John Textor e Ronaldo Fenômeno

Textor e Ronaldo: por enquanto, SAFs cumprem o que se propuseram (Fotos: Twitter/Botafogo e Divulgação)

Rafael Ribeiro
21/05/2022
07:00
São Paulo (SP)

Tema que ainda assusta alguns torcedores, a SAF (Sociedade Anônima do Futebol) já é uma realidade para dois dos maiores clubes do Brasil: Botafogo e Cruzeiro. Se ambas deram o pontapé inicial com realidades e propostas que parecem bem distintas, em um ponto os fãs podem se mostrar satisfeito, o sucesso esportivo. E no final, deveria ser exatamente isso o objetivo principal para alvinegros e celestes.


Em uma transação considerada tranquila, o milionário estadunidense John Textor comprou 90% da SAF botafoguense em março com a promessa de investimento inicial de R$ 410 milhões, além de absorver a dívida de R$ 1 bilhão do Glorioso.

Entretanto, com uma Série A do Campeonato Brasileiro pela frente para disputar, tratou de colocar a mão no bolso. E gastou cerca de R$ 65 milhões em 12 reforços para o Fogão. Isso mesmo após romper acordos de patrocínios que estavam acertados pela diretoria anterior por considerar os valores irrelevantes.

Se antes preterido pelas duras dificuldades financeiras e esportivas que vivia, o Alvinegro passou a ser visto como grande oportunidade para atletas e profissionais de ponta do cenário brasileiro, casos de Lucas Piazon, que retornou da Europa após anos rodando por Inglaterra, Holanda e Portugal, além de Patrick de Paula, que deixou o bicampeão da Libertadores Palmeiras, e Tchê Tchê, recém-chegado do atual campeão brasileiro Atlético-MG. Soma-se à essa leva o treinador português Luis Castro, que deixou um contrato milionário no mundo árabe para atender o convite de Textor.

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- Muitas das nossas contratações, inclusive o nosso treinador, só aceitaram o convite porque entenderam que, através da SAF, o projeto do Botafogo passou a ser um projeto global. Tudo o que SAF representa se torna atrativo: que é o choque de gestão, o poder de investimento, salários em dia, projeção esportiva internacional - pontuou o CEO do clube carioca, Jorge Braga.

O Botafogo é o quarto colocado do Brasileirão, com 11 pontos. É a melhor campanha do clube em anos. Se chegar aos 16, por exemplo, já supera a trajetória de 2020, quando acabou rebaixado. No Estádio Nílton Santos, a torcida dá show. Empolgada e motivada, já superou a marca de 100 mil pagantes e tem a segunda melhor média de público da competição nacional.

- Temos um projeto com visão de médio e longo prazo. Mas entendemos as pressões de curto prazo, porque somos reféns dos resultados em campo. Nós elevamos muito as expectativas dos torcedores também na frente dos serviços que vamos oferecer e temos que honrar com excelência. O Luis Castro, nosso técnico, tem uma frase: 'para ter sucesso no futebol é fácil. Basta ter tempo. Mas é o sucesso que te compra tempo - completou Braga.

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Ronaldo SAF CRuzeiro
Ronaldo e funcionários da Raposa em evento (Foto: Reprodução)

Experiência na Espanha faz Ronaldo cortar devaneios celestes

Em situação financeira igual ou tão mais calamitosa que a do Botafogo, o Cruzeiro viveu uma transição mais delicada. Até pelo fato de estar pelo terceiro ano seguido na Série B, o que significa uma redução ainda mais considerável de receitas, os mineiros viram o ex-atacante Ronaldo, com a experiência de ter assumido o Valladolid, da Espanha, chega com menos impacto, mas com promessa de consertar as coisas. Entre idas e vindas, o acordo que concedeu 90% do controle ao Fenômeno só saiu do papel no final de abril.

O acordo prevê investimento de R$ 400 milhões nos próximos cinco anos, seja com recursos próprios do Fenômeno ou com receitas incrementais geradas, como vendas de atletas, direitos de televisão, premiações, bilheteria, sócio-torcedores e patrocínios.

