Gabriel Carneiro
08/07/2016
07:00
São Paulo (SP)

Aos 20 anos, Pedro Henrique é o titular mais jovem do Corinthians e define a atual sequência de jogos na equipe como um misto de sorte e trabalho pesado. No clube desde 2011, quando foi observado em um torneio de base em Santa Catarina, o jovem zagueiro vive o melhor momento da vida e ganhou a confiança de Cristóvão Borges para deixar Vilson e Yago no banco de reservas. Sem choro! Só que não...

Ao derramar lágrimas depois de falhar na partida contra o Atlético-MG, no Mineirão, apenas seu terceiro jogo como atleta profissional, o garoto mostrou só um traço de sua personalidade. Forte, mas inegavelmente emotiva. E o comportamento não é de hoje...

– No começo ninguém acreditava em mim. O pessoal me chamava muito de chorão na minha cidade, porque eu chorava de saudade da minha mãe, da minha família, e todo mundo ria. Só quem era da minha família é que acreditava em mim. Mas aí tive um técnico no Imbituba que chegou para mim e disse: você tem potencial, vai estourar, tu vai dar certo no futebol. Desde ali eu me dediquei mais e mais – diz, ao LANCE!, o jovem zagueiro do Corinthians.

Pedro Henrique - Corinthians
Relembre a falha de Pedro Henrique contra o Atlético-MG

Pedro Henrique tem um irmão que desistiu do futebol cedo em razão de problemas pessoais. A partir daquele momento, colocou na cabeça que iria se profissionalizar e foi atrás do sonho. Do Imbituba Futebol Clube, time da cidade onde foi criado, chegou ao Corinthians aos 16 anos, viveu um empréstimo ao Flamengo de Guarulhos e já atua profissionalmente desde 2014. Neste ano, graças a diversos problemas com outros parceiros, foi de última opção a titular. E mesmo com todo mundo recuperado, é o garoto que segue.

Contra o Galo, no jogo em que chorou por falhar num recuo para Cássio, o garoto mostrou abalo e foi consolado de diversos modos: por companheiros, adversários, pelo técnico Cristóvão Borges, por torcedores pessoalmente, por torcedores nas redes sociais e... por Chicão. Ex-zagueiro do Timão, o veterano jogador mandou uma mensagem para Pedro por meio de Alessandro, gerente de futebol do clube, e emocionou o garoto (veja mais abaixo).

Filho de uma assistente social e um motorista da prefeitura de Imbituba, Pedro Henrique chorou de novo ao falar de seu passado. Especificamente da avó, Maria do Carmo, figura de relevância total em sua vida e carreira.

– Tive algumas dificuldades quando era garoto, porque minha mãe recebia pouco para sustentar dois filhos com diferença de sete anos. Era difícil, faltava dinheiro para gasolina, para levar a gente nos treinos. Quem ajudou muito nisso foi minha avó, Maria do Carmo, que não está mais entre nós... mas graças a Deus ela ajudou a gente neste momento – diz Pedro, que até interrompeu a resposta para secar o rosto.

Pedro Henrique chorou de saudades da avó, chorou por falhar contra o Atlético-MG, mas tem cada vez mais motivos para sorrir: contrato renovado, titularidade, atuação “sensacional”, segundo Cristóvão, e o futuro. Choro só se for de alegria.

PESSOAS QUE FIZERAM A DIFERENÇA PARA O GAROTO:

Caroline
- Esposa de Pedro Henrique há dez meses e companheira há quase dois anos, foi quem "levantou" o jovem jogador após a falha contra o Atlético-MG e diversos outros momentos da trajetória. Ela é da cidade de Pedro em Santa Catarina, e ambos vieram juntos a São Paulo. "Ela é uma inspiração para mim, pois está nos momentos bons e ruins", diz.

Pedro e Caroline
Casal está junto há quase dois anos (Foto: Reprodução)

Arílson - Pedro Henrique começou a jogar em escolinha na cidade de Imbituba-SC aos oito anos, e pouco depois foi selecionado para integrar as categorias de base do Imbituba FC. Lá, entre oscilações da idade, se firmou quando dirigido por Arílson Costa, ex-volante do Grêmio. Arílson passou confiança ao garoto, que pouco depois seria contratado pelo Corinthians.

