Montagem Abel (Fla), Carille (Cor), Sampaoli (San) e Diniz *(Flu)

Abel, Carille, Sampaoli e Diniz em seus novos clubes (FOTO: Divulgação)

Miro Neto
27/12/2018
20:29
São Paulo (SP) 

Quatro importantes clubes brasileiros iniciarão 2019 com novos técnicos. Verdade que o adjetivo perdeu o viço por aqui, tamanha a frequência na troca de comando das equipes. A neurose coletiva, a contaminar público, crítica e classe dirigente, sugere que poucos meses equivalem a anos capazes de tornar um treinador desgastado, inviável. Via de regra, a novidade logo torna-se imprestável aos olhos impacientes e irrealistas do ambiente. Mas usemos o termo em sua acepção crua. Abel Braga, Carille, Fernando Diniz e Jorge Sampaoli são as "cara novas" da temporada prestes a começar. A tétrade sintetiza, curiosamente, o que o frenético vaivém de técnicos produziu nos últimos anos: rótulos que não dão conta da complexidade do jogo - dentro e fora de campo.

Nas etiquetas, temos o "gênio incompreendido" (Diniz), o "medalhão" (Abel), a "aposta que deu certo" (Carille) e o "estrangeiro" (Sampaoli). Definições primaristas que, com variações nos termos usados, passaram a doutrinar escolhas. Fernando Diniz, de propósitos firmes de jogo, com posse de bola e busca incessante pelo ataque, é visto com esgares aqui e acolá; "Não quer fazer o arroz com feijão", resmungam alguns. Como se o futebol jogado no Brasil devesse resignar-se à mediocridade que as injunções financeiras impõem.

Mesmo que Diniz tenha feito o Audax corresponder ao estilo, com orçamento pequeno, impondo-se contra clubes grandes no Paulistão de 2016. Bastaram os maus resultados no Atlético-PR, apesar de momentos sedutores, para o dedo em riste voltar.

Já Abel é visto como um gerenciador de grupos, o "paizão", ideal para um elenco como o do Flamengo. Não é difícil crer na contágio provocado pelo êxito de Felipão no Palmeiras no segundo semestre. Assumiu outro elenco acima dos padrões atuais no Brasil e fez do time campeão brasileiro com um segundo turno sem derrotas. Antes, a equipe alviverde era dirigida por Roger, na etiquetagem generalizadora um técnico mais afim ao grupo de Diniz. O Palmeiras intercalou exibições consistentes em jogos difíceis com resultados abaixo do esperado. A irregularidade pesou.

Aqui entra Carille. Ele volta ao Corinthians poucos meses depois de deixar o clube em que foi de aposta - assim denomina-se quem é efetivado ao sair da base - para ser campeão três vezes em menos de um ano e meio: dois Paulistas e um Brasileiro. Como uma bola de segurança, o clube repatria quem deu certo recentemente. Por fim, o Santos terá Sampaoli, técnico que adquiriu prestígio internacional por formar times desejosos de atacar e ocupar espaços com muito treino e disciplina. Grosso modo, é da escola de Diniz, dos que têm pés firmes na filosofia em que acreditam. Mas entra na percepção geral de estrangeiro. Não como traço xenofóbico propriamente, mas como alguém que precisará de tempo e compreensão cultural para prosperar em um ambiente não muito disposto a isso.

E por que os técnicos passaram a ser tão rigidamente classificados no Brasil, sem nuances? Arrisco ver nesse fenômeno um desdobramento de um outro, mais amplo, que diz respeito à conjuntura. Com os talentos deixando o país quase em estágio embrionário de carreira e apenas conseguindo contratar jogadores sem mercado importante na Europa e que não sejam fisgados pela dinherama de países árabes ou asiáticos, o foco foi do atleta para o treinador.

Em vez de integrante de um todo, ele é visto como um demiurgo, uma divindade que transforma o todo. Não por acaso vimos Sampaoli e Carille serem recepcionados entusiasticamente por torcedores de Santos e Corinthians no aeroporto. Se não há craques para depositar as esperanças, elas residem nos técnicos. E deles espera-se características bem definidas, quase robóticas, para definir seus trabalhos.