Igor Siqueira
12/12/2016
00:27
Rio de Janeiro (RJ)

A glória do desporto nacional viverá seus dias de vergonha na Série B do Brasileirão. Os torcedores do Internacional sofrem por todo o país por causa do rebaixamento inédito. Mas quem esteve no Giulite Coutinho, em Mesquita, neste domingo, vai guardar na memória um dos dias mais amados como apaixonados do Inter. Não importa se foi o torcedor que encarou o calorão e depois a chuva ou o dirigente, que viu do ar condicionado do camarote a concretização trágica de uma campanha digna de pesadelo.

Para quem não conhece o Rio, vir a Mesquita está longe de ser como um passeio ao Maracanã, por exemplo. Vir a Mesquita em um dia de calor subsaariano acrescenta o nível de dificuldade à missão e demanda esforço físico. Mas lá estavam eles. Os colorados, preenchendo o setor destinado aos visitantes no estádio do América. Pelo menos tinha o acolhedor o vermelho ao redor, já que América e Inter são irmãos de cores.

A zoeira do adversário começou cedo. A torcida do Fluminense - alguns ainda recordando a final da Copa do Brasil de 1992 - parecia estar mais preocupada em concretizar a queda do Inter do que ver o Tricolor, com um terço do time já de férias, jogar bem. Por isso o grito de "ão, ão, ão, Segunda Divisão" começou cedo. A resposta da arquibancada colorada foi quase na mesma moeda: "Valeu, ô Série C" e "Terceira Divisão".

Mas muito mais importante do que ganhar no grito na arquibancada era presenciar o sucesso dentro de campo. O Inter nem parecia desesperado para fugir da degola, já que pouco ameaçou o Fluminense. A torcida visitante foi do desespero ao grito de fé quando Danilo Fernandes pegou o pênalti nos minutos finais do primeiro tempo. 

Enquanto os colorados "guerreiros" sofriam nas arquibancadas, o clima no camarote no qual ficaram membros da diretoria e convidados foi tão tenso quanto. Até o presidente da Federação Gaúcha estava junto. Para chegar ao local, uma subida íngreme em escada caracol. Um modesto buffet e a bandeira desfraldada. A cada marcação controversa de Heber Roberto Lopes era possível notar a chateação.

A frustração e o desânimo foram crescendo com o passar do tempo. O fundo do poço veio com o chute de Douglas, que desviou e "matou" Danilo Fernandes. O transtorno no camarote foi uma pequena amostra das lágrimas que passaram a cair nos olhos dos que estavam na arquibancada. 

Como desgraça pouca é bobagem nessas horas, apareceu até uma torcedora com a camisa do Grêmio. Descontrolada, ela deu um tapa no vidro do camarote, fez gesto obsceno e xingou quem estava lá dentro. Foi "convidada a se retirar" e só voltou à arquibancada sem a camisa tricolor (do RS). A torcedora em questão afirmou que tinha sido ofendida anteriormente "ao sair para ir ao banheiro por duas pessoas (uma mulher e um homem)".

Quando o locutor do estádio avisou: "Torcedor visitante, saia agora ou só poderá deixar o estádio 1h após o jogo".... Pronto. Foi a senha para quem já tinha jogado a toalha. Inclusive para os dirigentes do camarote, que desceram. 

A fila indiana foi vista na arquibancada, mas alguns fiéis abortaram a missão de evacuação do Giulite Coutinho quando Gustavo Ferrareis empatou o jogo. Havia um fiozinho de esperança. Mas o tempo tratou de cortá-lo. O apito final veio, e o rebaixamento foi confirmado.

As lágrimas vieram de forma tão torrencial quanto à chuva no pós-jogo. Elas estavam acompanhadas de resignação, do lamento e da admissão: o maior culpado pelo rebaixamento do Internacional usa vermelho. É o próprio clube, seja ele representado pelos dirigentes, jogadores e técnicos que por lá passaram nas 38 rodadas do Brasileirão-2016.