Manchester City x Chelsea - Final da Champions League - Pep Guardiola

Pep Guardiola tem dois títulos da Champions League como treinador, mas nenhum desde que saiu do Barcelona (Foto: DAVID RAMOS / AFP / POOL)

João Marcos Santana
29/05/2021
21:51
Rio de Janeiro (RJ)

O sonho do Manchester City em conquistar a Champions League mais uma vez ficou no imaginário do torcedor. É verdade que o clube inglês chegou o mais perto possível em toda a sua história nesta temporada, mas os Sky Blues foram superados na final para o Chelsea, neste sábado, em Portugal.

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O time de Pep Guardiola chegou à decisão como o grande favorito a conquistar a Orelhuda, mas os Cityzens foram anulados taticamente por um Chelsea muito bem postado por Thomas Tuchel. E por falar em tática, este foi um tema de críticas ao comandante catalão desde antes da bola rolar.

Cerca de uma hora antes do início do jogo, quando a escalação do Manchester City foi divulgada, muitos questionaram uma alteração que Guardiola fez na equipe. Capitão e titular, Fernandinho foi sacado do onze inicial para dar lugar a Raheem Sterling. A intenção, segundo Pep, era atacar desde o início e controlar a partida no campo ofensivo.

- Se queremos uma chance de vencer, temos que atacar. Claro que você tem que defender, mas nosso jeito é atacar. Precisamos de todos, tenho certeza que o segundo tempo será bem diferente do início. Eles (Chelsea) jogam um sistema com cinco na defesa. Precisamos de jogadores específicos, e nessa área e decidimos por Raheem (Sterling) - disse o treinador antes do jogo.

O problema é que a ideia de Guardiola não deu certo. Apesar de os Cityzens terem a posse de bola, o gol do Chelsea, marcado por Havertz, pode ser explicado justamente pela falta de Fernandinho. Em lindo passe de Mason Mount, a bola passou justamente onde o brasileiro, na teoria, estaria se tivesse sido escalado como titular.

Gol do Chelsea na final da Champions League
Momento do passe de Mount a Havertz (Foto: Reprodução/TNT Sports)

Não dá para dizer que o Manchester City seria campeão se Fernandinho fosse titular. Mas dá para dizer que o Manchester City teve uma queda de rendimento com a saída do brasileiro. Sem o camisa 25, as atuações de Gündogan, Kevin De Bruyne e Bernardo Silva foram abaixo do apresentado no decorrer da temporada.

Certamente as chances dos Sky Blues poderiam ser maiores caso Guardiola não mexesse no que vinha dando certo. Afinal, como diz o ditado do futebol, "em time que está ganhando não se mexe". A grande pergunta que fica é: por que Guardiola resolveu mudar logo no jogo mais importante da temporada?

Para entender esta "invenção" do catalão para a final de Champions League, devemos voltar ao início da carreira do treinador. Guardiola notadamente revolucionou o futebol desde que passou a ocupar a área técnica, e, em suas mãos, Lionel Messi se transformou em um "falso centroavante".

Real Madrid x Barcelona (2009) - Messi
Messi marcou dois gols contra o Real Madrid jogando de 'falso 9' (Foto: JAVIER SORIANO / AFP)

Antes de um duelo contra o Real Madrid em 2009, Guardiola posicionou o argentino para atuar entre as linhas de marcação do time merengue, e aquilo deu certo. Este fato também foi repetido nesta temporada, com De Bruyne atuando no setor, começando justamente em um duelo contra o Chelsea.

No Bayern, Guardiola também inovou em suas escalações e passou a mudar as funções de nomes como os laterais Phillip Lahm e Alaba, que atuaram como zagueiros ou meio-campistas. Na Alemanha, isso também deu certo. E Guardiola sempre foi aclamado por suas inovações.

Lahm, Robben e Guardiola - Bayern
Guardiola passando instruções a Lahm (Foto: TOBIAS SCHWARZ / AFP)

Mas foi no Manchester City onde Guardiola teve problemas com suas ideias. A mudança na escalação na final da Champions League não foi a primeira vez em que o treinador foi traído por suas convicções. Nas quartas de final do torneio em 2020, Pep tentou espelhar o esquema com três zagueiros usado pelo Lyon, mas a formação não deu certo. O clube inglês perdeu por 3 a 1 e foi eliminado.

Em abril, o LANCE! conversou com o jornalista Fred Caldeira, da "TNT Sports", correspondente brasileiro na cidade de Manchester, antes do duelo entre Manchester City e Borussia Dortmund pelas quartas de final. O repórter disse que, em sua opinião, a mudança contra o franceses, e a consequente eliminação, tem grande parcela de culpa do catalão e que Guardiola aprendeu.

- Não abrir mão das próprias características (foi a lição). Essa eliminação, acredito, cai muito na conta do Guardiola. A equipe tenta espelhar o esquema do Lyon, entra com uma linha de três pouco praticada e acaba jogando fora quase 60 minutos de jogo. Quando o Mahrez entra no lugar do Fernandinho, a partida muda um pouco, mas a perda de controle já estava consolidada.

Manchester x Lyon - Pep Guardiola
Guardiola desolado na eliminação para o Lyon (Foto: MIGUEL A. LOPES / POOL / AFP)

Após o duelo deste sábado contra o Chelsea, em Portugal, Guardiola explicou que sua ideia era "escolher a melhor formação para ganhar o jogo" - o que não deu certo.

- Fiz o melhor com a minha seleção. Tentei escolher a melhor formação para ganhar o jogo. Lutamos para quebrar as linhas no primeiro tempo. O segundo tempo foi muito melhor. Contra a estrutura defensiva do Chelsea, não é fácil. Lutamos um pouco com as bolas longas e as segundas bolas. Nesse momento, você precisa de inspiração - disse Guardiola.

Se o Manchester City tivesse vencido, seja o Lyon em 2020 ou o Chelsea neste sábado, certamente o discurso em geral sobre Guardiola era que mais uma vez o catalão se reinventou e revolucionou. Mas até que ponto suas "convicções" não serão encaradas de fato como uma teimosia?

Pep Guardiola certamente está entre os grande treinadores da história do futebol, e seus feitos provam isso. Mas um profissional do gabarito do catalão, que não vence a Champions League há dez anos, deve ser cobrado por erros que resultam diretamente em fracassos de seu clube. Se fosse outro qualquer, certamente a paciência seria menor.