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Integridade no Esporte: por que combater o match-fixing exige inteligência compartilhada

Compartilhar informação é obrigação ética, profissional e uma escolha inteligente

Cooperação é uma exigência operacional para combater a manipulação
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Autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, esse texto não reflete necessariamente a opinião do Lance!
Dia 24/01/2026
10:09

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A discussão sobre manipulação de resultados costuma ganhar espaço quando um escândalo vem à tona, um atleta é suspenso ou uma partida é anulada. Nesses momentos, o debate quase sempre se concentra no "quem errou" e no "quem deve  ser punido". O problema é que essa abordagem olha para as consequências  visíveis, mas ignora a lógica que sustenta o fenômeno. O match-fixing moderno não é episódico ou improvisado; é sistêmico e organizado, uma triste realidade nos mercados de apostas atuais.

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A manipulação raramente se revela em um único indivíduo. Ela se manifesta em  padrões coletivos e comportamentais. Os esquemas atuais não dependem de uma grande aposta escancarada. Ao contrário, operam por meio de coordenação e distribuição silenciosa, construídos com precisão cirúrgica:

a) apostas realizadas em curto espaço de tempo para potencializar ganhos, evitando quedas bruscas de odds e/ou a remoção de mercados;

b) uso de múltiplas contas laranjas para fragmentar volume;

c) apostas distribuídas entre diferentes operadores, reduzindo a chance de detecção pelas equipes internas de risco.

O objetivo é claro: fragmentar o sinal e explorar lacunas entre sistemas que não  conversam entre si.

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Unindo as peças do quebra-cabeça

Nenhum operador, empresa de integridade ou entidade financeira enxerga tudo sozinho. Não por incompetência, mas por limitação estrutural. Cada ator observa apenas uma parte do cenário. O regulador tenta unir os pedaços desse quebra-cabeça. O crime, por sua vez, atua exatamente nos espaços entre essas peças.

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É nesse ponto que a cooperação deixa de ser um discurso bonito e passa a ser uma exigência operacional. Compartilhar informação não é opcional quando o risco é transversal. É obrigação ética, profissional e, acima de tudo, uma escolha inteligente. Não por acaso, iniciativas de intercâmbio estruturado de dados tornaram-se centrais no debate global sobre integridade esportiva.

Aqui surge um papel cada vez mais relevante para as empresas de integridade: atuar como hubs de informação e inteligência, e não apenas como detectores isolados de anomalias de mercado.

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Foto: Divulgação / Sportradar

Construção da inteligência

Um exemplo claro dessa mudança de paradigma é o Sportradar Integrity Exchange, sistema do qual aproximadamente 55% dos operadores regulamentados no Brasil fazem parte. A plataforma permite o compartilhamento de informações sobre  apostas suspeitas, o recebimento de feedback especializado e a construção de  inteligência coletiva.

Ferramentas desse tipo não existem para "denunciar jogos", mas para algo muito mais sofisticado: conectar sinais dispersos como um movimento atípico de odds, um comportamento recorrente de apostas, uma sequência estatística improvável em outra competição, uma movimentação previamente observada em larga escala no mercado ilegal ou ainda a transferência de um grupo de atletas com histórico de manipulação para uma mesma equipe.

Isoladamente, nada disso comprova manipulação. Em conjunto, constrói inteligência. Permite que operadores comparem dados, identifiquem padrões que poderiam passar despercebidos, removam mercados de forma preventiva, reduzam exposição ao risco e criem um ambiente mais seguro para a indústria e para o esporte.

Sem esse tipo de intercâmbio, permaneceremos presos a um modelo reativo, sempre um passo atrás de redes que já entenderam algo fundamental: o esporte é, hoje, mais um mercado — e mercados que não são observados de forma integrada tornam-se muito mais fáceis de manipular.

Proteger a integridade esportiva, portanto, não passa simplesmente por punir atletas. As vulnerabilidades continuarão existindo, e os suspensos ou excluídos serão rapidamente substituídos, como ocorre em outras economias ilícitas.

A proteção real está em reconhecer que o jogo também acontece fora dos campos, quadras e tribunais esportivos — nos fluxos de dados e nas informações de inteligência. O combate ao match-fixing moderno não será vencido por heróis  solitários, mas por sistemas conectados e pela promoção de uma cultura de trabalho cooperativo e altos níveis de colaboração entre todos os atores no ecossistema do desporto e das apostas. 

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Felippe Marchetti, Doutor em integridade e medidas anticorrupção no esporte. Atua como Diretor de Integridade da Sportradar na América Latina.

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*Autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, esse texto não reflete necessariamente a opinião do Lance!

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