Jonas Moura
10/09/2016
08:05
Rio de Janeiro (RJ)

Observador, Fernando Guimarães se apega aos detalhes para garantir uma preparação de alto nível à Seleção Brasileira masculina de vôlei sentado. O intervalo entre o almoço e o início de uma partida entre dois oponentes nos Jogos Paralímpicos do Rio é curto. Mas o técnico se posiciona antes mesmo de a bola subir, liga a câmera e começa a analisar cada jogada dos rivais. Além de treinador, é estatístico e editor de vídeo.

A cena presenciada pelo LANCE! na sexta-feira no Pavilhão 6 do Riocentro retrata os esforços do paulista de 52 anos para fazer do país uma potência. Irmão do tricampeão olímpico José Roberto Guimarães, da Seleção feminina, ele não recebe salário, mas acumula tarefas de qualquer time de ponta do vôlei convencional. Tudo sem reclamar.

A ajuda de custo da Confederação Brasileira de Voleibol para Deficientes (CBVD) e apoios pontuais durante as competições são sua única fonte de renda no meio esportivo atualmente. Vice-campeão do Mundial de 2014, ele trabalha para levar o grupo ao pódio pela primeira vez. Em Londres-2012, o Brasil terminou em quinto.

– Não vejo nenhuma outra seleção paralímpica filmar os jogos como a gente. Quando fazem, os atletas não assistem. Só as comissões técnicas. Nós estudamos as imagem até dos treinos. Acho que futuramente todos irão fazer o mesmo – disse Fernando ao L!.

Em 2011, o profissional foi convidado a assumir o comando da equipe pelo ex-jogador Amauri, presidente da CBVD. Era o perfil ideal para o projeto, pois entendia de alto rendimento e fazia trabalhos com deficientes. Em São Paulo, tem uma clínica de hipoterapia, técnica que utiliza cavalos para ajudar pessoas com necessidades especiais.

O estilo motivador também ajuda. Fernando procura levar histórias de impacto nas palestras que faz com a equipe. Dentre as inspirações, está “Coach Carter”. O filme narra a vida de Ken Carter, ex-jogador de basquete dos Estados Unidos que recusou convites da NBA e se dedicou, como técnico, à formação escolar de seus comandados.

– Tento levar a ideia de grupo. Mas eles gostam mesmo é quando eu passo Rocky Balboa – contou o técnico, em referência à obra protagonizada por Sylvester Stallone, sobre um boxeador que tem de se superar contra um dono de cinturão.

Veterano vibra com mudança de estilo do comandante

O técnico Fernando Guimarães se acostumou a ser comparado com o irmão tricampeão olímpico, mas não demonstra nenhum incômodo com o assunto. Até porque ele admite que os perfis são distintos, devido ao seu jeito mais explosivo, que contrasta com o ar de serenidade de Zé Roberto.

Mas quem convive com o paulista na Seleção de vôlei sentado diz que as brigas já foram muito mais frequentes. E comemora a mudança.

– Ele dava muita bronca, mas mudou bastante. O reflexo do técnico é visto na quadra. Tem hora que ele vai explodir, com certeza, mas procura ser o mais sereno possível para nos deixar tranquilos – afirmou o atacante Anderson, de 2,12m, ex -jogador de vôlei convencional.

– A proposta do Fernando era sair do sexto para os primeiros, e conseguiu. Adaptamos aspectos do convencional para o sentado que nos ajudam nos jogos – disse o atleta de 37 anos.

O Brasil não teve muito trabalho na estreia nos Jogos Paralímpicos do Rio. Ontem, o time bateu os Estados Unidos por 3 a 0 (25-14, 15-17 e 25-14), pelo Grupo A do torneio. Amanhã, o grupo enfrenta o Egito.

BATE-BOLA
Fernando Guimarães Técnico ao LANCE!

‘O conjunto de aprendizados me trouxe aqui’

LANCE!: Como foi estimular o estudo dos rivais antes dos jogos, seguindo o modelo do vôlei convencional?
FERNANDO: Não podemos viver sem informação. O que muda no vôlei sentado é que somos nós, técnico e assistentes, que fazemos os vídeos. Quando trouxemos esta proposta, os meninos não estavam acostumados. Até dormiam. Hoje, pedem para ver. Todos querem chegar aqui sabendo dos seus adversários. Todos os dias tem vídeo.

L!: Você trabalhou por 10 anos com o Zé Roberto. Como foi o período?
F: O Zé tem um centro de esportes em Barueri, onde eu tinha cavalos e fazia atendimentos. Ele montou times nos anos 90 e queria que ex-jogadores estivessem na comissão. Eu fiquei com ele de 1995, nos clubes, até 2007, já na Seleção. Foi bacana, porque deu para aprendermos muito. O que fazemos hoje é adequar o modelo que deu certo na quadra para o vôlei sentado.

L!: Como foi a sua chegada ao cargo de técnico de vôlei sentado?
F: Eu joguei vôlei desde moleque, mas fui mediano. Na época, o berço do esporte era Santo André (SP), onde aconteciam os treinos da Seleção. Eu via o Zé, e os meninos ficavam lá em casa. Depois, fiz fisioterapia e, no final da faculdade, conheci a hipoterapia, algo praticado só na Europa. Fui para a Áustria, onde joguei e aproveitei para fazer cursos e me especializar. Na volta, trouxe a técnica. Há 28 anos, passo oito horas por dia no cavalo (risos). Acho que este conjunto de aprendizados me fez chegar aqui.

L!: Qual é sua perspectiva de futuro na Seleção, até financeiramente?
F: Ainda é um início. Sabemos que é difícil pleitear recursos. O Ministério do Esporte e o Comitê Paralímpico Brasileiro ajudam. Mas estamos aqui para buscar resultados. Tenho um acordo com a Confederação para ficar até o final dos Jogos do Rio. Depois, ninguém sabe o que vai acontecer.

QUEM É ELE

Nome

Fernando Lajes Guimarães
Nascimento
30/12/1964, em São Paulo
Altura e peso
1,73m e 70kg
Como atleta
Ex-levantador, jogou por Pirelli (SP), Hebraica (SP), Corinthians, Western Union Graz (AUT), Mackenzie e Barueri (SP).
Na comissão
Ao lado de Zé Roberto, integrou o grupo de fisioterapia de UNG (SP), Dayvit (SP), Finasa/Osasco (SP) e da Seleção Brasileira feminina.