Jonas Moura
07/09/2016
06:00
Rio de Janeiro (RJ)

O carioca Andrew Parsons se orgulha de chegar aos Jogos Paralímpicos Rio-2016 com uma previsão de orçamento de R$ 180 milhões do Comitê Paralímpico Brasileiro (CPB), quase seis vezes mais do que ele encontrou quando assumiu a presidência da entidade, em 2009.

Sete anos depois, é hora de comprovar que o poder de captação de recursos, praticamente todos de origem pública, se traduziu na transformação do Brasil em uma potência do esporte voltado a deficientes. A meta do país, sétimo lugar em Londres-2012, é terminar o evento em quinto, no total de ouros. Mesmo sem a Rússia, punida por doping, ele diz:

– Ficar entre os cinco não é uma promessa. É uma meta. Não significa que, se terminarmos em sexto, tudo terá sido em vão. Mas temos de olhar para frente – afirmou Parsons, nesta entrevista ao L!.

LANCE!: A meta de terminar os Jogos do Rio entre os cinco primeiros em ouros foi anunciada em 2009. Algo mudou de lá para cá?
Andrew Parsons: Fizemos uma revisão depois de Londres-2012, e o sarrafo está mais alto. A Austrália manteve o quinto lugar, mas com 33 ouros (ganhou 23 em Pequim-2008). Porém, temos de olhar para frente. Ficar entre os cinco não é uma promessa, é uma meta. Não significa que, se terminarmos em sexto, tudo terá sido em vão. O que queremos, necessariamente, é fazer nossa melhor campanha na história.

L!: Como a suspensão da Rússia impacta no planejamento?
AP: A conclusão é que não foi benéfico para nós. É difícil, porque, em um primeiro momento, tende-se a pensar que, com a retirada da Rússia, o Brasil já é sexto. Não é bem assim. É preciso pensar quem são as pratas destes ouros. E se seis ou sete dessas medalhas forem alemãs? É uma conta complicada de se fazer. Muitos países, inclusive nós, estão preocupados. Estamos falando de pódios herdados por concorrentes diretos. Não facilitou a nossa vida.
NR: A Alemanha foi oitavo lugar na Paralimpíada de Londres, uma posição abaixo do Brasil, porém com mais pratas: 26 contra 14

L!: Como vice do Comitê Paralímpico Internacional (IPC), você fez parte da decisão da retirada da Rússia dos Jogos, após o esquema de dopagem. Uma medida dura...
AP: Foi uma medida muito dura, mas absolutamente necessária. Além de patrocinado pelo estado, era um esquema em que os atletas tiravam fotos dos frascos do laboratório de Moscou. Ou seja, eles sabiam. É como um trapezista com uma rede de proteção. Ele pode se arriscar, pois sabe que está protegido. O esporte na Rússia estava crescendo dentro de um sistema corrompido.

L!: Houve uma tentativa de atletas russos competirem sem bandeira, o que foi rejeitado pelo IPC. Como viu isto?
AP: Sabemos que alguns dos russos podem não ter se dopado, mas há um momento em que é preciso ser duro. Podemos lembrar a suspensão do Comitê Olímpico da África do Sul, nos anos de apartheid. Não fomos eleitos no comitê executivo para tomar decisões fáceis. Perde o esporte, perde o atleta limpo, perde todo mundo. Mas era necessário.

L!: O que a Olimpíada trouxe de aprendizado para o CPB?
AP: Eu estive presente durante todos os Jogos Olímpicos, principalmente para saber quais eram os principais problemas enfrentados pelo Comitê Organizador. No meu papel duplo, eu alertava a delegação brasileira para mitigarmos quaisquer falhas, e ao mesmo tempo, como vice do IPC, trabalhar para que os erros fossem corrigidos. Alguns, como as filas nas lanchonetes, não afetam o CPB. Mas preocupam o IPC. As medidas foram tomadas. Usar o calor do público também foi importante. Vimos, nos episódios das vaias aos estrangeiros, que o brasileiro jogou a favor. Não sei se vai se repetir na Paralimpíada. Esperamos que não. Acho que não cabem vaias, mas foi um aspecto.

L!: Enquanto as confederações olímpicas foram atingidas pela crise, o CPB aumentou a arrecadação de verba pública. Como explica este cenário?
AP: Sempre foi um mantra no CPB que legado não acontece por acaso. Queríamos sair com dois: o Centro de Treinamento e o incremento da arrecadação. Achávamos que este aumento viria da iniciativa privada. Não aconteceu. Entendemos que há uma crise. Então, trabalhamos com o legislativo. Ganhamos nos últimos anos uma credibilidade que nos permitiu sair com legados. Enquanto os meus colegas estão preocupados com suas confederações, estamos menos. Para muitas entidades, o cenário é de falta (de recursos).

L!: O ciclo até Tóquio-2020, portanto, não preocupa?
AP: A Lei Brasileira da Inclusão só entrou em vigor em 2016. Então, há uma expectativa grande para Tóquio. Nossa preocupação pode não ser com a sobrevivência, mas com a manutenção de um nível elevado. Mas isso você trata com o próximo presidente. Não estarei aqui (risos).

QUEM É ELE

Nome
Andrew Parsons

Nascimento
10/2/1977, no Rio de Janeiro

Formação
Graduado em Comunicação Social pela Universidade Federal Fluminense.

Cargos
Presidente do Comitê Paralímpico Brasileiro (CPB), vice-presidente do Comitê Paralímpico Internacional (IPC, na sigla em inglês), membro do Conselho Executivo do IPC, da Comissão de Rádio e Televisão do Comitê Olímpico Internacional (COI) e das Comissões da Coordenação dos Jogos de Tóquio-2020 e do Canal Olímpico, ambas do COI.