Luis Horta

Luis Horta já foi presidente de comissão da Wada e de agência antidoping portuguesa (Foto: Divulgação)

Rafael Valesi
03/08/2016
07:00
Rio de Janeiro (RJ)

O português Luis Horta, que trabalhou de setembro de 2014 a junho deste ano na Autoridade Brasileira de Controle de Dopagem (ABCD), acusou em entrevista exclusiva ao LANCE! o Ministério do Esporte e o Comitê Olímpico do Brasil (COB) de “sufocarem” o combate ao doping no país. De acordo com o médico, o interesse das duas entidades seria para que atletas que competirão nos Jogos Olímpicos Rio-2016 não fossem submetidos a testes surpresa às vésperas do evento.

Nas palavras do médico, referência internacional no controle antidoping, o Ministério do Esporte e o COB têm como meta a conquista de medalhas no Rio de Janeiro “sejam elas limpas ou não”.


Horta trabalhou na ABCD como consultor internacional contratado pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), e foi uma espécie de braço-direito de Marco Aurélio Klein, ex-secretário do órgão, que faz parte do Ministério do Esporte.

Klein foi exonerado do cargo no dia 1º de julho pelo atual ministro Leonardo Picciani, que assumiu o Ministério do Esporte em 12 de maio. Ao mesmo tempo, Horta optou por não renovar seu contrato para seguir trabalhando no Brasil. O novo acordo começaria em 2 de julho.

– Decidi deixar a ABCD e não dando continuidade ao contrato que celebrei com a Unesco, por uma questão de proteção da minha dignidade profissional e pessoal – disse Horta, que já exerceu funções dentro da Agência Mundial Antidoping, e foi presidente da Autoridade Antidopagem de Portugal (ADoP) entre 2009 e 2014.

Horta decidiu fazer suas acusações contra o COB e o Ministério do Esporte apenas quando voltou a Portugal. Neste momento, o médico encontra-se em Lisboa.

"Decidi deixar a ABCD e não dando continuidade ao contrato que celebrei com a Unesco, por uma questão de proteção da minha dignidade profissional e pessoal"

Em entrevista por e-mail, o especialista no combate ao doping disse que o Ministério do Esporte e a atual gestão da ABCD (liderada agora pelo ex-judoca Rogério Sampaio) suspenderam os exames fora de competição no chamado Grupo Alvo de Testes, que contém 287 atletas que fazem parte da elite do esporte brasileiro (leia mais abaixo).

Segundo Horta, a interrupção começou 45 dias antes do início dos Jogos Rio-2016 - dia 21 de junho.

– Tratava-se de um momento crucial da política antidopagem do país, relativa à garantia que se estava a dar a todo o Programa Mundial Antidopagem de que as medalhas do Brasil seriam limpas – disse.

Horta também acusou o atual comando do Ministério do Esporte de sufocar as ações da ABCD. Ele, no entanto, preferiu não revelar de que forma isso acontecia.

– Após a entrada em funções do novo responsável máximo pelo Ministério do Esporte e mesmo antes da saída do Marco Aurelio Klein, a ABCD começou a ser sufocada pela máquina administrativa do Ministério do Esporte, precisamente por estar a cumprir as suas obrigações de acordo com Código Mundial Antidopagem, com a Convenção Internacional contra a dopagem da Unesco e com a legislação brasileira relativa a antidopagem – falou.

COB também vira alvo

Luis Horta também fez queixas e críticas em relação ao Comitê Olímpico do Brasil (COB), especialmente sobre o diretor executivo de esportes, Marcus Vinicius Freire.

De acordo com o médico, houve pressão por parte de Marcus Vinicius para que a quantidade de testes fora de competição no Brasil não fosse tão excessiva.

"A ABCD sempre desejou ter como objetivo primordial que essas medalhas fossem muitas, mas limpas, o que decerto é defendido pela grande maioria dos brasileiros. Este objetivo, viemos a descobrir, não era partilhado por todos os interlocutores, pois alguns desejam apenas que fossem muitas medalhas, independentemente de serem limpas ou não!"

– A ABCD sempre teve um objetivo que é comum, penso eu, a todos os brasileiros, que o Brasil ganhe muitas medalhas nos Jogos Rio-2016. No entanto, a ABCD sempre desejou ter como objetivo primordial que essas medalhas fossem muitas, mas limpas, o que decerto é defendido pela grande maioria dos brasileiros. Este objetivo, viemos a descobrir, não era partilhado por todos os interlocutores, pois alguns desejam apenas que fossem muitas medalhas, independentemente de serem limpas ou não! Tudo ficou muito claro quando o COB, através do seu dretor executivo (Marcus Vinicius Freire), começou a pressionar a ABCD na pessoa do seu responsável máximo, Marco Aurelio Klein, expressando a sua insatisfação relativa à quantidade excessiva de controles de dopagem fora de competição que estavam a ser realizados pela ABCD nos atletas brasileiros que iram participar Jogos Rio-2016 e à forma rigorosa como a ABCD estava a realizar a gestão das falhas relativas ao sistema de localização (Whereabout) – disse.

Ainda de acordo com Horta, a pressão de Marcus Vinicius Freire sobre o trabalho da ABCD aconteceu por meio de mensagens enviadas por celular a Marco Aurélio Klein, ligações telefônicas e em uma reunião entre as duas entidades na sede do COB, no Rio. O LANCE! falou por telefone com Klein no último sábado, mas ele preferiu não se pronunciar.

– A verdade é que a ABCD incomodou muita gente, porque com a sua isenção e espírito de servir o país, mexeu com muitos interesses instalados há muitos anos na antidopagem do Brasil. A ABCD tratou pela primeira vez a antidopagem como uma política de Estado no Brasil – completou o português.

O Grupo Alvo de Testes da ABCD

O que é?
A ABCD selecionou 287 atletas da elite do esporte brasileiro para serem submetidos com mais regularidade a exames antidoping fora de competição. A última relação, divulgada no dia 6 de junho deste ano, tinha 191 nomes do esporte olímpico e 96 do paralímpico, sendo que grande parte deles estarão nos Jogos Rio-2016 (Robert Scheidt, Ana Claudia Lemos, Arthur Zanetti, Bruno Soares e Daniel Dias são alguns deles). Todos eles precisam fornecer informações de localização a cada trimestre, a fim de serem encontrados para eventuais testes surpresa.

Objetivo da ação
Além da meta de medalhas (ser top 10 no quadro de medalhas), o país também tem como objetivo não ter nenhum atleta flagrado em exames antidoping nos Jogos Rio-2016. Segundo a Agência Mundial Antidoping (Wada), os exames fora de competição são cruciais para detectar substâncias ilegais que ficam por um período limitado no organismo dos atletas. Estudos também mostram que os testes fora de competição são mais eficazes do que os realizados em torneios, por pegar de surpresa os eventuais atletas dopados.