Encontro de lendas, Pelé e Muhammad Ali (Foto: Reprodução/Facebook)

Encontro de lendas, Pelé e Muhammad Ali,  os dois atletas do século XX (Foto: Reprodução/Facebook)

Thomas Hauser
04/06/2016
21:37
Especial para o The Guardian (ING)

O jornal  inglês "The Guardian", publicou um texto do escritor Thomas Hauser,  biógrafo do boxeador Muhammad Ali.  Hauser se lembra de conhecer um homem profundamente espiritual e inteligente com contos intermináveis, sem arrependimentos e uma paixão pela vida que nunca diminuiu. Veja abaixo: 

Em 1991, eu viajei a Inglaterra com Muhammad Ali para promover "Muhammad Ali: His Life and Times", que tinha acabado de ser publicado na Grã-Bretanha. Uma tarde, nós estávamos num evento de autógrafos em Londres quando uma mulher de uns quarenta anos passou pela fila. Ela olhou para Muhammad, depois para mim, e com um forte sotaque irlandês, perguntou: "Com licença, você é filho do Ali?"
"Não, senhora" , respondi.

“Oh”, ela disse francamente desapontada. "Você se parece com ele".

Minha primeira reação foi considerá-la tola. Afinal, eu sou branco e apenas quatro anos mais jovem que Muhammad. Mas então me ocorreu que esse era apenas um exemplo de como as pessoas não percebem a questão da cor, quando se aproximam de Ali. E, com certeza, aquele era um elogio e tanto - me considerar parecido com ele.

Também houve momentos tocantes na viagem. Uma tarde, nós estávamos em Nottingham. Tinha sido um longo dia pra Muhammad. De manhã, em Leeds, ele autografou 900 livros, posou para fotos, beijou bebês e apertou as mãos de centenas de admiradores. Agora o mesmo cenário se repetia com 500 pessoas que tinham esperado por horas pela chegada de seu herói.

Ali estava cansado. Ele tinha acordado às 5 da manhã, para rezar e ler o Corão. Sua voz, por causa do Mal de Parkinson, estava fraca. A "máscara" facial que revelava sua condição médica estava mais pronunciada que o normal.

A maioria das pessoas na fila estava alegre. Mas uma delas, uma mulher de meia idade, estava triste por causa do estado de Muhammad. Quando ela se aproximou, começou a chorar. Ali beijou seu rosto e disse: "Não se sinta mal. Deus me abençoou. Tenho tido uma boa vida e estou me divertindo agora". A mulher foi embora sorrindo.

Eu encontrei Ali pela primeira vez em março de 1967. Eu era estudante na universidade de Columbia e o anfitrião de um programa de rádio chamado "Personalidades do Esporte" que ia ao ar na estação de rádio estudantil. Muhammad estava se preparando para lutar contra Zora Folley no Madison Square Garden e eu tinha conseguido marcar uma entrevista com ele. Para um fã de 18 anos, era algo temerário.

Naquele ponto da carreira de Ali, ele estava virtualmente imbatível. Ali-Folley seria o seu sétimo título em menos de um ano e seu turno final antes de um período de três anos e meio de exílio no boxe. A guerra no Vietnã estava no auge. Muhammad tinha sido convocado para o serviço militar e a suposição é de que ele iria recusar o chamado. Ele mesmo deu uma pista ao dizer: "Por que me pedem para botar um uniforme e ir 10 mil milhas longe de casa para jogar bombas e atirar em pessoas no Vietnã, enquanto os negros de Louisville são tratados como cachorros?”

No Madison Square Garden, eu vi a série de exercícios de Ali. Então fiquei na beira do ringue quando ele brigou com Jimmy Ellis. Quando acabou, ele foi para o vestiário e eu o segui. Eu não era do New York Times nem de outra organização de renome, mas isso pareceu não importar. Ali me disse para ligar o gravador. Nós conversamos sobre a doutrina do Islã, algumas questões sobre o alistamento militar, sobre Folley e boxe em geral. Dez minutos depois, Ali disse: "Isso é tudo". E a entrevista acabou.

