Vanessa Cuba
17/08/2016
18:29
São Paulo (SP)

Luis Carlos Cardoso tinha a dança como profissão, atuando no grupo do cantor de forró Frank Aguiar, até que em dezembro de 2009 começou a sentir dores musculares intensas. O diagnóstico foi um duro golpe: esquistossomose. Uma infecção por parasita na medula, que o fez perder os movimentos do abdômen para baixo.

Do tratamento na fisioterapia surgiu uma nova e improvável profissão. Luis Carlos encontrou na paracanoagem a motivação para dar um novo rumo a sua vida. Tendo o esporte como seu aliado, ele se supera a cada dia e vai disputar em setembro os Jogos Paralímpicos 2016 no Rio de Janeiro.

- Nos últimos meses temos treinado bastante, tentando se concentrar o máximo possível neste objetivo de atuar nos Jogos Paralímpicos. Estou totalmente focado. Minha rotina tem sido do hotel para a raia e da raia para o hotel. Não podemos repetir erros anteriores, para poder evoluir e fazer um bom torneio" - afirmou.

Luis Carlos começou a treinar paracanoagem como forma de reabilitação e logo se apaixonou pelo esporte. Com bons desempenhos, em alguns meses, começou a competir e conquistar suas primeiras medalhas.

- Eu comecei a praticar a canoagem em São Bernardo do Campo, por indicação da fisioterapia. Não pensava que um dia seria um atleta profissional e que teria tantos títulos. Meu primeiro brasileiro foi em Curitiba, eu fui mais pra conhecer o clima, mas fiz o meu melhor e graças a Deus fiquei com a medalha de prata e de bronze, o que me colocou na seleção brasileira.

Tricampeão mundial na canoa e campeão mundial no caiaque, Luis lamentou que só possa competir no caiaque nos Jogos Paralímpicos. Nos Jogos Olímpicos os competidores possuem também a opção de usar canoa e ele tem esperança de que para o torneio seguinte a organização também permita o uso dos dois barcos pelos paratletas. Apesar disso, ele está empolgado com a classificação.

- Eu vinha me empenhando bastante para poder conquistar essa classificação. Sempre focado no meu objetivo. Antes tentei buscar a classificação na canoa, só que por terem tirado das modalidades acabei tendo que mudar para o caiaque, mas só dei continuidade a esse sonho. Fiquei muito feliz de conseguir essa vaga. Espero que mudem para a próxima edição. Ficaria muito feliz de disputar a Paralimpíada 2020 na canoa e no caiaque. Seria incrível - projetou.

Campeão do Pan-Americano 2012 no Rio de Janeiro, na canoa V1 categoria A, Luis Carlos contou com o apoio de seus familiares naquele campeonato e teve então a certeza de que tinha escolhido o caminho certo para atuar profissionalmente.

- Foi incrível poder disputar o Pan porque foi meu primeiro campeonato internacional e também por ter sido em casa. Pude contar com a presença dos meus familiares que moram no Rio de Janeiro e foram assistir a minha prova. Fiquei superfeliz, conquistei minha primeira medalha de ouro, foi ali no Rio que realmente caiu a ficha de que eu estava na seleção brasileira e de que era aquilo que eu queria para a minha vida - lembrou.

Confiante na evolução do esporte, Luis exaltou seu orgulho de poder defender o país na competição e deu a receita para aqueles que pretendem seguir o mesmo caminho. O canoísta destacou ainda que os Jogos Paralímpicos 2016 servirão para mostrar a todos a capacidade dos deficientes.

- Para se chegar na seleção brasileira é preciso muita dedicação, foco e disciplina. O Brasil está desenvolvendo bastante a paracanoagem, acredito que depois dos Jogos vai crescer e ser ainda mais disputado para se conseguir as vagas. Poder representar o país é um privilégio muito grande - disse.

'O maior legado é fazer com que as pessoas comecem a enxergar os deficientes com outros olhos.' diz Luis Carlos

- O maior legado dos Jogos Paralímpicos é fazer com que as pessoas comecem a enxergar os deficientes com outros olhos. Até então elas tem essa visão de que todo deficiente é coitadinho e não consegue fazer as coisas sozinho. Mas quando eles verem realmente que os atletas são dedicados, focados e todas as conquistas que podemos ter, vão tirar esse pensamento de coitadinho e vão ver que o deficiente pode transformar sua deficiência em eficiência - completou.

Sem medo do amanhã, Luis Carlos comemora seu novo incentivo: - Minha motivação é poder acordar cedo todos os dias e saber que vou poder praticar algo maravilhoso que é a paracanoagem. É algo que me motiva, me sinto muito privilegiado de fazer parte deste esporte.

A carreira de dançarino

Com apenas 16 anos, Luis Carlos teve sua primeira grande oportunidade, foi contratado para ser dançarino da banda de forró Cacau com Mel. Ele se empenhou então na carreira, passou por diversas outras bandas e por várias cidades do Nordeste em nove anos na área. Foi então que em 2008 foi convidado para um teste no grupo do Frank Aguiar. Aprovado, ficou até dezembro do ano seguinte fazendo shows, até que recebeu a dura notícia de que ficaria paraplégico.

- Eu era dançarino profissional e usava as pernas como meu instrumento de trabalho. Naquela época eu estava no auge da minha carreira e também estava em temporada de shows. Foi muito complicado não poder mais praticar o que eu tanto amava - lamentou.

- Eu comecei a dançar no Frank Aguiar em 2008 e fiquei até o final de 2009. Era bacana demais, eu não só era dançarino como também coreografo. Estávamos sempre viajando, o Frank estava fazendo sucesso, principalmente no Nordeste. Ele sempre era muito simpático e deixava tudo nas minhas mãos, me dava carta branca para montar e fazer o que eu quisesse - concluiu.

Paracanoagem

As provas acontecem em percursos de 200 metros, em linha reta, e quem termina com o menor tempo vence. São cinco baterias e o vencedor de cada uma avança para a final, enquanto os demais passam às semifinais. Nas semis, os três melhores classificados também vão para a final.

Nos Jogos Rio-2016, as competições de paracanoagem acontecerão na Lago Rodrigo de Freitas, nos dias 14 e 15 de setembro.