no próximo ano?
Pressão tem, né? Mas a gente já sabe. A pressão que tivemos ano passado já era muito difícil, este ano está sendo mais tranquilo porque o time está tendo resultado, eles já viram desde o segundo turno do ano passado nossa entrega e dedicação em campo, então está é mais tranquilo. A pressão é nossa, a gente sabe que é nossa obrigação subir para a Série A.

Você já tem 51 jogos com a camisa do Vasco. Qual é o melhor e pior momento da fase?
É um balanço muito positivo. O pior momento foi o rebaixamento e o melhor está sendo a continuidade desta base, deste ambiente de grupo que criamos, esta invencibilidade. Posso falar que o melhor momento foi o Campeonato Carioca, que vencemos de forma invicta, são poucos que conseguiram isso e a continuação dessa história nesta temporada.

Já se vê como ídolo?
Eu estou sentindo isso, mas ídolo precisa conquistar títulos também e creio que estou no caminho certo. Campeão carioca e se continuar nessa pegada e for campeão brasileiro, conquistar a Copa do Brasil, posso reconhecer. Reconhecimento da torcida é coisa que não tem preço.

Como quer estar em dezembro?

Campeão e na Série A.