Felippe Rocha
15/10/2016
07:00
Rio de Janeiro (RJ)

Parecia o início do fim da carreira de Dudu Cearense. Aos 33 anos, após sucesso no início dos anos 2000 e rodar o mundo, ele estava no Fortaleza, no início deste ano, na Série C do Campeonato Brasileiro. Foi quando o Botafogo chamou. Lutar, agora, para se consolidar no time titular significa a realização do sonho de jogar no Rio. Mais que isso, é mais um passo feliz após o início pobre de uma carreira que começou com R$ 10. Carreira internacional que quase teve o Real Madrid como ápice, como ele conta nesta entrevista exclusiva ao LANCE!.

- Chega a ser surreal. Por mais otimista que pudesse ser, não acreditava mais, mas sempre fui ambicioso. Sem querer passar por cima de ninguém. Sou tranquilo, sei meu potencial. Quando saí do Maccabi Netanya, de Israel, e fui para o Fortaleza, achavam que eu ia encerrar a carreira. Lá no início, vinha ao Rio jogar contra os times cariocas e pensava que jogar aqui seria um sonho. Mas era um sonho distante. E quando menos imaginava, surge algo que tenho muita alegria e gratidão. O clube me recebeu de braços abertos - celebra o volante alvinegro.

Dudu Cearense se tornou titular do Vitória com 17 anos e se destacava, desde aquela época, pelos gols marcados. Mas a história bem sucedida em 2016, alimentada pelo sonho da Libertadores, começou com um risco. O filho da pobre família cearense teve a chance da vida, mas precisava passar na peneira do clube baiano por uma questão simplesmente financeira.

- Chega a me arrepiar. Com 25 anos eu falava sobre isso e chorava. Eu jogava bola na rua e foi num torneio desses, de bairro, que surgiu o Vitória. Foram lá em casa, conversaram e meu pai perguntou se queria ir. Eu disse: “Claro que quero, nem que seja a pé. Nunca me esqueço. Meu pai me deu R$10 e eu fiz um dia de viagem, com 15 anos e um sonho na cabeça. Aqueles R$ 10 viraram mil, nas duas semanas de teste. Não tinha volante no dia do teste. Perguntaram que fazia e eu me propus. No primeiro treino, marquei dois gols - explica sobre o início.

A revelação que Dudu Cearense foi, e o jogador que ele se tornou, fez com que ele rodasse o planeta. Japão, Israel e, na Europa, o principal clube foi o CSKA, da Rússia. Ele esperava ter disputado um campeonato nacional mais forte, o que por pouco não aconteceu. Se tudo acontece da melhor forma, o meio-campista do Botafogo teria jogado num gigante espanhol.

- Eu estava em negociações com o Portsmouth e com o Manchester City, que ainda não era rico. Fui para Londres conhecer a cidade. Quando eu bato o pé lá, meu empresário me liga: "Vem para Madrid agora porque o Real Madrid te quer". Faltava um ano para acabar o contrato com o CSKA. Eu queria na hora, mas o representante do Real falou: "Queremos ano que vem. Esse ano nem tem mais vagas de estrangeiros. Na próxima janela a vaga é sua". Pedi para me comprar e emprestar, mas queriam de vez. Disse: "Fique tranquilo. Estamos monitorando você. Queremos você." E me deu camisa, nem sei se perdi ou levaram. Mas os russos me seguraram, não venderam nem para o Real nem para a Inglaterra. Depois não renovei e acabei saindo para o Olympiakos, da Grécia – lamenta.

BATE-BOLA: 'Não como se fosse o último, mas como se fosse o primeiro dia’

Como foi a sua saída do Fortaleza, esse ano?

Já tinha passado um mês e eles falaram: “Você só vai sem receber. Eu disse: "Está tranquilo, campeão. Vou embora. Tenho ambição na frente." E fui com o coração aberto. Lutei muito para isso. Estava lutando muito. E vivo aqui não como se fosse o último, mas como se fosse o primeiro dia.

Já tinha visto arrancada como esta que o Botafogo faz?
Não, é a primeira vez. Depois do jogo contra o Figueirense, eu e Sidão discutíamos sobre motivação. E cada um se motiva de uma maneira. A minha motivação é buscar o meu maior. É um clube grande, histórico. Daqui a 50 anos vão lembrar: o Dudu jogou no Botafogo. Essa campanha não é surreal, é fruto de trabalho. Com simplicidade, sem vaidade, reconhecendo que todos são importantes. Não tem segredo. O Jair colocou sua forma de jogar e vem falando: O Botafogo é muito grande e hoje estamos entendendo isso. Ter ambição de dar algo maior para o clube. E é gratificante, a torcida me abraçando, elogiando. Estávamos na zona de rebaixamento. Lá me diziam: "Você vai para um time que está quase caindo?" Eu dizia: "Estou pensando nisso, não." Jogar num grande clube do mundo, do Rio. Por isso abri mão do meu salário lá.

Você fez gol por onde passou. E quando sai o do Botafogo?
Está perto. Jogo passado passou perto. Vai aparecer jogando, só posso fazer gol no campo. Estou muito tranquilo quanto a isso. Minha cobrança é estar bem, ajudar a equipe. O gol uma hora vai aparecer. Pressa nenhuma.