Minha relação pessoal com Ali começou em 1988, quando nos encontramos em Nova York para falar da possibilidade de eu escrever o livro "Muhammad Ali: His Life and Times". Havia um problema inicial que eu deveria enfrentar. Como milhões de fãs, eu tinha visto Muhammad pela TV. Algumas vezes ele parecia bem. Outras vezes, a luz parecia ter ido embora de seus olhos. Eu não queria me envolver no projeto a não ser que Muhammad fosse capaz de contribuir de forma significativa. E eu não queria perder anos trabalhando num livro que poderia ser uma fonte mais de depressão do que de alegria.
Para resolver aquelas questões, depois de me encontrar com Muhammad e sua esposa, Lonnie Ali, aceitei seu convite para passar cinco dias na casa deles em Berrien Springs, Michigan. No meu primeiro dia na casa, fiquei intimidado com a presença de Ali. Tinha dificuldade em olhar para ele. Não contando JFK, meu herói de infância, não existe outra pessoa no planeta que tenha me afetado de tal maneira. Então, na manhã seguinte, desci para a cozinha. Muhhamad estava sentado à mesa de café, terminando de comer cereais e torradas. Ele me olhou e perguntou se eu queria flocos de milho ou granola. Naquele momento, percebi que a distância entre nós era por minha culpa. Muhammad não queria ser posto num pedestal. Ele queria se relacionar comigo como eu faço com qualquer pessoa.

Pesquisando a vida de Ali, passei por diversos níveis. Primeiro, havia papéis pessoais, gravações médicas, documentos legais e financeiros, jornais, revistas e fitas. Depois, entrevistei cerca de 200 pessoas que conheceram Ali ao longo dos anos: parentes, amigos, pugilistas rivais, sócios, médicos, líderes mundiais, e outros. Diferentemente dos biógrafos anteriores de Ali, eu tive acesso a todos os personagens-chave da vida dele. Minhas questões eram respondidas com candura por quase todos. E passei incontáveis dias com Muhammad. Viajei com ele pelo mundo, passei semanas em sua casa e o recebi na minha residência.

Inevitavelmente, escrever o livro implicou revisitar minha própria juventude. Revi as Olimpíadas de 1960 na TV e li jornais sobre as primeiras lutas de Cassius Clay. Eu escutei de novo o programa de rádio da noite em que Clay bateu Sonny Liston no campeonato de pesos-pesados. A Guerra do Vietnã, assassinatos, distúrbios em cidades do interior; de uma forma ou de outra, muitos eventos-chave da história americana se entrelaçavam com a vida de Ali. E fiquei aliviado ao me sentar num teatro em Nova York em 2 de outubro de 1980 e virar meu rosto para não ver na tela um Ali envelhecido nas mãos de Larry Holmes.

Quando comecei a trabalhar com Muhammad, percebi que, apesar das dificuldades para falar, ele não tinha nenhum problema intelectual. Naquela época, seu pensamento era claro. Ele não tinha pena de si mesmo, amava ser Muhammad Ali e estava feliz.

Ali era uma figura imponente social e politicamente. Ele manteve-se como um farol de esperança para as pessoas oprimidas ao redor do mundo e personificava o pensamento de que, a não ser que haja um motivo muito forte para matar pessoas, a guerra era algo errado. De certa forma, ele era profundamente religioso e espiritual. Não encontrei outra pessoa com tanta sinceridade sobre princípios religiosos como Muhammad. No fim de cada dia, ele perguntava a si mesmo:" Se Deus me julgasse apenas pelo dia de hoje, eu iria para o céu ou o inferno?”

"Não tenho medo de morrer", Muhammad me disse. "Tenho fé. Faço tudo que posso para viver de forma correta e acredito que a morte me deixará mais perto de Deus".

Ainda assim, Ali nunca tentou impor seus princípios religiosos às outras pessoas. Quando eu o acompanhava a uma mesquita para compartilhar essa parte da vida dele, ele me dizia "Quando dissermos nossas preces muçulmanas, você pode fazer suas orações judaicas. Apenas não faça isso alto para não ofender alguém".

