Milão-Cortina 2026 e o plano de sustentabilidade baseado na reutilização de infraestrutura
Jogos de Inverno adotam modelo descentralizado e priorizam arenas existentes.

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Os Jogos Olímpicos de Inverno de Milão-Cortina 2026 representam um ponto de inflexão no modelo de organização olímpica. A candidatura italiana foi construída a partir de um princípio claro: reduzir custos, limitar novas construções e minimizar o impacto ambiental por meio do uso majoritário de instalações já existentes ou temporárias. O Lance! conta tudo sobre Milão-Cortina 2026 e o plano de sustentabilidade baseado na reutilização de infraestrutura.
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Em contraste com edições anteriores marcadas por obras permanentes de alto custo e pouco uso posterior, a proposta vencedora estabelece que cerca de 92% das arenas utilizadas durante o evento já estejam em operação regular ou sejam desmontadas após os Jogos. A estratégia está alinhada às diretrizes da Agenda 2020+5, do Comitê Olímpico Internacional, que defende a adaptação dos Jogos às cidades anfitriãs — e não o contrário.
O resultado é um evento descentralizado, distribuído por diferentes regiões do norte da Itália, aproveitando a tradição esportiva local e reduzindo o risco de abandono estrutural no período pós-olímpico.
Milão-Cortina 2026 e o plano de sustentabilidade
Contexto histórico e a mudança de paradigma olímpico
Durante décadas, sediar os Jogos Olímpicos esteve associado à construção de grandes parques esportivos centralizados, muitas vezes erguidos sem demanda futura. Casos como Atenas 2004, Sochi 2014 e Rio 2016 alimentaram críticas globais sobre desperdício de recursos públicos e impacto ambiental elevado.
Milão-Cortina 2026 surge como a primeira edição de inverno a aplicar de forma integral a chamada "Nova Norma" do COI. A própria configuração da candidatura — envolvendo duas cidades principais, duas regiões e duas províncias autônomas — reflete a decisão de buscar infraestrutura onde ela já existe, evitando obras concentradas em um único perímetro urbano.
Esse modelo descentralizado prioriza eficiência operacional e legado de baixo impacto de carbono. A arquitetura monumental deixa de ser protagonista, dando lugar a um planejamento que privilegia reutilização, adaptação e viabilidade econômica de longo prazo.
Estratégia de reutilização e logística territorial
O plano mestre de Milão-Cortina 2026 baseia-se na divisão do evento em múltiplos "clusters" geográficos, distribuídos por uma área superior a 22.000 km². Essa dispersão permite o uso de estruturas consolidadas, mas transfere o principal desafio da engenharia civil para a logística de transporte.
As instalações foram classificadas em três categorias principais:
- Existentes: arenas e pistas que já recebem eventos internacionais regularmente;
- Temporárias: estruturas montadas exclusivamente para os Jogos e desmontadas após o encerramento;
- Novas (legado): construções pontuais com plano de uso contínuo garantido, majoritariamente financiadas pela iniciativa privada.
Para sustentar esse desenho, o sistema ferroviário e rodoviário tornou-se elemento central. A organização prioriza transporte coletivo, com foco em soluções elétricas ou híbridas, como forma de conter emissões e garantir fluidez entre sedes distantes.
Mapeamento das arenas e uso da infraestrutura existente
A materialização do plano sustentável pode ser observada na escolha dos locais de competição, que exigem, em sua maioria, apenas modernizações pontuais ou adaptações temporárias.
Milão (zona urbana)
- San Siro (Estádio Giuseppe Meazza): palco da cerimônia de abertura, sem necessidade de construção de nova arena.
- Fiera Milano Rho: centro de exposições adaptado temporariamente para patinação de velocidade e hóquei no gelo.
- PalaItalia Santa Giulia: principal nova construção permanente, com financiamento privado e capacidade para cerca de 16 mil espectadores, projetada como arena multiuso no pós-Jogos.
Cortina d'Ampezzo (zona de montanha)
- Olympia delle Tofane: tradicional pista de esqui alpino, em uso contínuo no circuito da Copa do Mundo.
- Estádio Olímpico de Gelo: construído para os Jogos de 1956, será reformado para receber o curling, preservando o patrimônio histórico.
Val di Fiemme e Anterselva
- Predazzo: trampolins de salto de esqui existentes, com modernização técnica.
- Arena Alto Adige (Anterselva): centro de biatlo de referência internacional, com ajustes operacionais mínimos.
Verona
- Arena di Verona: anfiteatro romano com quase dois mil anos de história, escolhido para a cerimônia de encerramento como símbolo máximo da reutilização de patrimônio histórico.
Controvérsias e limites do discurso sustentável
Apesar do planejamento orientado à reutilização, o projeto não está isento de contradições. O principal ponto de debate envolve a reconstrução da pista de sliding Eugenio Monti, em Cortina d'Ampezzo, destinada às provas de bobsleigh, skeleton e luge.
Inicialmente, avaliou-se a realização dessas provas fora da Itália, em pistas já existentes, para evitar novos impactos ambientais. A decisão do governo italiano de reconstruir a pista histórica, com custo estimado em €118 milhões, gerou críticas de ambientalistas e do próprio COI, sobretudo pelo desmatamento necessário para a obra.
Outro desafio estrutural está ligado à gestão de neve artificial. As mudanças climáticas tornam a produção de neve indispensável, elevando o consumo de água e energia. Para mitigar esse impacto, a organização aposta em sistemas eficientes de bombeamento, reservatórios e reaproveitamento hídrico como condição para manter a certificação de sustentabilidade.
Curiosidades e singularidades de Milão-Cortina 2026
Milão-Cortina 2026 será a primeira edição dos Jogos Olímpicos de Inverno a incluir oficialmente o nome de duas cidades na nomenclatura do evento. A distância aproximada de 400 km entre Milão e Cortina torna esta uma das edições mais dispersas geograficamente da história.
O retorno de Cortina d'Ampezzo ao programa olímpico ocorre 70 anos após os Jogos de 1956, permitindo que a cidade reutilize não apenas infraestrutura, mas também capital simbólico e cultural daquela edição. O logotipo oficial, batizado de "Futura", foi escolhido por votação popular online, reforçando o engajamento digital e reduzindo a produção de materiais impressos durante a campanha.
Dentro do movimento olímpico, Milão-Cortina 2026 funciona como um laboratório em escala real. O desempenho do evento será decisivo para validar se o futuro dos megaeventos esportivos passa, de fato, pela reutilização inteligente de infraestrutura, logística eficiente e adaptação racional aos recursos já disponíveis.
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