De Rondônia a Milão-Cortina: a trajetória olímpica da 'família do esqui'
Os irmãos Duda e Cristian Ribera competem no esqui e paraesqui cross-country
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Solange Westemaier Ribera sempre quis ser atleta. Desde muito nova, adorava jogar futebol, mas não teve o apoio da família para seguir uma carreira na modalidade — as barreiras, especialmente para as mulheres, eram grandes. Então, fez uma promessa para si mesma: quando se tornasse mãe, incentivaria os filhos, ao menos um, no caminho do esporte. Hoje, três deles, Eduarda, Cristian e Fábio, integram a delegação brasileira nos Jogos de Inverno Milão-Cortina.
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Duda Ribera será a primeira a competir, representando o Brasil no esqui cross-country, a partir desta terça-feira (10). Mais tarde, em março, será a vez de Cristian Ribera competir nos Jogos Paralímpicos de Inverno, ao lado do irmão e treinador Fábio Ribera. Pela primeira vez, Solange e o marido Adão acompanham os filhos no evento.

A história da família com o esqui, porém, começou depois de um baque para a mãe. Com apenas duas horas de vida, Cristian foi diagnosticado com artrogripose múltipla congênita, uma condição rara que afetou o desenvolvimento dos membros inferiores. Para fazer o tratamento do filho, Solange largou tudo em Rondônia, onde vivia, e se mudou para São Paulo. Cristian passou por 21 cirurgias corretivas nas pernas e, como forma de otimizar os cuidados médicos, iniciou diversas práticas esportivas: natação, capoeira, atletismo, skate.
— Você nunca vai ver meu filho triste. Era sempre assim, fazendo alguma bagunça - contou, enquanto mostrava as fotos de infância de Cristian fantasiado, em festas da escola e junto dos irmãos, sempre com um sorriso largo.
Dois anos depois de Cristian, nasceu Eduarda, a Dudu, como é chamada pela família. E logo seguiria os irmãos para todo lado, inclusive nas brincadeiras de rua. Primeiro, porque os três tinham uma ligação muito forte. Depois, porque Fábio, o mais velho do trio, ajudava a mãe no cuidado com os mais novos, enquanto ela trabalhava.
A nova paixão surgiu quando a Confederação Brasileira de Desportos na Neve (CBDN) chegou em Jundiaí, cidade onde a família se estabeleceu, à procura de atletas paralímpicos para uma modalidade nova. Cristian conheceu o esqui cross-country e foi amor à primeira vista.
— Quando chegaram aqui, ele sentou no equipamento e saiu andando, saiu pelo percurso andando com o rollerski, e ia. O pessoal ficou encantado, já descobrimos o cara que a gente precisa pra representar o Brasil - relembra Solange.
Como não poderia ser diferente, Duda também quis experimentar a modalidade. "Se meu irmão pode, eu também posso", ela dizia. Mas precisaram dar um jeitinho, já que o projeto em questão era apenas para atletas paralímpicos. Com a ajuda de um dos professores e um equipamento escondido, Duda começou a treinar.
— Ela colocou o negócio e saiu andando, igual o irmão dela. E ela fazia as curvas correndo, porque fazia balé e tem muita abertura das pernas, usava as pernas pra frear. Ela foi se desenvolvendo muito rápido - conta.
Aos 15 anos, Cristian estreou nos Jogos Paralímpicos de Inverno - terminou com a sexta colocação em PyeongChang 2018. Aos 12, Duda viajou à Argentina para disputar sua primeira competição internacional. Começava ali uma trajetória que ficaria gravada na mente e na casa da família. Troféus, medalhas, crachás de competição e recortes de jornal são tratados como tesouro e guardados com muito carinho por Solange.

Sempre juntos
A união da família vale até para os treinamentos. Na falta de neve, Cristian e Duda fazem a maior parte de seus treinos nas ruas de Jundiaí utilizando o rollerski, modalidade em que o equipamento é adaptado com rodinhas para a prática no asfalto ao invés da neve. Grande incentivadora dos filhos no esporte, Solange sobe na bike para acompanhar as atividades. Ela também faz o papel de segurança de trânsito, já que os atletas precisam disputar o espaço da via pública com os carros.
— Eu treino com eles de igual pra igual, a gente brinca no asfalto, a gente disputa entre nós, no treino ali a gente é rival, a gente não é mãe, filho e treinador, ali a gente é adversário, que vença o melhor - conta Solange.
O reforço que faltava completou o time meses após a participação de Cristian nos Jogos Paralímpicos de Inverno de 2022. Na época, decidiu trocar de treinador e escolheu para a função ninguém menos que o irmão Fábio, que ainda estava concluindo a faculdade. Ele relutou, mas abraçou o novo papel, e a parceria foi um sucesso.
Juntos, os irmãos realizaram um feito inédito para o esporte brasileiro quando, em março de 2025, Cristian conquistou o Globo de Cristal, troféu dado ao atleta campeão geral da Copa do Mundo das principais modalidades do esqui. A família fez a maior festa quando Cristian chegou em casa com o "bebê", troféu mais precioso da coleção.

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Jovens veteranos
Apesar da pouca idade, os irmãos Ribera chegam experientes aos Jogos de Milão-Cortina. Aos 21 anos, Duda fará sua segunda participação olímpica e, desta vez, o caminho foi bem mais tranquilo. Em 2022, foi convocada para os Jogos de Pequim às pressas para substituir a compatriota Bruna Moura, que havia sofrido um grave acidente a caminho do aeroporto. Agora, Duda foi a primeira atleta da seleção brasileira a ter a vaga confirmada para os Jogos de Inverno, o que trouxe uma confiança a mais.
Já Cristian, com 23 anos, vai para sua terceira edição de Olimpíadas de Inverno, no primeiro ciclo treinado pelo irmão. Uma das principais esperanças de medalha para o Brasil, ele chega embalado pelos títulos na Copa do Mundo de Finsterau, na Alemanha, em janeiro deste ano.
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