Mineirão pré-jogo

A Minas Arena se defendeu e emitiu uma nota sobre o caso - Reprodução Twitter/Flamengo

Valinor Conteúdo
21/01/2019
22:35
Belo Horizonte

Um caso de assédio sexual foi denunciado pela ex-funcionária da Minas Arena, que administra o Mineirão, a historiadora Karina Rezende em um evento de fim de ano no estádio, que aconteceu no dia 19 de dezembro de 2018.

Karina, que trabalhava no Museu do Futebol Brasileiro, relatou que durante a festividade corporativa foi agarrada por um funcionário da Minas Arena dentro de ma cabine do museu e ao contar o fato para a coordenação da empresa, não recebeu qualquer apoio e criticou a forma de condução do caso, sem qualquer atitude ou apoio dos gestores do Mineirão.

- Em um dado momento em que eu estava dançando do lado de fora da arquibancada - eu já estava indo embora, inclusive, já tinha despedido das pessoas -, um dos funcionários do estádio Mineirão, o qual eu não sabia o nome, só tinha visto e cumprimentado de longe algumas vezes, me pediu para autografar o álbum de figurinhas da empresa, em que cada um tinha a sua figurinha. Quando a gente foi para a parte interna da arquibancada roxa, ele pediu para tirar uma foto comigo dentro da cabine. Ele apertou o botão da cabine e tiramos uma foto. No momento em que apertou o botão, ele tentou forçar um beijo, segurando muito forte o meu rosto. Eu consegui escapar, pressionando meu rosto para baixo-disse Karina.

Além de contar sobre o caso para a Minas Arena, Karina fez um boletim de ocorrência na 3ª delegacia de Polícia Civil, em Belo Horizonte. Com essa atitude, Karina conseguiu chamar a atenção da Minas Arena, mas de forma pouco amistosa. No dia 19 de janeiro de 2019, um mês após o ocorrido, a gestora do Mineirão avisou à vítima que tomaria medidas que julgava cabíveis.

A Minas Arena disse que se posicionou apenas um mês depois do ocorrido devido as férias dos funcionários do estádio. Karina procurou novamente a administradora querendo saber quais seriam as ações sobre o funcionário que a assediou. A Minas Arena se negou a revelar como iria proceder e que o processo deve correr em sigilo. Com esse posicionamento, Karina foi às redes sociais cobrar e relatar o fato de forma pública, se expondo e tentando encontrar uma solução para o caso.

- Ao questionar quais as atitudes da empresa, a comunicação me informou que eu não poderia saber. Isso mesmo. Eu, a vítima do assédio, não posso saber de nada relacionado ao caso e ao assediador, pois é um assunto da empresa e não me diz respeito- disse no Facebook.

Pronunciamento da Minas Arena

A Minas Arena publicou uma nota sobre o caso e diz repudiar qualquer tipo de assédio, mas se negou a revelar o andamento do caso.

- Desde que o caso foi comunicado à gestão da empresa, o assunto foi conduzido por meio de comitê interno e assessoria técnica especializada no assunto, para resguardar os envolvidos, dentro dos limites éticos e legais. Por observância à legislação brasileira, (as medidas) não podem ser divulgadas em função do sigilo que deve existir na relação empregado-empregador- dizia o comunicado.

Na nota, a Minas Arena informou que os funcionários passarão por um treinamento na última semana de janeiro para aprenderam a identificar casos de abuso e assédios e entenderem “a gravidade e as possíveis consequências desses atos”.

Nas redes sociais, Karina Rezende criticou como a empresa está conduzindo o caso, justamente pela forma como a Minas Arena diz combater atos desse tipo.

