A história do nome Palmeiras: por que o clube precisou mudar de nome em 1942?
Como a 2ª Guerra Mundial e o nacionalismo forçaram o fim do Palestra Itália.

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O clube que hoje atende pelo nome de Palmeiras nasceu em 26 de agosto de 1914, fundado por imigrantes italianos em São Paulo. Luigi Cervo, Luigi Marzo, Vincenzo Ragognetti e Ezequiel Simone deram origem ao Palestra Itália, uma associação esportiva que representava explicitamente a colônia italiana no Brasil. O Lance! conta a história do nome Palmeiras.
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Durante quase três décadas, o Palestra Itália foi mais do que um clube de futebol. Tornou-se um espaço de afirmação cultural, social e esportiva de uma comunidade numerosa e influente na capital paulista. As cores verde, branco e vermelho, a língua italiana em documentos oficiais e o próprio nome reforçavam essa ligação identitária.
Até o início dos anos 1940, o Palestra era um clube consolidado, competitivo e respeitado, com títulos estaduais e grande presença popular.
A história do nome Palmeiras
O contexto político: guerra e nacionalismo compulsório
A estabilidade institucional do Palestra Itália foi quebrada abruptamente pelo cenário político internacional. Com o avanço da Segunda Guerra Mundial, o Brasil passou a adotar uma postura cada vez mais alinhada aos Aliados.
Em 28 de janeiro de 1942, o Brasil rompeu relações diplomáticas com os países do Eixo. Em 31 de agosto do mesmo ano, declarou oficialmente guerra à Alemanha e à Itália. Sob o regime do Getúlio Vargas, o Estado Novo intensificou uma política de nacionalismo compulsório, voltada especialmente contra instituições associadas a países inimigos.
Clubes, escolas, jornais e associações com nomes estrangeiros passaram a ser pressionados — ou obrigados — a se "nacionalizar". O Palestra Itália tornou-se alvo direto dessa política.
A primeira tentativa: Palestra de São Paulo
Diante das pressões crescentes, a diretoria do clube buscou uma solução intermediária. Em 17 de março de 1942, o Palestra Itália alterou oficialmente seu nome para Sociedade Esportiva Palestra de São Paulo.
A estratégia tinha dois objetivos claros:
- Retirar a referência explícita à Itália
- Preservar a letra P, símbolo já consolidado na identidade do clube
O argumento formal era de que "palestra" era uma palavra de origem grega, significando "ginásio" ou "lugar de exercícios", e portanto não estaria necessariamente vinculada ao país inimigo.
Apesar da mudança, a solução foi considerada insuficiente pelas autoridades. O clube continuou sob vigilância e pressão direta.
A ruptura definitiva e a escolha do nome Palmeiras
Na madrugada de 14 de setembro de 1942, a diretoria do clube foi convocada para uma reunião extraordinária, sob exigência explícita de autoridades militares, para promover uma mudança total e definitiva de nome.
Diversas alternativas foram discutidas ao longo da noite, entre elas:
- Piratininga
- Paulista
Ao final de horas de debate, prevaleceu a escolha por Sociedade Esportiva Palmeiras. O nome atendia a dois critérios fundamentais:
- Mantinha a letra P, elemento central da identidade do clube
- Prestava homenagem à extinta Associação Atlética das Palmeiras, clube que havia apoiado o Palestra em disputas jurídicas no passado
Naquele momento, o Palestra Itália deixava oficialmente de existir.
A ironia histórica: morrer líder, nascer campeão
O episódio ganhou contornos ainda mais simbólicos por sua coincidência esportiva. No dia 14 de setembro de 1942, o Palestra Itália morreu líder do Campeonato Paulista.
Uma semana depois, em 20 de setembro, já como Palmeiras, o clube entrou em campo para o jogo decisivo do título estadual. Antes da partida, os jogadores carregaram a bandeira do Brasil, em um gesto claro de afirmação nacional.
O Palmeiras venceu e conquistou o Campeonato Paulista de 1942 em sua primeira partida oficial com o novo nome. Esse episódio entrou para a história como a "Arrancada Heroica", símbolo de resistência institucional e esportiva.
Cores, escudo e o que permaneceu para o Palmeiras
Apesar da mudança forçada de nome, o clube conseguiu preservar parte essencial de sua identidade:
- As cores verde e branco foram mantidas
- O vermelho, associado diretamente à Itália, foi eliminado
- O escudo foi simplificado, substituindo as iniciais "PI" por apenas a letra P
O Palmeiras tornou-se um caso raro no futebol brasileiro: um clube que mudou de nome por imposição política, mas manteve seu esquema cromático original, algo incomum em processos de ruptura institucional.
Um nome novo, uma identidade preservada
A história da mudança de nome do Palmeiras revela um processo traumático, rápido e imposto, mas também uma impressionante capacidade de adaptação. O clube sobreviveu à pressão estatal, preservou símbolos centrais e transformou uma crise política em afirmação esportiva.
O Palmeiras nasceu, oficialmente, de um ato de coerção. Mas sua consolidação veio da resposta em campo — campeã, imediata e definitiva.
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