Em painel na FGV, especialistas falam sobre desafios para a evolução do futebol brasileiro
Encontro virtual nesta quarta-feira coloca em pauta criação de liga, obstáculos para clubes saírem da insolvência financeira e formas como o Brasileirão pode ser mais atrativo

Os problemas financeiros que assolam clubes brasileiros entraram em pauta no painel da FGV nesta quarta-feira. Líder de mídia e esportes da KPMG Brasil, Francisco Clemente traçou um panorama preocupante das últimas décadas.
- A boa noticia é que as receitas dobraram. Em contrapartida, dívidas triplicaram e até quadruplicaram. Vemos um colapso no sistema, com clubes em insolvência terrível. Atualmente, olhamos clubes tradicionais em divisão inferior, enquanto times mais novos são mais "leves", com menos passivo - destacou.
O formato de liga criada pelos clubes no Brasil é visto como uma boa perspectiva pelo líder da KPMG Brasil
- A liga trará um aumento de receita, de custo, de captação de recursos e de um equilíbrio. Hoje temos algumas equipes que em sua receita têm 45% do bolo total. Na Europa, esta receita é de no máximo 25% - e enumerou aspectos pouco explorados no modelo europeu:
- Temos um potencial muito grande de usar o matchday (dia da partida). Alguns clubes europeus chegam a obter 20% de receitas somente com este valor - disse,
Outro aspecto apontado por Francisco Clemente é em relação à dependência que as equipes têm da CBF.
- A gente tem, pelo formato da entidade, uma dificuldade enorme de custos fundeados por receitas, quase sempre com descontos, o que não é sustentável e traz dificuldade de captação - disse, antevendo:
- A liga surge como oportunidade única para os clubes se organizarem de maneira estruturada. Caso seja bem organizada, pode trazer um capital interessado e alinhado em um momento no qual os clubes necessitam de dinheiro. Para este modelo funcionar, é necessário também um rigor maior de fair-play financeiro, uma gestão muito forte de todos os clubes - completou.
Coordenador Acadêmico do Programa Executivo FGV/FIFA/CIES em Gestão de Esportes, Pedro Trengrouse apontou.
- De um lado, o clube "saudável" tem que exigir do clube que tem estrutura debilitadas que se reestruture para que possa se associar. Do outro lado, é necessário que haja o controle de custos de todos os clubes, para não ter de um aumento de receitas acompanhado de um aumento maior nas dívidas, pois as receitas aumentaram muito e as dividas aumentaram mais - e frisou:
- O problema não é dinheiro, é gestão. É muito importante para os clubes em situação difícil aproveitarem este momento de liquidez nos mercados para, de uma vez, por todas, resolverem este passivo impagável. Quem esta devendo tem de pagar - complementou.
Alberto Colombo, secretário-adjunto da European Leagues, trouxe outro aspecto relevante.
- Já na fase embrionária, a implementação do controle tanto de mecanismo quanto financeiro de custos é fundamental. Se eu sou um fundo de investimento, vou pensar em controle de custos que seja estruturados dentro do sistema da liga. É necessário definir as regras da casa - disse.
Presidente da Dream Factory, Duda Magalhães faz um alerta em relação à criação da liga.
- A mera construção da liga gera apetite se ele estiver acoplado a controle de custos e reestruturação das dívidas. Caso não tenhamos gestão de curto prazo, repetiremos o que aconteceu há dez anos. Aumentaremos riquezas, despesas e poucos serão aqueles que farão ajustes fiscais para equilibrar as contas, para manter os talentos. Não adiantará fazer estas medidas sem uma melhora no espetáculo - disse.
Magalhães apontou um desafio do Campeonato Brasileiro.
- Temos de fazer com que cada um dos 380 jogos seja atrativo. Não podemos deixar de falar na internacionalização do futebol. Precisamos fazer com que a competição seja elevada, promovida internacionalmente. Quando estivemos com os clubes eu falava sobre isso. Não temos data de final no nosso Brasileiro, mas por que não abrirmos o campeonato com um evento de entretenimento, de música para dar projeção ao Brasileiro? - ponderou e, em seguida, ressaltou:
- De um lado, temos de observar as melhores práticas, do outro observar as peculiaridades do mercado brasileiro, como estaduais, por exemplo. Mas se não abrirmos mão das práticas ordinárias e criarmos práticas extraordinários, vamos sair com resultado previsível mais uma vez. Está demonstrado que não é esse o caminho que todos querem. Esta é uma oportunidade histórica e estamos comprometidos com este momento - completou.

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