- O Mineirão é engajado na campanha do #DeixaElaTrabalhar. A capa da revista do estádio esse mês é sobre mulheres. Uma nota da campanha #DeixaElaTrabalhar divulgada pelo estádio afirma que ‘O Mineirão reafirma o seu caráter inclusivo e que a luta pelo empoderamento feminino deve ser perene, e não somente no mês de março (mês em que é celebrado o Dia Internacional da Mulher)’’. Será mesmo? O caso ser mantido sob sigilo absoluto (inclusive comigo mesmo) e nenhuma sanção ter sido sofrida por parte do assediador é empoderador?

A campanha #DeixaElaTrabalhar surgiu em 2018 com o engajamento de mulheres jornalistas após a repórter Bruna Dealdry, do canal Esporte Interativo, ter sido beijada à força por um torcedor do Vasco em março num jogo da Libertadores contra a Universidad do Chile.

A postagem de Karina

MINEIRÃO: #deixaelatrabalhar ou #deixaeleassediar?
(POR FAVOR, LEIAM TODO O RELATO)
Esse post é uma denúncia e uma forma de cobrar publicamente da empresa Minas Arena S.A., responsável pela gestão do Estádio Mineirão, uma atitude concreta sobre o caso de assédio que eu sofri há exatamente um mês por parte de um funcionário da empresa. Além disso, é uma forma de refletir sobre como a luta pela vez e voz das mulheres e pelo emponderamento feminino tem sido trabalhada na sociedade. Um slogan ou ações de marketing são vazios quando uma funcionária é assediada e a empresa se mantém omissa e conivente com a situação. Que seja um incentivo para que outras mulheres que já foram assediadas EM QUALQUER LUGAR denunciarem (inclusive na Delegacia de Mulheres).

Fui funcionária do Museu Brasileiro do Futebol (MBF) até dezembro de 2018. Na festa de final de ano, ocorrida no Estádio Mineirão, um dos funcionários da empresa me agarrou dentro de uma cabine de fotos. Esta registrou o momento mas, segundo a empresa de fotografia, não posso ter acesso as fotos que já estão em posse do Estádio desde dezembro. A empresa entrou em contato em algum momento? Tive algum retorno ou qualquer informação sobre se alguma providência seria tomada? Nada.

Relatei o problema a coordenação do Museu e a Comunicação do Estádio. Durante quase um mês, nem sequer uma mensagem recebi por iniciativa delas. Todas - absolutamente todas - as informações que tive (que foram, num geral, pedindo para que eu aguardasse) foram obtidas através de diversas mensagens que enviei a coordenadora do Museu. Após uma enxurrada de mensagens enviadas por mim recebi, ontem, uma ligação da Gerente de Comunicação do Mineirão me informando que medidas seriam tomadas (que foram, até). Ao perguntar quais e questionar quais as atitudes da empresa, a Comunicação me informou que eu não poderia saber. Isso mesmo. Eu, a vítima do assédio, não posso saber de nada relacionado ao caso e ao assediador pois é um assunto da empresa e não me diz respeito. A única informação são que haverão
treinamentos sobre integridade. Nenhuma punição ou atitude ao que aconteceu foi informado. Infelizmente, no caso relatado, são duas mulheres em cargos de poder compactuando com o machismo e sendo omissas em um caso de assédio.

O Mineirão é engajado na campanha do #deixaelatrabalhar. A capa da revista do Estádio esse mês é sobre mulheres. Uma nota da campanha #deixaelatrabalhar divulgada pelo Estádio afirma que "O Mineirão reafirma o seu caráter inclusivo e que a luta pelo empoderamento feminino deve ser perene, e não somente no mês de março". Será mesmo? O caso ser mantido sob sigilo absoluto (inclusive comigo mesmo) e nenhuma sanção ter sido sofrida por parte do assediador é emponderador?