Arilson Costa - Grêmio
Ex-volante do Grêmio deu chances a Pedro (Foto: Reprodução)

Scheidt - O empresário do garoto Pedro Henrique é figura conhecida no Corinthians: Rafael Scheidt, ex-zagueiro, que defendeu o clube entre 2000 e 2002 por 97 jogos, fez sete gols e ganhou três títulos: Paulista (2001), Rio São Paulo (2002) e Copa do Brasil (2002). Após o fim da carreira, Scheidt virou agente.

Scheidt - Corinthians
Ex-zagueiro é agente de Pedro (Foto: Marcos Michelin/Estado de Minas)

Luiz Antônio - Irmão de Pedro Henrique foi atleta profissional de futebol, mas desistiu da carreira por problemas pessoais quando o corintiano estava começando. Hoje, Luiz trabalha no porto de Imbituba, e é uma das grandes motivações de Pedro dia a dia. “Se não fosse ele eu não estaria aqui hoje. É por ele que estou aqui hoje”, diz o atleta.

Pedro e família
Pedro e família na Arena (Foto: Reprodução)

Chicão - Scheidt não é o único ex-zagueiro do Corinthians que tem influência na trajetória de Pedro. Quando o garoto falhou na partida contra o Atlético-MG, recebeu mensagem de motivação de Chicão, que defendeu o Timão entre 2008 e 2012, em 247 jogos. Por meio de Alessandro, o campeão mundial deu força ao jovem.

Chicão (Crédito: Junior Lago)
Chicão é ídolo da torcida do Corinthians (Crédito: Junior Lago)

Cristóvão - A partida contra o Atlético-MG foi a primeira de Cristóvão como técnico do Corinthians, mas o pouco conhecimento do grupo não impediu o treinador de ter um papo reservado com o garoto após o erro, ainda no vestiário. Pedro ouviu do técnico palavras de apoio, e especialmente ações: ele não saiu do time titular e agradou.

Cristóvão
Técnico deu força (Foto: Daniel Augusto Jr/Agência Corinthians)

Yago e Marlone - O zagueiro e o meia-atacante são os amigos mais próximos de Pedro no elenco do Timão. Ele também tem amizade com Léo Príncipe, Maycon, Arana, Caique França, que vieram da base como ele, mas com Yago e Marlone a relação é mais forte, de amizade entre famílias e reuniões particulares para cultos, jantares e brincadeiras.

Yago
Parceiro de zaga também é amigo (Foto: Agência Corinthians)

BATE-BOLA com PEDRO HENRIQUE
ZAGUEIRO DO CORINTHIANS, ao L!


Felipe vendido, Yago e Vilson lesionados, Balbuena na seleção do Paraguai... você fez alguma magia para virar titular no Corinthians?
(Risos) Não fiz nada, simplesmente comecei a trabalhar firme e forte, e acho que Deus ajuda a quem trabalha. Eu esperei o momento e quando apareceu a chance eu aproveitei da melhor maneira possível. A sequência está boa, recebendo a confiança de todos os companheiros e do professor Cristóvão. Eu nunca imaginava ser titular da zaga do Corinthians, mas também via que só precisava de uma oportunidade para mostrar que tinha potencial. Agora não quero sair mais.

Apesar de tudo isso de trabalho, que você falou, também se considera um cara sortudo?
Tem um pouco de sorte, mas também tem muito trabalho, as duas coisas. Vinha me dedicando ao máximo, focado nos treinos e os trabalhos que passavam, treinando complemento também, para executar meu trabalho bem feito e não sair mais.

Todos aqui dentro do Corinthians elogiam sua personalidade forte. Isso ajuda no dia a dia?
Ajuda sim. Se você não tiver personalidade não tem como jogar futebol. Eu fiquei três anos no profissional e nunca desanimei. Quando apareceu a brecha de jogar eu mostrei essa personalidade, é o que a torcida queria, a diretoria queria, e graças a Deus está dando certo.

Como foi quando você subiu para o profissional pela primeira vez?
Subi em 2014, com Mano Menezes. E quando cheguei tinha Paulo André, Cleber, Gil, Felipe e o Wanderson, e eu era o quinto. Depois com a saída do Paulo André chegou o Anderson Martins, o Wanderson saiu e ficamos nós cinco.

