Troca de técnico pode triplicar o número de lesões musculares, diz estudo
Mudanças na comissão técnica geram mais problemas para os elencos

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A troca de treinadores virou a tábua de salvação para o futebol brasileiro. Bastam algumas derrotas, uma sequência irregular ou a pressão das arquibancadas aumentar para que dirigentes recorram à mudança no banco de reservas como resposta imediata para crises quase sempre mais profundas.
O problema é que a instabilidade permanente começa a revelar consequências que ultrapassam resultados, tabelas e desempenho técnico. Um estudo conduzido pela UEFA aponta que as mudanças constantes no comando também podem aumentar significativamente o número de lesões musculares nos elencos.
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Nesse ambiente de mudanças sucessivas, o estudo europeu encontrou um padrão que ajuda a explicar por que tantos clubes convivem com elencos fisicamente desgastados ao longo da temporada.
A pesquisa analisou 14 clubes de elite europeus durante três anos e concluiu que a troca isolada de treinador já está associada a um aumento aproximado de 19% na carga de lesões musculares. O quadro se agrava de maneira expressiva quando a mudança no comando vem acompanhada da troca do preparador físico. Nesses casos, o crescimento da carga de lesões pode chegar a 276%.
— A troca não era tão frequente quanto é agora, o futebol tinha menos pressão, a permanência de um treinador era, em média, maior. Não tinha tanta diferença no método de trabalho da preparação física. À medida que o conceito foi evoluindo, com perfis diferentes de uma comissão técnica para outra, os treinadores têm uma equipe, inclusive na direção da nutrição, e tudo isso influencia o método de trabalho do treinador e o método de preparação. Até o jogador sente de uma maneira diferente, absorve mais o que significa trocar um treinador, querem mostrar mais trabalho. O time que troca menos de treinador durante a temporada terá menos problemas — explica o fisiologista Turíbio Leite de Barros, vice-presidente do Núcleo de Ciências do Esporte da Portuguesa SAF.
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O cenário brasileiro ajuda a dimensionar a dimensão do fenômeno. Segundo levantamento divulgado pelo CIES Football Observatory, o Brasileirão foi a sexta liga do mundo com mais trocas de treinadores nos últimos 12 meses. Dos 20 clubes da Série A, 17 mudaram de comando ao menos uma vez no período, o equivalente a 85% da competição. O estudo do CIES analisou 55 ligas ao redor do mundo e constatou que 65,2% dos clubes trocaram de técnico ao menos uma vez no último ano, índice que coloca o campeonato brasileiro muito acima da média global.
A velocidade das mudanças em 2026 transformou o campeonato em um ambiente de instabilidade quase contínua. Até a décima rodada, a média era de um treinador demitido por rodada. O Brasileirão chegou a 11 demissões de técnicos antes mesmo da metade da temporada. O São Paulo se tornou o primeiro clube da Série A a dispensar dois treinadores no mesmo ano: antes da saída de Roger Machado, Hernán Crespo já havia deixado o cargo em março.
O impacto aparece diretamente no tempo de afastamento dos jogadores. O estudo identificou que a carga de lesões sobe de 16 para 45 dias perdidos a cada mil horas de treino e jogo quando treinador e preparador físico são substituídos simultaneamente. A mudança não representa apenas um novo discurso ou uma alteração tática. Ela provoca uma ruptura completa na rotina física do elenco.
— O principal fator é o método de preparação física. Todo clube tem um controle muito preciso do que é o trabalho de preparação física, que diversifica o trabalho de um preparador para outro. O preparador tem na equipe dele um fisiologista que mostra para ele o que o jogador tem de fazer, e isso varia muito de um protocolo para outro. Não há dúvida de que há impacto com a mudança na comissão técnica. O tipo de trabalho que um treinador faz tem sobrecarga na função do atleta em decorrência do sistema tático, e o treino é focado no esquema tático. Durante a semana toda, tem esforços repetitivos sincronizados com o sistema tático, com o tipo de esquema usado — analisa Turíbio.
O corpo dos atletas precisa se adaptar rapidamente a estímulos diferentes em um calendário cada vez mais congestionado. O estudo sugere que esse processo de adaptação pode aumentar significativamente o risco de lesões musculares, especialmente nos posteriores de coxa, hoje a lesão mais recorrente do futebol profissional.

Os pesquisadores apontam que o preparador físico ocupa papel central nesse processo porque controla diretamente fatores associados ao risco de lesão: carga de treino, intensidade, recuperação e adaptação física ao modelo de jogo. Quando um novo treinador chega ao clube levando seu próprio profissional de performance, toda a lógica de preparação pode mudar de maneira brusca. O trabalho também levanta um aspecto psicológico relevante: jogadores frequentemente elevam a intensidade dos treinamentos para tentar conquistar espaço com a nova comissão técnica, aumentando ainda mais a exposição física.
Ao mesmo tempo em que o estudo mostra o impacto da ruptura, ele também aponta o valor da continuidade. Clubes que mantiveram profissionais internos na preparação física após trocas de treinador registraram índices muito menores de lesão. A familiaridade com os atletas, o conhecimento acumulado sobre o elenco e a manutenção da metodologia parecem funcionar como mecanismos de proteção em meio às turbulências do calendário.
— Hoje raramente tem dia de folga para o preparador físico fazer o trabalho dele, de recuperação. São treinos táticos e técnicos com exigência física, aceleração, velocidade nos piques, de acordo com o fisiologista/preparador, para atingir os dados no treino — completa Turíbio.
Em meio à pressão por resultados imediatos, o futebol brasileiro transformou a mudança constante em cultura. O problema é que os efeitos dessa instabilidade parecem permanecer muito além da área técnica e alcançar diretamente o corpo dos jogadores.

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