Daniel Bortoletto e Jonas Moura
06/08/2016
09:00
Rio de Janeiro (RJ)

Campeão olímpico em Atenas-2004 e recém-eleito presidente da Comissão de Atletas da Federação Internacional de Vôlei (FIVB), Giba está pronto para dar impulso na carreira de cartola. Em entrevista ao LANCE!, ele falou qual é sua meta: aproximar o esporte da educação, inspirado no modelo americano.

O ex-jogador e agora comentarista bateu um papo com a reportagem durante a inauguração da Casa do Vôlei, iniciativa da entidade mundial, e falou sobre expectativas, chances do Brasil na Olimpíada, o corte de Murilo e outros temas.

Desde que anunciou a aposentadoria, em 2014, Giba já participou por programas de culinária, dança e lançou sua biografia. Agora, quer colocar em prática o que estudou de gestão esportiva e o que viveu em 20 anos de atleta.

– Quem joga uma Olimpíada consegue fazer consultoria para qualquer empresa – diz o ex-ponteiro.

Durante os Jogos, a Casa do Vôlei receberá atletas, convidados especiais, empresários e patrocinadores. Em frente, na praia, seis quadras de vôlei estarão à disposição do público. Ela funciona na Escola Municipal Doutor Cícero Penna, na orla de Copacabana. A federação, presidida pelo brasileiro Ary Graça, investiu cerca de R$ 630 mil na reforma do local.

Confira a entrevista completa:

LANCE!: Quais são suas expectativas para os Jogos no vôlei masculino?
Giba: O masculino está mais do que no caminho certo. Está todo mundo criticando demais os meninos, mas a medalha de prata é muito honrada. Temos de lembrar que, desde 2013, quando nossa geração saiu em definitivo, eles têm feito as finais de todas as competições internacionais, com adversários sempre diferentes. O Brasil fez final contra Sérvia, Polônia, Estados Unidos, Rússia. Estava sempre lá. A pressão de jogar em casa é difícil, mas eles estão mais do que descolados com isso e concentrados para que a medalha de ouro volte para a gente, depois das duas pratas. Sabemos que estamos em um grupo difícil, em que há quatro favoritos, enquanto Polônia e Rússia estão no outro. Não podemos menosprezar uma Argentina, que infelizmente só ganha da gente em Olimpíada. Canadá, que tem o (Gavin) Schmitt, Irã e México não são bobos. Temos de ter uma concentração grande.

L!: Foi uma surpresa a ascensão do Maurício Borges na equipe até ser titular?
G: Ele sempre demonstrou interesse em estar bem fisicamente. Lembro de uma frase dele que é inesquecível. Estava em Montes Claros, jogando um amistoso, e falou "hoje eu já poderia encerrar minha carreira, pois meu sonho era jogar uma partida do seu lado". Ver que pude passar um pouco da maturidade que aprendi com Carlão, Gilson entre outros me dá muito orgulho. Fico feliz de vê-lo disputar uma Olimpíada como titular defendendo o país.

L!: O que achou do corte do Murilo? Falou com ele após o episódio?
G: Fiquei triste, mas não estou lá dentro. Não sei o que está acontecendo. É uma pena, pois era a última Olimpíada dele, dentro do Brasil. Mas acho que o Bernardo sabe o que faz e vamos ver como as coisas vão prosseguir. Só mandei uma mensagem para o Murilo, mas vou deixá-lo quieto, para dar esfriar a cabeça. Depois que tudo acalmar, voltaremos a conversar.

L!: E o que espera no feminino?
G: É a equipe favorita, bicampeã olímpica. Uma das cotadas a vencer, ao lado de Sérvia, Estados Unidos e China. A Itália e a Rússia correm um pouco por fora. O Brasil tem total chance de levar o ouro. Mostrou a força no Grand Prix.

L!: O Maurício Souza (central) foi diagnosticado com um desconforto no músculo posterior da coxa às vésperas da Olimpíada. Isso mexe com grupo?
G: É preocupante. Sabemos que o Maurício vem muito bem. Mostrou que ganhou a vaga merecidamente. Mas Lucão e Éder conseguem segurar este começo de fase até que tudo volte ao normal.

"O modelo americano é o que funciona. São uma potência olímpica há anos. Temos de olhar um pouco para o que está dando certo e tentar fazer igual ou melhor" - Giba

L!: Como foi o convite para ser presidente da Comissão de Atletas?
G: Há um ano e pouco, o Ary e eu já tínhamos conversado. Ele citou que tinha a ideia de fazer a comissão, mas até então era para eu ser embaixador. Depois, ele veio me dizer que seria o presidente da comissão (risos). Se me chamou, é porque ele sabe minha dedicação em tudo o que faço, com afinco e vontade. Entrei na Seleção adulta em 1997, com o Radamés (Lattari), quando o Ary entrou na presidência da CBV. Tenho um carinho por ele enorme e sei de sua competência. O vôlei é a primeira modalidade no mundo a ter uma casa exclusiva, e em uma escola. Mostra a necessidade de se fazer educação com o esporte. O modelo americano é o que funciona. São uma potência olímpica há anos. Temos de olhar um pouco para o que está dando certo e tentar fazer igual ou melhor.

L!: Já tem em mente o que fazer?
G: Falei com Grbic (sérvio Vladimir Grbic, nomeado secretário da Comissão) por telefone e conversamos por Instagram. Dia 15, quando houver o lançamento, teremos um encontro para alinhar o que cada um fará e quais as partes do mundo iremos atacar. Uma das conversas que tive com ele foi que quero aproximar cada vez mais a parte educacional do esporte.

L!: Você e Emanuel já são apontados há anos como futuros gestores do esporte. Ele já está na comissão de Atletas do COB. É uma tendência inevitável para atleta do nível de vocês pularem para o lado da gestão?
G: Acho que é, pois o esporte é nossa paixão. Amamos tudo o que fizemos. Quem joga uma Olimpíada consegue fazer consultoria para qualquer empresa. Tem transporte, logística, alimentação, segurança, credenciamento... você aprende sobre isso. Você teve 20 anos de conhecimento na vida de atleta até chegar a este ponto. Ir para o lado da gestão é maravilhoso. Comecei a fazer marketing esportivo. Estou fazendo MBA na UFRJ. Estudei administração esportiva com o Marcão (Marcus Vinícius Freire, diretor do COB). Até hoje, aprendi a falar cinco idiomas, o que me ajudou bastante.