Mas desde quando está no Corinthians?
Vim no fim de 2011. Comecei com oito anos, porque meu irmão também foi jogador e eu me espelhei nele. Quando eu tinha cinco anos queria treinar com meu irmão, mas minha mãe não deixava. Aí quando completei oito anos ela deixou e fui para escolinha. Depois da escolinha fui para o Imbituba Futebol Clube, disputei um Catarinense na base. Aí teve um Campeonato Brasileiro sub-15 em que na nossa chave tinha Corinthians, Atlético-PR e mais um time que não lembro. Aí fui bem, surgiram propostas, mas preferi vir para o Corinthians e fiz minha base toda, do juvenil até o profissional.

'No começo ninguém acreditava em mim. O pessoal me chamava muito de chorão na cidade, porque eu chorava de saudade da minha mãe, da minha família, e todo mundo ria. Só quem era da minha família é que acreditava em mim', disse Pedro Henrique

Fale mais sobre seu irmão jogador...
Pois é, teve isso. Ele acabou desistindo quando ia para a Europa. Chama Luiz Antônio, hoje tem 27 anos, mas me inspirou para o restante da carreira. Ele desistiu por problemas pessoais mesmo. Ali eu vi que estava no caminho certo também e eu e minha mãe sentamos e decidimos que eu focaria na carreira. Ele é uma inspiração para mim, porque se não fosse ele eu não estaria aqui hoje. É por ele que estou aqui hoje.

E sua família é toda de Imbituba mesmo? O que seus entes queridos fazem hoje em dia?
Toda de Imbituba, em Santa Catarina. Tem alguns familiares que moram em Lauro Muller, onde eu nasci, mas fui criado em Imbituba. Minha mãe é assistente social, meu pai é motorista da Prefeitura da cidade, trabalha para a APAE de lá e meu irmão hoje trabalha no porto de Imbituba. Hoje meus pais (Renato e Denise) são separados, e meu pai teve mais dois filhos (Renato e Beatriz).

Você também é ligado neste lado social, como seus pais?
Meu pai ajuda muito essas pessoas, fiquei de passar lá, pretendo visitar o pessoal. Minha cidade é muito humilde, então pretendo fazer algo lá também, nesse lado social.

E como foi seu início de carreira?
No começo ninguém acreditava em mim. O pessoal me chamava muito de chorão na cidade, porque eu chorava de saudade da minha mãe, da minha família, e todo mundo ria. Só quem era da minha família é que acreditava em mim. Aí um dia surgiu o Imbituba, e meu técnico era o Arílson, meia que foi do Grêmio em 1995. Ele chegou para mim e disse: você tem potencial, vai estourar, tu vai dar certo no futebol. Desde ali eu me dediquei mais e mais.

Do lado financeiro, você teve dificuldades no começo também?
Tive algumas dificuldades, porque minha mãe recebia pouco para sustentar dois filhos com diferença de sete anos. Era difícil, faltava dinheiro para gasolina, para levar a gente nos treinos. Quem me ajudou muito nisso foi minha avó, Maria do Carmo, que hoje não está mais entre nós... mas graças a Deus ela ajudou a gente nesse momento (interrompe, chorando).

Entre outras coisas, é disso que você tira força?
Tiro bastante força disso, sim. Até me emociono um pouco de falar da minha avó, mas é dessas lições que tiro minha força para seguir em frente e me tornar um grande zagueiro.

Você falou em dificuldades financeiras no passado, e seu contrato foi renovado neste ano. O que fez com o primeiro salário?
Eu ajudei a minha mãe, morava aqui e mandava dinheiro para ajudar eles lá. Agora na renovação ajudei de novo, ela e meu irmão. Tudo o que estiver ao meu alcance eu ajudo, e pretendo continuar ajudando para o resto da minha carreira. Hoje já é mais tranquilo, porque antes passávamos um pouco de dificuldade, mas hoje tudo caminhando, graças a Deus.

Você é religioso?
Um pouco. Acredito muito em Deus, sou grato a Ele por tudo o que fez na minha vida. Sou católico, costumo ir na Igreja com meus amigos aqui, Yago, Marlone. Nós fazemos nós mesmos os cultos. Ontem fui à Igreja do Padre Roberto, ele me deu bênção e agradeci muito a Deus.

