Do asfalto à neve: a história de Cristian Ribera até o pódio inédito nas Paralimpíadas de Inverno
Multiatleta e palmeirense, jovem de Rondônia superou 21 cirurgias na infância

A trajetória de Cristian Ribera foi fora da curva desde o nascimento. Após um diagnóstico de artrogripose congênita e 21 cirurgias na infância, ele encontrou no esporte sua grande paixão. Nesta terça-feira (10), escreveu seu nome na história ao se tornar o primeiro brasileiro a conquistar uma medalha nos Jogos Paralímpicos de Inverno.
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A condição de Cristian era um caso raro, e afetou o desenvolvimento dos membros inferiores. Para buscar o tratamento adequado, sua mãe, Solange, largou tudo em Rondônia e se mudou para São Paulo quando ele era um bebê de apenas três meses.
Praticar esportes foi uma recomendação médica, e Solange, que já sonhava desde cedo em ter um filho atleta, não mediu esforços para incentivá-lo. Cristian fez capoeira, natação, atletismo, skate, sempre com um sorriso no rosto. Quando a Confederação Brasileira de Desportos na Neve (CBDN) chegou a Jundiaí à procura de atletas paralímpicos para o esqui cross-country, foi amor à primeira vista.
— Quando chegaram aqui, ele sentou no equipamento e saiu andando, saiu pelo percurso andando com o rollerski, e ia. O pessoal ficou encantado, falavam: "já descobrimos o cara que a gente precisa pra representar o Brasil" - relembrou Solange, em entrevista ao Lance!.
Ali, começava uma história que colocaria Cristian em destaque no cenário mundial dos esportes de inverno. Com apenas 15 anos, foi para os Jogos Paralímpicos de PyeongChang e terminou em sexto lugar na prova dos 15km, o melhor resultado do Brasil até então. Ele também disputou a edição seguinte, em Pequim 2022, mas sofreu com Covid e uma infecção urinária, e encerrou sua participação fora do pódio.
Tudo em família
Os melhores resultados de Cristian no esqui cross-country vieram quando iniciou a parceria com o irmão mais velho, que passou a ser seu treinador logo após os Jogos de Pequim. Fábio, que estava prestes a concluir a faculdade de Educação Física, relutou em aceitar o convite do irmão, mas topou o desafio.
Juntos, os dois conquistaram, em 2025, o tão cobiçado Globo de Cristal, troféu entregue ao atleta campeão geral da Copa do Mundo das principais modalidades do esqui. Guardado com todo o cuidado em casa, o troféu é chamado de "bebê" pelos Ribera. Após uma temporada de tanto sucesso, Cristian foi eleito atleta do ano nos esportes de inverno pelo Comitê Paralímpico Brasileiro (CPB).
A família toda acabou se envolvendo com o esqui. Logo que Cristian conheceu a modalidade, a irmã caçula, Duda, também quis testar o esporte e construiu seu próprio caminho no inverno. Ela já representou o Brasil em duas edições olímpicas: Pequim 2022 e Milão-Cortina 2026.
Na falta de neve, os irmãos treinam nas ruas de Jundiaí utilizando o rollerski, modalidade em que o equipamento é adaptado com rodinhas para a prática no asfalto. Grande incentivadora dos filhos, Solange sobe na bike para acompanhar o trio e garantir a segurança durante os treinamentos na via pública.
Pela primeira vez, Solange e o marido, Adão, conseguiram viajar para acompanhar os filhos nas Olimpíadas de Inverno. Depois de acompanhar as provas de Duda, foi a vez de assistir a Cristian e Fábio em ação na cidade de Tesero, na Itália.

O "Porco Loco" e a paixão pelo Palmeiras
A paixão de Cristian por esportes passa também pelo futebol. Como tantas coisas na vida, divide com os irmãos o time do coração, o Palmeiras. Durante a adolescência, ele publicava na internet vídeos de suas manobras no skate sob a alcunha de "Porco Loco". Cristian leva essa identidade até na pele: no braço direito, tem tatuada a imagem de um porco forte, deslizando na neve.
Torcedor fanático, ele costuma frequentar o estádio para acompanhar as partidas do time. Por capricho do destino, Cristian e os irmãos têm, nesta semana, mais de um motivo para comemorar. No último domingo (8), apenas dois dias antes da conquista da medalha inédita nos Jogos Paralímpicos de Inverno, o Palmeiras se sagrou campeão paulista.

Sonho de verão
Além do esqui cross-country, Cristian Ribera também compete no atletismo paralímpico, nas provas de velocidade para a classe T54 (cadeirantes). Nos Jogos Parapan-Americanos de Santiago 2023, ele foi medalhista de prata nos 100m, 400m e 1500m, e de bronze nos 800m.
Apaixonado pelo atletismo desde a infância, Cristian sonha com o pódio nos Jogos Paralímpicos de Verão. Aos 23 anos e com uma carreira inteira pela frente, ele saiu do improvável para a referência e provou que não cansa de fazer história.
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