De acordo com a lei da SAF, o clube-empresa também terá de repassar 20% de seu faturamento mensal para abatimento das dívidas da associação civil. O prazo de pagamento é de seis anos, prorrogáveis por mais quatro, se o clube quitar 60% do passivo original. O valor atual de R$ 1 bilhão pode ser reduzido mediante negociação com os credores.

- Seguimos mirando curto, médio e longo prazo. Temos diversas frentes com forte atuação e vejo perspectiva de um trabalho bastante difícil, mas que agora tem segurança contratual para funcionar e trazer resultados ao Cruzeiro. Me sinto honrado por poder liderar o processo de reconstrução do clube - disse Ronaldo por meio de nota oficial.

Para se tornar acionista majoritário do Cruzeiro, Ronaldo precisa realizar um aporte de R$ 50 milhões, dos quais R$ 38 milhões já foram investidos para pagamento de dívidas do clube cobradas na Fifa. Há, ainda, a necessidade de o Fenômeno elevar as receitas da SAF em R$ 350 milhões, mas não necessariamente com aportes diretos.

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O Fenômeno assina a compra da SAF celeste após o conselho do clube autorizar o repasse das Tocas da Raposa I e II, os centro de treinamentos, para sua administração, em troca do pagamento da dívida tributária de cerca de R$ 180 milhões, com parcelas acima de R$ 1 milhão até 2032.

Por todos esses atenuantes, Ronaldo mantém os pés no chão quando se trata de investimentos e diz apenas que 'não vai gastar mais do que arrecada', por mais que o objetivo seja sair da Série B. Por hora, vem conseguindo: sob comando do técnico uruguaio Paulo Pezzolano, o clube lidera a competição com 16 pontos e com mais de 70% de aproveitamento.

Isso mesmo indo em direção completamente oposta a de Textor. Tão logo assumiu, Ronaldo diminuiu drasticamente a folha salarial (hoje na casa dos R$ 2 milhões), derrubando uma previsão inicial, da gestão da associação, de uma folha por volta de R$ 5 milhões para a Série B. Com isso, voltou atrás na renovação com Vanderlei Luxemburgo, não concretizou a renovação de contrato com o ídolo Fábio e também recuou em contratações, antes, anunciadas.

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Muito além das finanças, SAFs ajudam a resgatar imagem de clubes

Ao mesmo tempo que surgem como uma preciosa alternativa para viabilizar a saúde financeira dos dois clubes, as SAFs podem também ressignificar por completo a imagem e o posicionamento das marcas.

- Todo clube é uma marca e toda marca tem história e atributos valiosos. No caso de um clube de futebol, a falta de competitividade ao longo do tempo causa impactos que enfraquecem torcida, receitas e, por fim, faz com que a história seja sinônimo de passado, não de força. Do mesmo modo ao contrário, sucessos recentes tendem a deixar a marca do clube mais valiosa e confiável. Tudo isso está na balança e é colocado em questão no momento de fechar negócio e trazer bons valores - destacou Armênio Neto, especialista em negócios do esporte.

O especialista também ressalta que a SAF tem impactado sim na percepção da imagem dos clubes que há aderiram ao modelo, mas que só isso não basta para se tornar atrativo no mercado.

- A SAF traz essa percepção de o clube não passará por dificuldades financeira e, por isso, se torna mais confiável e mais valioso. Mas não é fórmula mágica. Seja empresa ou associação, o que é determinante para o sucesso financeiro e também esportivo é a governança do clube. A SAF traz esse pressuposto de que o dinheiro fará tudo funcionar, mas a execução é a chave real do sucesso.

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Em questão de reestruturação econômica, que irá garantir ao clube uma retomada no poderio de investimento e atração, Juliana Biolchi, diretora geral da Biolchi Empresarial e advogada especialista em revitalização de empresas e negociações complexas, revela o que torna o modelo Sociedade Anônima uma saída atraente para os clube.

- A SAF se enquadra em um regime à parte, que é um subtipo de sociedade anônima, especificamente criada e pensada para o futebol, constituindo alguns requisitos específicos. Um desses requisitos é justamente a renegociação de dívidas. A Lei 14.193, que criou a SAF, tem um tipo de alongamento de dívida cujos termos são específicos para ela, o Regime Centralizado de Execuções (RCE). O RCE é uma fórmula, que, aplicada à capacidade de geração de caixa da SAF, pode viabilizar o pagamento das dívidas acumuladas pelo clube.