Sua trajetória aqui no Corinthians também teve percalços antes dessa sequência como titular, não é?
Cheguei aqui no fim de 2011 para o sub-17 e surgiu a oportunidade de ser emprestado ao Flamengo de Guarulhos, já que não seríamos aproveitados de imediato. Disputei a Taça São Paulo, aí veio férias, voltei e integrei o Corinthians de novo. Fiquei um tempo com o Émerson Ávila, depois ele saiu e assumiu o Osmar, onde tive maior aproveitamento e fomos para a final da Taça, perdemos para o Santos. Mas no ano seguinte ganhamos quase todos os torneios de base e as coisas deram certo.

Quem são seus melhores amigos no elenco hoje em dia?
Falo com todo mundo, mas próximos são Yago, Marlone, Léo Príncipe, Maycon, Arana, Caique França, todos meus amigos. Mas todos me dão força, me passam experiência, me dão conselhos nos treinos. Agradeço a eles por isso.

E o que faz no seu tempo livre? Curte música?
Curto alguns louvores, mas pagode e sertanejo. Eu sou mais caseiro, até disse que fui no Padre ontem. Mas quando tenho folga eu tento ir para a minha cidade, ou fico mesmo em casa com minha esposa. Estamos juntos há um ano e oito meses, vai fazer dois anos, casei jovem. Foi amor à primeira vista. Conheci ela na minha cidade e ela veio na mala também (risos).

E já está pensando em aumentar a família?
A gente pensa, porque eu gosto muito de criança. Estamos planejando para quem sabe ano que vem sair um craque, um jogador.

Tem muita criança na família?
Tenho primos pequenos, meus irmãozinhos, além das filhas do Yago e do Marlone. Já dá uma vontade de ter um filho, só falta eu.

O Cristóvão Borges nos disse que teve uma conversa reservada com você depois da falha contra o Atlético-MG. Qual foi o teor desse papo?
Cheguei no vestiário e todos me deram força, disseram que isso acontece. Professor Cristóvão disse que eu tenho um grande futuro e devia ficar focado, com cabeça boa e trabalhar, não deixar cair, porque um erro não iria apagar o jogo que fiz. Ele disse para eu continuar trabalhando e depois fui para o hotel. Estava arrasado. Aí só fui tranquilizar em casa, depois de sentar e conversar com minha esposa.

Teve alguma mensagem de força que te marcou mais?
Recebi mensagem de todo mundo, minha família, do Gil, mas o que mais me marcou foi o Chicão, que me mandou uma mensagem pelo Alessandro, uma mensagem bonita, de apoio, para eu não desanimar, porque o futebol era assim mesmo. O que mais me marcou foi aquela mensagem.

Depois daquele dia, como foram as suas reações, como se reanimou para seguir?
Tinha errado naquele jogo, mas falei comigo mesmo que a partir dali eu precisava mostrar algo diferente, a mais. Ai peguei Santa Cruz, América-MG e depois Flamengo, que acho que foi minha melhor partida aqui dentro. Então acredito que o erro tenha sido apagado, esquecido.

Já caiu a ficha de que você é zagueiro titular do Corinthians?
Para mim não caiu a ficha ainda. Mas todos nós trabalhamos e damos o melhor para conquistarmos vaga de titular. Todos têm condições, só temos zagueiros qualificados, mas o que eu preciso fazer é trabalhar forte, buscar oportunidade, trabalhar firme, forte e focado. Se eu perder a vaga não vou desanimar, vou continuar trabalhando. Mas espero que não aconteça, e que eu siga titular pelo resto da temporada.

O que te motiva?
Meu empresário é como um pai para mim, o Scheidt, me motiva muito, meus amigos da minha cidade mandam mensagem todo dia de apoio, mas o que mais motiva é minha família, para continuar trabalhando, buscar algo mais alto e melhor para minha carreira.

O Corinthians joga neste sábado em Chapecó. É perto da sua cidade?
É como se fosse a distância de São Paulo para minha cidade, então dessa vez não vai dar para ir para lá, mas não tem problema. Vou curtir a folga com minha mulher e quem sabe semana que vem ir para lá.