Muhammad Ali

Muhammad Ali morreu na última sexta-feira aos 74 anos nos Estados Unidos (Foto: Reprodução/Facebook)

José Maria dos Santos
09/06/2016
07:10
Especial para o LANCE!

A morte de Muhammad “Cassius Clay” Ali transportou-me para uma manhã de 1971, setembro, no Hotel San Rafael, esquina da avenida São João com a Duque de Caxias, em São Paulo. O burburinho do hall estava à altura da pequena multidão – jornalistas e curiosos – que se apertava contra as paredes, na esperança de ter um contacto com o pugilista, hospedado no sétimo andar. Ele viera fazer uma luta-exibição na cidade.

Preventivamente, a gerência havia bloqueado o acesso aos elevadores para evitar assédios e até uma invasão ameaçadora. Até aquele momento, ninguém havia tido a iniciativa de subir pela escada, perfeitamente desimpedida, até o primeiro andar e ali tentar a sorte. Foi o que nós fizemos, Fernando Del Corso e eu, repórteres da sucursal paulista da revista Manchete.

Neste andar se localizava o restaurante. Antes que o chamássemos, o elevador ali parou e quando a porta se abriu, ficamos estupefatos.

Perdoem o adjetivo fora de uso, mas era o que cabia ao nosso espanto.

Nos seus 1,91m, envergando um slack (traje estilo militar que os ingleses usavam nas colônias do império britânico) verde água, Muhammad Ali nos olhou de cima para baixo. Era um homem majestosamente vistoso.

Fernando escreveria que a imensa mão dele chegaria até seus cotovelos no momento dos cumprimentos.

Ele viera tomar seu café da manhã. Nós o seguimos, nos apresentando às pressas. Levávamos um exemplar da revista “Manchete,” para lhe mostrar no sentido de facilitar a entrevista. Muhammad tomou a edição de nossas mão.

- Quanto custa?

- Meio dólar.

- E quanto vocês vão me pagar?

- Mr. Ali. Não vamos pagar nada porque no Brasil não temos esse costume. Mas pensamos que o senhor teria interesse em falar, para disseminar suas idéias.

Mediu-nos outra vez de alto a baixo.

- Sentem-se.

A entrevista foi morna, enquanto ele tomava café. Já havia respondido ‘trocentas’ vezes as perguntas em que predominavam temas políticos em torno da Guerra do Vietnã, então no auge. Somente ganhou calor quando ele a interrompeu e disse.

- Quem deveria explicar essas perguntas que vocês fazem é o presidente dos Estados Unidos (Richard Nixon).

Muhammad Ali era um bom e conhecido poeta. Estendemos-lhe uma lauda de Manchete, acompanhada da devida caneta, e pedimos que escrevesse um poema. Queríamos obter um manuscrito exclusivo e de caráter para enriquecer a matéria. Não nos cumprimentem pela idéia genial, pois foi ‘chupada’ de um repórter da revista americana Time ao entrevistar Pablo Picasso, salvo engano, pelos seus 70 anos. Em vez de apresentar uma lauda, o rapaz pôs distraidamente na mesa que ambos ocupavam uma foto do pintor, tipo 3 X 4. Durante a conversa, como costuma fazer todo mundo, principalmente os arquitetos e assemelhados que talvez não conseguissem falar sem um lápis na mão, Picasso fez óculos, cavanhaque e bigode na própria imagem, com aquele clássico ar de garatujas infantis. Devidamente ampliada, foi capa da revista: Picasso by Picasso.

Muhmmad afastou a lauda com desprezo, erguendo arrogantemente o queixo. Era um mestre nessas encenações que, ao final, se revelava, carinhosas e bem humoradas. Em seguida recuperou-a e escreveu furiosamente: “Eu sou o verdadeiro campeão. Frazier é um vagabundo”.

Assinou embaixo: Muhammad Ali!

O poema escrito por Muhammad Ali (Foto: Arquivo Pessoal)
O poema escrito por Muhammad Ali (Foto: Arquivo Pessoal)

Convém lembrar que o governo norte-americano o havia penalizado com a cassação do seu título de campeão mundial dos pesos-pesados por se recusar a combater na guerra do Vietnã, transferindo-o para Joe Frazier, além de uma condenação por três meses.

Ficamos satisfeitíssimos e rapidamente guardamos a lauda sagrada. Mas ele pediu-nos de volta, com jeito de que não admitiria recusa. Desolados, nós lhe devolvemos.

Então ele escreveu rapidamente um poema. A encenação mencionada talvez tenha sido um artifício para ganhar tempo a fim de elaborá-lo. Os versos tinham mais ou menos este sentido: O mais longe que posso ver/é lutar para ser livre/ Antes que eu morra de um ataque de coração/ou de uma dose excessiva de droga/ Eu peço: deixem-me morrer por ser negro.

A alusão às causas de morte assinaladas, Ali explicou, tinha a ver com as duas doenças rotineiras e fatais da sociedade americana.

Devolveu-nos a lauda e dirigiu-nos um aceno seco que, na linguagem de hoje quer dizer: vaza!