Bruno Cassucci, Gabriel Carneiro e Rodrigo Vessoni
07/07/2016
06:05
São Paulo (SP)

O Corinthians enfrenta grande dificuldade para vender os Certificados de Incentivo ao Desenvolvimento (CIDs), cujo valor será destinado para pagar parte do financiamento da Arena. No entanto, o clube não teme que os títulos, cujo valor corrigido já ultrapassa R$ 450 milhões, encalhem. Isso porque a Odebrecht tem a obrigação contratual de, em até dez anos, adquirir os papéis, que podem ser utilizados por empresas para abatimento de imposto.

A informação foi confirmada ao LANCE! por diversas pessoas envolvidas na gestão do estádio, inclusive o presidente do Timão, Roberto de Andrade. A Odebrecht, contudo, negou tal obrigatoriedade em nota oficial, mas ressaltou que “tem feito esforços para continuar adquirindo CIDs”. Até o momento, todos os certificados negociados foram com a construtora, que pagou R$ 24,8 milhões. Um imbróglio judicial atrapalhou que tais papéis fossem negociados (entenda melhor abaixo).

Fontes ouvidas pelo L! afirmam que “há interpretações” quanto à cláusula contratual que força a compra pela Odebrecht e reforçam que o clube tem de fazer a sua parte. Ao Corinthians também não interessa esperar a construtora comprar os CIDs, já que quanto antes quitar o financiamento, menos juros pagará.

– A Odebrecht não paga esse valor de imposto (cerca de R$ 450 milhões) em um ano, paga menos, então automaticamente levará mais tempo. O valor é usado só para ISS, IPTU... é imposto da Prefeitura de São Paulo. Os CIDs são um ativo da Arena. Se eu sair no mercado para vender, existe deságio, mas se tem parceiros que podem fazer isso e não muda nada, eles farão – declarou Roberto de Andrade, ao L!.

Emerson Piovezan, diretor financeiro do clube, também confirmou o acordo com a Odebrecht e explicou:

– Não tememos não vender, mas queremos liquidar isso o quanto antes para podermos contar com as receitas da Arena. Temos pressa!

Os CIDs equivalem a mais de um terço do valor total da Arena (1,2 bilhão), daí a importância de comercializá-los. Além destes títulos, o Timão conta com a venda dos naming rights e de receitas de bilheterias, camarotes, cadeiras e outros eventos no estádio.

- Odebrecht paga ela mesma com certificados
A compra dos CIDs foi uma das garantias oferecidas pela Odebrecht na engenharia financeira do estádio. A construtora financiou a maior parte da obra e R$ 400 milhões foram emprestados pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).

Assim, quando compra os CIDs, a Odebrecht, indiretamente, dá dinheiro a ela mesma. Até o momento, os papéis foram adquiridos por três braços do grupo: a Construtora Norberto Odebrecht, o Consórcio Expresso Linha 6 do Metrô de São Paulo, do qual a Odebrecht é dona de 19,6%, e o Consórcio Metropolitano 5, responsável pelo lote 7 da Linha 5-Lilás do metrô paulista, liderado pela Odebrecht.

Alvo da operação Lava-Jato, o grupo vem enfrentando dificuldades financeiras, mas segue sendo um dos maiores do segmento no país.

- PARA ENTENDER MELHOR

Os CIDs
Certificado de Incentivo ao Desenvolvimento (CID) é um título que pode ser vendido a empresas que gastam com impostos municipais. Neste caso, foram “papéis” emitidos pela Prefeitura para que o Timão vendesse e arrecadasse R$ 420 milhões para pagar parte da obra do estádio.

A explicação
Timão recebeu os CIDs em 2011, quando a Câmara Municipal de São Paulo aprovou a concessão de incentivos de R$ 420 milhões ao estádio por conta dos benefícios à economia da Zona Leste e da abertura da Copa do de 2014 – condição obrigatória para a liberação dos papéis.

O deságio
Para que os CIDs se tornem interessantes aos compradores, eles não são vendidos pelo valor original. Exemplo: uma empresa paga 9 por um título que vale 10 em abatimento de impostos. Se pagasse 10 por papéis que valem 10, não faria sentido este investimento.

O imbróglio
Em maio de 2012, o Ministério Público de São Paulo moveu ação contra Gilberto Kassab, ex-prefeito da capital, que foi quem liberou as CIDs. A insegurança jurídica afastou interessados, mesmo que em outubro de 2015 a Justiça tenha visto operação normal.