Muhammad Ali
Hauser: "Ali nunca  tentou impor seus princípios religiosos às outras pessoas"

Um dia, nós discutíamos sobre a "autobiografia" de Ali de 1976. O livro contém vários contos alegóricos, incluindo o episódio em que ele teria jogado a medalha de ouro no rio Ohio depois de ser rejeitado num restaurante por discriminação racial.
"Você não fez isso, fez?”, perguntei.

“Jure por Allah.”

Não houve resposta.

"Jure", insisti.

"Alguém roubou, ou perdi", ele admitiu.

Outra lembrança que tenho daquele tempo é de acordar com Lonnie gritando: “Oh Deus! Muhammad! O que você fez?”

Eu era muito curioso. Então, me vesti, desci as escadas e encontrei Lonnie na sala de estar entre roupas, caixas e vários pertences. Aparentemente, durante a noite, Muhammad não tinha conseguido dormir. Como sempre fazia quando ficava sem sono, ele descia para ler o Corão. E por razões que só ele conhecia, ele gostava de esvaziar os armários para ver o que estava guardado. E deixava tudo no chão. Então, Lonnie achava que tinha sido Muhammad (e não eu) que tinha feito a bagunça daquela vez.

Há tantas memórias. Uma vez, quando Muhammad e eu saímos de carro, ele disse "Fique atrás e eu dirijo. Assim, será como (no filme) Conduzindo Miss Daisy."

Em outra ocasião, quando Ali e Lonnie vieram ao meu apartamento para jantar, eu convidei um de seus cantores de rock favoritos- Chubby Checker, que vivia na Filadélfia - para se juntar a nós. Chubby dirigiu 90 milhas para Nova York. Quando Ali o viu, começou a pular, gritando o nome do cantor. Mas o que mais me emocionou foi quando Muhammad olhou para Chubby e perguntou se ele tinha dirigido até ali apenas para vê-lo. Chubby disse que sim. E Ali disse que não podia acreditar. Que estava honrado.

Pesquisei e escrevi "Muhammad Ali: His Life And Times" durante dois anos. Em setembro de 1990 voltei a Berrien Springs para encontrar Muhammad, Lonnie e Howard Bingham (o melhor amigo de Ali). Por oito dias, lemos cada palavra do manuscrito em voz alta. Concordamos que não haveria censura. O objetivo da leitura era assegurar que não havia erros sobre os fatos.

Lonnie citou alguns pensamentos de Alex Wallau, que tinha sido produtor do ABC Sports e que acabou se tornando presidente da rede. Wallau tinha dito que, mesmo que Ali soubesse das consequências do boxe para a sua saúde, ele teria feito a mesma trajetória. "Ele ainda assim escolheria ser um lutador". Quando Lonnie leu essas palavras, Muhammad se esticou na cadeira e disse: "Pode apostar que sim". A leitura também incluiu algumas palavras duras de Joe Frazier. "Odeio Ali", ele disse. "Deus pode não gostar que eu fale desse jeito, mas é a verdade. Vinte anos, eu tenho lutado contra Ali, e ainda quero parti-lo em pedaços e enviá-lo de volta a Jesus".

Então as palavras ficaram ainda mais ásperas. "Ele me sacudiu em Manila. Venceu. Mas eu o mandei pra casa pior do que ele veio. Olhe para ele agora. Ele está mal. Sei disso. Todos sabem. Só não querem dizer. Ele sempre ficou de gozação comigo. Eu era o boneco. Era quem tomava na cabeça. Me diga agora. Ele ou eu. Quem fala pior agora? Ele não pode mais falar e ainda tenta fazer barulho".

Houve um momento de silêncio.

"Você ouviu isso, Muhammad?” Lonnie perguntou.

Ali acenou que sim.

"Como você se sente sabendo que centenas de milhares de pessoas vão ler isso?”

"Foi o que ele disse", Ali respondeu.

Durante o período que passei com Muhammad, ele estava sempre trazendo novas memórias e gerando novos materiais. Certa vez estávamos em Seattle para uma homenagem em que Ali recebeu o título "O Lutador do Século". A festividade incluía um cartão de luta no Kingdome. Encontrando Muhammad, os lutadores estavam em êxtase. Um deles, um peso-leve, confessou: "Senhor Ali, quando vou lutar, fico nervoso, mas digo a mim mesmo que sou Muhammad Ali, o maior lutador de todos os tempos, e que ninguém pode me derrotar".
Ali se inclinou em direção ao lutador e sussurrou: "Quando eu ficava nervoso antes de uma luta, eu dizia a mesma coisa".

