Jonas Moura
03/08/2018
07:05
Rio de Janeiro (RJ)

Único brasileiro tricampeão olímpico, José Roberto Guimarães já viveu as mais distintas fases no comando da Seleção feminina de vôlei. Aos 64 anos, completados na última terça-feira, o técnico permanece motivado a buscar títulos em um esporte cercado de expectativas, mas admite que manter a modalidade no topo tem sido uma missão cada vez mais complicada.

Focado no presente, ele tem ao menos boas perspectivas para o Campeonato Mundial deste ano, entre 29 de setembro e 20 de outubro, no Japão. Após ficar com o vice em 2006 e 2010, e levar o bronze em 2014, a equipe verde e amarela tentará uma conquista inédita. E Zé acredita ter um elenco capacitado.

– Não nos coloco acima ou abaixo de ninguém. Podemos perder ou ganhar. Mas a energia deste grupo é muito forte – disse o comandante, que nesta semana comemorou a volta da ponteira Fernanda Garay, ouro em Londres-2012, e sorriu aliviado por preencher uma posição carente no país.

Nesta entrevista ao LANCE!, o paulista falou sobre a preparação para o maior objetivo do ano. Ao avaliar a carência de novos talentos no esporte, disse que o quadro econômico do país tem impactado no trabalho de clubes e no desenvolvimento das categorias de base, já com reflexos na Seleção adulta.

Que avaliação faz da Seleção hoje, sobretudo após a chegada da Fernanda Garay?
Aumentamos o número de opções, o que é fundamental para deixarmos o time mais encorpado. E ganhamos com a maturidade que ela nos traz. Acredito que, com o tempo, ela terá ritmo. Seria mais difícil sem a Garay. Eu sempre disse e ela: “Não feche portas. Deixe um pé na Seleção e aproveite esse tempo”.

Tem sido um ano de preocupações com as lesões. Há riscos para o Mundial?
Corremos contra o tempo, mas tudo está acontecendo de forma positiva, dentro do protocolo. A Natália se recupera bem, ainda sem saltar. Já faz deslocamentos e fundamentos, exceto os que exigem salto. Ela vai demorar mais tempo. Tem feito aterrissagem para depois sair do chão. A Drussyla está normal. A Suelen só precisa de mais uma semana de recuperação. Já trabalhamos com todas e recuperaremos quem precisa.

Quem aponta como os grandes favoritos no cenário Mundial?
Estados Unidos, China e Sérvia. Turquia, Itália e Holanda estão em evolução. E estamos no meio deste bolo todo. Não nos coloco acima ou abaixo de ninguém. Podemos perder, assim como podemos ganhar. Mas a energia deste grupo é muito forte.

Os Estados Unidos, adversários do Brasil em três amistosos em agosto, são os atuais campeões mundiais e da Liga das Nações. Como usará esses jogos?
Vamos disputar os amistosos com o melhor que temos, para ver como as atletas irão reagir. Algumas jogarão pouco, mas testaremos o que estamos treinando. Hoje, os Estados Unidos são o melhor time do mundo. Mais consistentes e com mais opções. Esses parâmetros são importantes para definirmos o futuro. A Garay não joga os amistosos, porque estará entrando no ritmo. Não vamos correr riscos. Em Montreux, ela já deve estar no grupo.

Fernanda Garay
Zé Roberto convenceu Fernanda Garay a retornar â Seleção e tentar o título do Campeonato Mundial, em setembro (Foto: Divulgação/CBV)

Você tem um grupo de 16 atletas e 14 irão ao Mundial. Outros nomes podem ser chamados?
Pode acontecer. Ainda temos prazo para inscrever. E eu espero que não ocorram lesões. Os clubes também já estão em período de treinamentos.

O Brasil deve ter oito jogadoras com bagagem de Mundial na próxima edição (Dani Lins, Garay, Natália, Gabi, Thaisa, Adenízia, Tandara e Carol). O que acha desse número? É o que você considera necessário?
Normalmente, ficamos nessa faixa. É um número importante de atletas com experiência, que estão novamente em uma situação boa na carreira.

Por outro lado, sentimos que faltam talentos para substituir as principais peças. A posição de ponteira foi uma dor de cabeça este ano. Isso preocupa?
O que temos debatido sobre as categorias de base é que temos um problema econômico no Brasil, não só no voleibol. É lógico que isso afeta os clubes, as categorias e todas as estruturas, assim como as demais modalidades. Estamos procurando talentos. Não paramos de buscar jogadoras e jogadores para comporem as categorias, mas, por uma questão financeira, está difícil lapidá-los. Diminuímos o tempo de treinamento e o número de jogos competitivos, de amistosos que tínhamos fora do país. Antes, as Seleções treinavam de cinco a seis meses. Hoje, são só três meses. E, por uma situação financeira, diminuímos o número de amistosos. Antes, as Seleções saíam mais para jogar. Tivemos de limitar as viagens da base, em função desse aperto. Mas faz parte. Temos de nos adequar. Espero que, no futuro, consigamos ter uma quantidade maior de atletas e com maior qualidade.