- Além do regime centralizado de execuções, a legislação brasileira, por meio da Lei 11.101, que regula os instrumentos voltados para a crise empresarial, permite outras formas de alongamento das dívidas, que são a recuperação extrajudicial e a recuperação judicial. Para cada caso, haverá, a escolha adequada. Tudo vai depender do balanço dívida x caixa. Na maioria o interesse em comum é a profissionalização no futebol e a transformação do clube em um negócio sustentável, sendo assim, pelas vantagens que a SAF oferece, é a melhor alternativa para qualquer clube - completa a especialista.

Botafogo - torcida e Textor
Textor vibra com a torcida botafoguense (Foto: Vitor Silva/Botafogo)

Fora do Brasil, SAFs também 'revitalizaram' outros clubes tradicionais

No restante do mundo, seguindo Botafogo e Cruzeiro, quem anda comprovando a teoria da felicidade com as SAFs são os ingleses do Newcastle e os italianos da Salernitana. Adquiridos no decorrer de seus campeonatos nacionais e em meio ao sufoco da briga contra o rebaixamento, ambos abriram o bolso, apostaram em reforços e já desfrutam do efeito de uma reação quase que instantânea.

O caso do Newcastle era menos urgente, mas não menos preocupante. Quando comprado, o clube figurava na zona do rebaixamento, mas a Premier League ainda estava em sua oitava rodada. O que mais temia seus torcedores, no entanto, era o fato de a instituição, uma das mais tradicionais da Inglaterra, estar há temporadas seguidas brigando contra a degola.

O 'start' para reverter o cenário contou com 99M de euros investidos em reforços na primeira janela de transferências, 40M desses somente na contratação do brasileiro Bruno Guimarães. Hoje, os "Magpies" ocupam a 13ª colocação, navegam em águas calmas e já geram uma alta expectativa para os próximos anos.

Na Salernitana, é possível dizer que o dinheiro - e muito trabalho, claro - está operando um verdadeiro milagre. O clube foi comprado com 19 rodadas do italiano já disputadas e virtualmente rebaixado, na lanterna do campeonato.

Ao todo, foram nove reforços contratados, incluindo os brasileiros Ederson, ex-Fortaleza e Corinthians, e Mikael, ex-Sport, além da uma troca de treinador. Atualmente, depois de remar por 16 rodadas, a equipe conseguiu sair da zona do rebaixamento e depende só de si para permanecer na Série A restando duas partidas a serem disputadas.

Enquanto muito se exalta o sucesso das SAF, por outro lado sobram exemplos de clubes que se tornaram empresas, mas tiveram um resultado desastroso. Um deles é o Málaga, da Espanha, que em 2018 foi adquirido por um xeique que pouco tempo depois desistiu da empreitada. O resultado: logo de cara um rebaixamento para a segunda divisão espanhola e muitas dívidas como herança.

Caso parecido aconteceu com o Parma, por muito tempo gerido e bancado pela Parmalat. Após a saída da empresa investidora, o clube decretou falência por conta das dívidas deixadas e precisou ser refundado com um novo nome e na última divisão do futebol italiano.

Exemplos como esses são os que levam o advogado Luiz Henrique Martins Ribeiro, que foi presidente do Tubarão-SC durante quatro anos, um dos primeiros clubes-empresa do futebol brasileiro, e hoje presta consultoria para agremiações que pretendem migrar do modelo associativo para o empresarial, a alertar que somente dinheiro e transformação em SAF não são garantias de sucesso.

- Quando um clube se torna SAF, ele passa a ter um dono e ser visto como uma empresa. Assim, a lei exige que se tenha um conselho fiscal, de administração, um diretor remunerado e etc. Essa é uma garantia, que ainda assim precisa ser vista de forma cautelosa, de que a gestão vai ser mais profissional. Aí, claro, se tudo der certo, o resultado pode aparecer em curto prazo, mas se não, o normal é que venha em médio-longo prazo.

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