"Se você faz trabalha na estrada na neve, isso te torna mais forte", outro lutador jovem falou a Ali.

"Se você trabalha na estrada na neve, isso te deixa enjoado", Ali disse.

Outra vez, vi Ali apertar as mãos de um homem branco mais velho com forte sotaque do sul.

"Quantos anos você tem?” Muhammad perguntou.

“81”

“De onde você é?”

“Mississipi.”

"Você já chamou alguém de negro?”

“Não. Não eu. ”

Depois que o homem saiu, Muhhamad me disse, rindo: "Você acredita? Um homem de 81 anos, branco, do Mississipi, nunca chamou alguém de negro".

Pouco depois, fomos a uma homenagem a Muhammad no Instituto Smithsonian em Washington. Fiz algumas observações e lembrei de um incidente no voo, anos antes, quando Ali tomou um avião de Nova York para Washington e uma comissária pediu que ele botasse o cinto de segurança. Ele respondeu: "O Superman não precisa de cinto". Quando recontei essa história o rosto de Muhammad se iluminou e ele riu mais do que qualquer um na plateia.

A habilidade de Ali para rir de si mesmo veio à tona quando autorizamos a Easton Press a publicar 3.500 cópias de uma edição com capa dura do livro. Nós concordamos em autografar 3.500 páginas para inserir no livro. Eu receberia três dólares por autógrafo e Ali muito mais.

"Isso é fantástico", eu disse. "Se eu faço dez assinaturas por minuto, são 600 por hora. Vou receber 10.500 dólares por seis horas de trabalho".

Só quando comecei a assinar é que percebi que não poderia autografar tudo de uma só vez. "Não dá pra fazer direito. O cérebro começa a ficar prejudicado".

"Agora você sabe", Ali me disse, se referindo à condição física dele. "Não foi o boxe, mas os autógrafos".

Passar o tempo juntos também reacendeu memórias para Muhammad. Em 1996, estávamos num ônibus de imprensa em Atlanta. Profissionais mostraram um vídeo de Cassius Clay na primeira luta contra Sonny Liston.

"É triste que Liston esteja morto", Muhammad disse. "Eu gostaria de poder me sentar com ele. Dois homens velhos, conversando sobre os velhos tempos".

"O que você diria a ele?"

"Eu diria: cara, você me assustou"

Então, ‘The Rumble in the Jungle’ foi exibido na tela e Ali ficou saudoso.

"Tantas pessoas me dizem que se lembram onde estavam quando derrotei George Foreman. E eu lembro onde eu estava também".

Foi no ringue, claro, que Ali se inseriu na consciência dos britânicos. O momento seminal foi aos 2 minutos e 55 segundos do quarto round da luta contra Henry Cooper em 18 de junho de 1963. Foi quando ele caiu, atingido no maxilar, como se tivesse tomado um tiro. Entre os rounds, o treinador Angelo Dundee recuperava o seu lutador. Clay parou Cooper em partes no round seguinte. Três anos depois, ele duplicou esse feito como Muhammad Ali.
Menciono esse momento agora para conectar com um dia em que Muhammad me telefonou para desejar Feliz Natal.

"Pense nisso", sugeri. "Um muçulmano ligando para um judeu para desejar um bom feriado cristão. Há uma mensagem nisso para cada um que estiver ouvindo".

"Todos nós estamos tentando chegar ao mesmo lugar", Muhammad me disse.

Eu gostaria de pensar que Muhammad Ali e Henry Cooper estão no mesmo lugar agora. A pele de Sir Henry deve cortar com menos facilidade no Paraíso e Ali está se preparando para o terceiro turno. Suspeito que cada um está ansioso pelo desafio."

o escritor Thomas Hauser, indicado ao prêmio Pulitzer, escreveu a biografia de Muhammad Ali: "Muhammad Ali: His Life and Times"