O Museu e outros setores do estádio possuem diversas funcionárias mulheres que vivem o cotidiano de trabalhar em um ambiente que os homens reivindicam como pertencentes a si: um Estádio de futebol. Essas mulheres estão sendo protegidas e resguardadas tendo em vista que em um caso de assédio nenhuma atitude é tomada e, muito menos, informada a parte lesada? Será necessário acontecer algo ainda pior para que a empresa tenha algum posicionamento? O que aconteceu dentro do Estádio foi um crime que pode ser enquadrado nos artigos 215 e 216 do Código Penal brasileiro. É impossível se manter calada diante disso.

"O SILÊNCIO DIANTE DO MAL É ELE MESMO O MAL. NÃO FALAR É FALAR. NÃO AGIR É AGIR.“.

Qual será a ação do conhecido como "Gigante da Pampulha"? Se apequenar e ser conivente com o assédio ou mostrar que é gigante não pelas campanhas publicitárias mas sim por ser transparente e íntegro com quem foi lesionado?
#deixaelatrabalhar ? #deixaeleassediar #assédio #crime #estádiomineirão #assédioécrime #todasjuntas

(EDIT1: a nota divulgada pelo Mineirão em seu site oficial demonstra a tentativa do Estádio de se isentar em relação ao acontecido. Por eu não ser mais funcionária, eles não são responsáveis pelo acontecido dentro do estabelecimento deles ou por uma resposta em relação ao funcionário que permanece na empresa? As mulheres continuarão correndo risco enquanto há um assediador encoberto pela Minas Arena? Meu relato é tratado com descrédito assim como o caso ocorrido. O que pior vai ter que acontecer dentro do Mineirão para que tomem alguma providência?)

(EDIT2: recebi uma ligação institucional da Minas Arena através do Diretor Comercial do Mineirão que se disponibilizou a conversar sobre o ocorrido. Me perguntou se havia ficado alguma questão para esclarecimento após a divulgação da nota (sim, aquela nota do site). Houve uma preocupação em desqualificar o termo assédio como o que sofri (com ele, inclusive, explicando pra mim o que seria assédio ou não) e também uma tentativa de me explicar que a questão não poderia ser tratada como crime mas como questão administrativa dentro da empresa. O sigilo empregador-empregado de fato só pode ser rompido frente uma "justa causa" segundo a legislação. Vocês não consideram um caso de assédio que fomenta a cultura do estupro uma causa relevante para esclarecimento com a vítima e o público, Mineirão?)

A nota da Minas Arena

No site oficial, a administradora do Mineirão se posicionou e justificou a forma como agiu diante do caso.

-O Mineirão repudia qualquer tipo de assédio e, desde que o caso foi comunicado à gestão da empresa, o assunto foi conduzido por meio de comitê interno e assessoria técnica especializada no assunto, para resguardar os envolvidos, dentro dos limites éticos e legais.

Em função do post público da Karina, a concessionária informa que ela foi convidada para a festa de confraternização mesmo não sendo mais colaboradora da empresa. Ainda assim, após apuração interna rigorosa e sigilosa para esclarecer os fatos, foram tomadas as medidas que competem a uma empresa realizar e que, por observância à legislação brasileira, não podem ser divulgadas em função do sigilo que deve existir na relação empregado-empregador.

Este retorno foi dado a Karina na última sexta-feira e, para aprimorar ainda mais a consciência de seu público interno, o estádio está desenvolvendo treinamentos para seus funcionários e parceiros identificarem casos de abusos e assédios e entenderem a gravidade e as possíveis consequências desses atos. Um treinamento geral acontecerá na última semana de janeiro.

O Mineirão reforça que está à disposição das autoridades competentes para fornecer as informações que se façam necessárias para o esclarecimento do ocorrido. Combater o assédio ou qualquer outra atitude que possa comprometer a integridade de alguém é um compromisso assumido publicamente pelo Mineirão desde 2017, por meio de campanhas internas e externas, bem como com a Rede Brasil do Pacto Global, protocolado na ONU. A empresa considera extremamente importante que esse tema seja amplamente discutido, principalmente no meio do futebol, como forma de conscientização e prevenção