A história da "Coreia" no Maracanã, o setor mais democrático da história do futebol carioca
Entenda o que foi a "Coreia" do Maracanã, a antiga Geral em pé.

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A "Coreia" do Maracanã é uma das imagens mais fortes da história do futebol brasileiro. O apelido popular designava a antiga Geral — setor em pé, ao nível do gramado, com ingressos baratos e atmosfera intensa — que durante décadas simbolizou o caráter popular do maior estádio do país. Mais do que um espaço físico, a Coreia virou sinônimo de um jeito de torcer e de uma ideia de futebol acessível. O Lance! lembra a história da "Coreia" no Maracanã.
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Desde a inauguração do Maracanã, em 1950, a Geral ocupava uma faixa de concreto colada ao campo, atrás do alambrado. Não havia cadeiras. O torcedor assistia em pé, espremido, quase no mesmo plano dos jogadores. Era o setor mais barato do estádio, o que garantia grande presença de trabalhadores, estudantes e torcedores de baixa renda. Ao mesmo tempo, atraía também quem buscava viver o jogo de forma visceral, independentemente de classe social.
O que era a Geral e como surgiu a "Coreia"
A Geral foi pensada como espaço popular dentro de um estádio monumental, concebido para ser "o maior do mundo" e receber multidões. Com ingressos acessíveis, o setor cumpria a promessa de que o Maracanã seria um estádio democrático.
O apelido "Coreia" surgiu nos anos 1950, em referência à Guerra da Coreia (1950–1953). A comparação remetia à ideia de zona de conflito: um espaço permanentemente em ebulição, com gritos, provocações e tensão constante. Ali, o jogo parecia guerra simbólica. A expressão pegou de tal forma que virou parte do vocabulário do torcedor carioca.
Com o tempo, o termo extrapolou o Rio de Janeiro. Outros estádios passaram a chamar seus setores populares em pé de "Coreia", numa clara homenagem ao modelo do Maracanã.
Por que era o setor mais democrático do Maracanã
A Coreia representava acesso. O preço do ingresso permitia que torcedores de diferentes origens ocupassem o mesmo espaço. Ali, o critério principal não era renda, mas disposição para viver o jogo intensamente.
O Maracanã, durante décadas, funcionou como verdadeiro "templo do povo". A Geral materializava esse ideal. Havia mistura real de classes, raças e bairros. Muitos torcedores que compravam ingressos de setores mais caros desciam para a Coreia por escolha, em busca de proximidade com o campo e da vibração coletiva.
A cultura do setor era própria. Radinho de pilha no ouvido, comentários em tempo real, correria coletiva acompanhando o ataque — quando a bola ia para a direita, todos corriam para a direita; quando o lance virava, a massa se deslocava junto. O corpo participava do jogo.
Ali também se construíram códigos específicos: humor ácido, criatividade nas provocações, interação direta com jogadores e árbitros. O alambrado servia de fronteira simbólica entre arquibancada e campo, mas a sensação era de participação ativa.
Cultura de torcer e identidade coletiva
A Coreia não era apenas lugar de assistir; era espaço de pertencimento. Muitos torcedores se reconheciam como "geraldinos", criando identidade própria dentro do estádio. Havia fidelidade ao setor, rituais e memórias compartilhadas.
Essa proximidade com o gramado produzia cenas icônicas: pressão sobre bandeirinhas, comemorações quase dentro do campo, vaias que ecoavam como muralha sonora. O setor também funcionava como laboratório de cantos e expressões que depois se espalhavam pelas arquibancadas superiores.
Para muitos, a Coreia representava o futebol sem filtros: cru, intenso, popular.
Reformas e o fim da Geral do Maracanã
A partir dos anos 2000, o Maracanã passou por sucessivas reformas. A preparação para os Jogos Pan-Americanos de 2007 e, depois, para a Copa do Mundo de 2014, acelerou mudanças estruturais profundas.
A Geral foi eliminada. O espaço em pé deu lugar a cadeiras numeradas, seguindo padrões internacionais de conforto e segurança. Em 24 de abril de 2005, o estádio recebeu sua última partida com a antiga configuração da Geral.
Pesquisas acadêmicas apontam que essas transformações alteraram o perfil do público. Com ingressos mais caros e redução de setores populares, o acesso tornou-se mais restrito. Muitos torcedores tradicionais deixaram de frequentar o estádio, fenômeno frequentemente associado à gentrificação dos espaços esportivos.
A Coreia desapareceu fisicamente, mas permaneceu como memória.
A Coreia como símbolo
Hoje, falar em "Coreia" no Maracanã é evocar uma época. É lembrar do torcedor colado no alambrado, do cheiro de concreto quente, do som contínuo de gritos e rádios de pilha.
O setor sintetizava a ideia de estádio democrático. A divisão principal não era econômica, mas emocional: estava ali quem queria viver o jogo no limite. A Coreia representava a fusão entre arquibancada e campo, entre espetáculo e participação.
Seu legado ultrapassa a arquitetura. Influenciou a cultura de torcer no Brasil e ajudou a consolidar o Maracanã como espaço popular por excelência. Mesmo sem existir fisicamente, permanece no imaginário coletivo como símbolo de um futebol mais acessível, mais próximo e mais intenso.
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