Gestão Esportiva na Prática: Escolhas e consequências da demissão de um treinador
Mudanças frequentes não são lá uma grande novidade para o torcedor brasileiro

A recente demissão de Dorival Júnior do comando da Seleção Brasileira reacendeu o debate sobre a constante troca de treinadores na equipe nacional. As mudanças frequentes não são lá uma grande novidade para o torcedor brasileiro, mas não se pode negar que essa atitude dificulta a implementação de um trabalho de longo prazo e compromete a identidade tática da Seleção. Acredito que essa instabilidade seja um dos fatores que contribuem para a falta de consistência nos resultados e o distanciamento do Brasil das conquistas internacionais, em um jejum de conquistas que caminha para seis ciclos de Copas do Mundo.
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Pesquisei o tempo de trabalho que os treinadores da nossa Seleção tiveram, nas conquistas das nossas cinco estrelas. Vicente Feola esteve à frente da Seleção por cerca de dois anos antes de levar o Brasil ao título em 1958. Em 1962, Aymoré Moreira já fazia parte da comissão técnica e assumiu o comando pouco antes da competição. Zagallo teve cerca de um ano e meio de preparação antes do tricampeonato de 1970. Carlos Alberto Parreira esteve no comando de 1991 até a conquista do tetra em 1994, consolidando um ciclo de quase três anos. Já Luiz Felipe Scolari assumiu em 2001 e, após pouco mais de um ano de
trabalho, conduziu a seleção ao pentacampeonato em 2002.
Diante deste cenário e seguindo a tendência dos clubes brasileiros, a possibilidade da contratação de um treinador estrangeiro surge com força nas mesas de debates, como a nova solução mágica para conquistarmos o hexa. Para quem gosta de estatística, vale lembrar que ao longo da história das Copas do Mundo, nenhuma seleção campeã conquistou o título sob o comando de um treinador estrangeiro. Todos os vencedores tinham técnicos nacionais.
Não tinha dúvidas da coerência e da estratégia correta do Dorival em chegar na Copa do Mundo com a melhor seleção nacional possível e no seu melhor momento. Afinal, a sua contratação tinha esse objetivo, classificar a Seleção Brasileira para a Copa de 2026. Ou não? Tudo será descartado e um novo trabalho será iniciado do zero? Espero que não.
Transição mais equilibrada na Seleção
Com isso, a manutenção de Rodrigo Caetano, Cícero Souza e Juan, surge como um alento para um mínimo de continuidade do trabalho iniciado por Dorival Júnior e sua comissão. A permanência destes profissionais pode assegurar uma transição mais equilibrada, além da manutenção de diretrizes do planejamento traçado anteriormente. Não custa lembrar que estamos a pouco mais de um ano do início da Copa de 2026.
Já disse em outros momentos e repito: prefiro que tenhamos um treinador brasileiro à frente da nossa Seleção Brasileira, e esse entendimento segue após a saída de Dorival Jr. Temos profissionais capazes e preparados para assumirem esse desafio.
Se essa for a decisão do presidente Ednaldo, será uma demonstração importante de que a CBF confia no trabalho que vem sendo desenvolvido pela CBF Academy, desde o início dos anos 2000. Será um sinal inequívoco de que nossos treinadores não são a causa, ou melhor, a única causa dos nossos insucessos. Será uma grande chance para buscarmos juntos as reais causas da atual situação do nosso futebol.
Caso a decisão do presidente seja pela contratação de um treinador estrangeiro, torcerei, obviamente, pelo seu sucesso. Porém, a CBF terá de responder algumas importantes perguntas, que irão pairar no ar:
1) Se perdermos a Copa do Mundo, a culpa do insucesso será de quem? Dos atletas? Da própria CBF? Seguiremos trocando treinadores estrangeiros?
2) Se ganharmos, individualizaremos a conquista? Daremos todos os louros a um treinador estrangeiro? Assumiremos essa nova ordem no nosso futebol? O que será da classe dos treinadores brasileiros? Assinaremos o nosso atestado de incompetentes? Assumiremos que nada mais somos, além de exportadores de matéria-prima para o primeiro mundo? Pau-brasil, ouro, café, comida e jogadores de
futebol?
Escolhas e consequências que impactarão muito no futuro do futebol brasileiro.

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