Muitas equipes da Superliga se reforçaram, com estrangeiras, como a italiana Diouf (Sesi Bauru), a russa Kosheleva (Sesc) e a cubana Herrera (Pinheiros). Acredita que poderemos ver um torneio ainda melhor na próxima edição?
Acho que a próxima Superliga vai ser tão competitiva quanto as últimas. Os times tiveram de se adequar às suas novas realidades. Muitos tentaram negociar atletas e competiram com o vôlei de fora, que também atravessa crises, como a Itália, Turquia e Rússia, menos a China, mas acho que vai ser interessante em relação às equipes. Mas sabemos que algumas terão dificuldades de se manterem diante da situação econômica atual do país.

Seu time, o Hinode/Barueri, já anunciou Dani Lins, Amanda, Milka, Maira, Lays, Juma e Jacke Moreno. Da última temporada, ficaram Thaisa, Natinha, Sara e Tainara. O elenco está fechado ou podem chegar mais reforços?
Montamos a estrutura em Barueri, retomamos a categoria de base, o que acho essencial para colaborarmos com o vôlei brasileiro, e mantivemos a equipe adulta pelo segundo ano. Nesta temporada, nossa ideia é aproveitar mais a base na equipe principal. Além disso, a Skowronska retornará. No momento, não acredito em novas contratações.

Na metade do caminho para Tóquio, a decepção da eliminação para a China nas quartas de final no Rio saiu da cabeça? Já pensa em 2020?
Da mesma forma que passamos pela vitórias, passamos pelas derrotas. Para mim, era preciso virar a página. Tínhamos de pensar nos próximos quatro anos. Buscamos continuar entre as melhores equipes do mundo, haja vista o que aconteceu ano passado, quando ganhamos Grand Prix e fomos vice na Copa dos Campeões. Neste ano, chegamos em quarto na Liga das Nações e na Copa Pan-Americana. Agora, vamos ver no Mundial. Mas a ideia é nos mantermos entre as melhores equipes do mundo.

QUEM É ELE

Nome
José Roberto Lages Guimarães
Nascimento
31 de julho de 1954 - Quintana (SP)
Altura
1,77m
Títulos na Seleção
Tricampeão olímpico (Barcelona-1992, na masculina, Pequim-2008 e Londres-2012, na feminina); nove vezes campeão do Grand Prix (2004, 2005, 2006, 2008, 2009, 2013 e 2014, 2016 e 2017); penta do Montreux Volley Masters (2005, 2006, 2009, 2013 e 2017); vice-campeão mundial em 2006 e 2010.
Linha do tempo
* Nasceu em 31 de julho de 1954 em Quintana (SP)
* Jogou entre 1969 e 1981, e defendeu a Seleção Brasileira nos Jogos Olímpicos de Montreal (1976), ficando em sétimo lugar. Foi levantador.
* Em clubes, jogou por Santo André (SP), Blumenal (SC), Atlético-MG, Paulistano (SP), Banespa (SP), Transbrasil (SP), Abasc (SP) e Marcolin (ITA).
* Tornou-se assistente técnico de Bebeto de Freitas na Seleção masculina em 1988.
* Assumiu o comando da equipe em 1992, ano em que conquistou a inédita medalha de ouro nos Jogos de Barcelona. Permaneceu até 1996, quando o time foi quinto colocado em Atlanta.
* Em 1999, trocou o vôlei para ser gerente de futebol no Corinthians por meio de uma parceria com a empresa Hicks Muse. No clube, participou das conquistas do Brasileiro de 2000 e do Mundial de Clubes do mesmo ano.
* Voltou para o vôlei ainda em 2000 para comandar o BCN/Osasco no feminino.
* Em 2003, assumiu a Seleção feminina no lugar de Marco Aurélio Motta. Na Olimpíada de Atenas, ficou em quarto após o time deixar escapar a vaga na final quando vencia por 24x19.
* Ficou até 2005 em Osasco. No período, conquistou o tri da Superliga: 2002/2003, 2003/2004, 2004/2005, além de outros títulos.
* Passou o bastão para Paulo Coco no Osasco e aceitou convite para treinar a Unisul/Nexxera de Barueri (SP) na Superliga masculina 2005/2006. Foi 3º.
* Entre 2006 e 2009, dirigiu o Pesaro, da Itália, clube que deixou em maio daquele ano para se dedicar exclusivamente à Seleção. No período, foi campeão olímpico em Pequim-2008. Em 2010, foi contratado pelo Fenerbahce, onde ficou até 2012.
* Conquistou o ouro em Londres-2012 e entrou para a história como o único brasileiro tricampeão olímpico.
* Voltou ao Brasil para colocar em prática o projeto do Vôlei Amil, time que idealizou e comandou por duas temporadas. Em 2014, a equipe fechou as portas por falta de patrocínio. Zé focou na Seleção.
* Na Rio-2016, caiu nas quartas de final, após a derrota para a China, no Maracanãzinho. Meses depois, decidiu seguir na Seleção por mais um ciclo.
* Ainda em 2016, fundou o Barueri, onde é técnico e dirigente do projeto que vai do time sub 15 ao adulto. Conseguiu o patrocínio da Hinode, disputou as divisões de acesso até chegar à Superliga e, em sua primeira participação na elite, ficou em sexto lugar, na edição 2017/2018.
* Em 2017, voltou a manter o Brasil em destaque, ao conquistar o Torneio de Montreux e o Grand Prix, e o vice na Copa dos Campeões.