Opinião: Importância de Garrincha não pode ser determinada por 'lista de melhores'
Bicampeão mundial com a Seleção morreu há exatos 43 anos

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A morte de Garrincha completa 43 anos nesta terça-feira (20). Considerado por muitos o maior driblador de todos os tempos, e responsável direto pelo bicampeonato mundial do Brasil, em 1958 e 1962, o eterno camisa 7 do Botafogo tem lugar cativo na história do futebol.
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Por José Paulo Florenzano*
Garrincha pode ser definido como uma figura transgressora, ingovernável, fora da ordem instituída no futebol pelos discursos de poder que estabelecem listas de "melhores atletas do mundo". Ídolo, sobretudo, dos torcedores que ocupavam as gerais do Maracanã, entre a segunda metade dos anos 1950 e a primeira dos anos 1960, Garrincha constituir-se-ia, também, no decorrer dos anos 1970, em uma referência para a luta de resistência dos jogadores rebeldes contra a militarização do futebol brasileiro.
De fato, o "Trem da Alegria", a equipe sob forma de cooperativa criada na segunda metade dos anos 1970 por Afonsinho, figura arquetípica da rebeldia, tinha, dentre outros objetivos, resgatar o futebol encarnado pela "Alegria do Povo", em contraposição ao embrutecimento do jogo determinada pelas cadeias de comando.
Nesse sentido, podemos falar em um duplo esquecimento em relação à Garrincha, a saber: em primeiro lugar, das novas gerações de torcedores, dentro e fora do Brasil, que desconhecem o quanto ele foi fundamental na conquista do bicampeonato, assombrando a opinião pública em 1958 em sua estreia eletrizante contra a Rússia, e assumindo o protagonismo no Chile a partir da contusão de Pelé. E, em segundo lugar, dos coletivos de atletas que defendem a prática do futebol como prática de liberdade.
Com efeito, a importância de Garrincha não pode ser determinada por nenhuma lista de "melhores atletas de todos os tempos". Sua significação histórica transcende os jogos de poder que buscam fixar o lugar, atribuir o valor e definir a identidade dos atletas, do presente e do passado, no campo esportivo.
*José Paulo Florenzano é coordenador do curso de Ciências Sociais e professor do departamento de Antropologia da PUC-SP. É membro do Conselho Consultivo do Centro de Referência do Futebol Brasileiro (CRFB) do Museu do Futebol, e do Conselho Editorial das Edições Ludens, do Núcleo Interdisciplinar de Pesquisas sobre o Futebol e Modalidades Lúdicas da USP.

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