'Vilão', José Aparecido diz: pressão após 93 tem relação com câncer que venceu
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Árbitro na goleada do Palmeiras sobre o Corinthians, no dia 12 de junho de 1993, José Aparecido de Oliveira tem seu lugar reservado na história do título que tirou o Verdão da fila após 17 temporadas. Completados 20 anos daquela conquista, o juiz ainda é considerado por alvinegros como o vilão e um dos grandes responsáveis pela vitória alviverde. Ainda que magoado por conta desta responsabilidade que carrega, ele mostra ter consciência tranquila ao relembrar dos momentos daquele 4 a 0 para o time de Vanderlei Luxemburgo no Morumbi.
- É muito fácil atribuir a culpa para os outros. O corintiano que coloca a culpa também ganhou títulos com arbitragem sob suspeita e com erros de arbitragem. E não foi pouco. A vida é assim, um perde e ganha, em qualquer profissão. O gol sai por erro de alguém, então acabei ficando triste por alguma coisa que me aconteceu ao longo do tempo, mas não pelo jogo em si. Eu fiz o meu melhor - afirmou, em entrevista ao L!Net.
Aquela final rendeu para José Aparecido ameaças anônimas, piadas e provocações na rua, além de uma tensão grande para ele e sua família, preocupada com o que poderia acontecer diante da repercussão negativa sobre sua atuação. Pouco mais de um ano depois, em 1995, o ex-árbitro precisou lutar contra um câncer no estômago, que o fez sair de cena por quase uma temporada. Para ele, a doença teve relação com todo o estresse sofrido após aquele jogo.
- Acabei ficando muito doente, quase um ano fazendo tratamento, quimioterapia. E ninguém foi me visitar, ligou, entrevistou. Acharam que tinha desaparecido por causa do jogo. Me execraram, dizendo que não apitava mais por causa disso. Isso me chateou. Infelizmente as datas calharam. Mas não há como fazer um jogo com 23 pontos na barriga e fazendo quimioterapia - explicou.
- Não sei precisar o quanto, mas colaborar, (aquela final) colaborou (com a doença), entendeu? Porque é muito triste você estar vendo televisão, ou ouvindo rádio no seu carro, ou estar em um shopping e algum corintiano ou algum engraçadinho passar e fala um desaforo. Mexe com o teu brio - acrescentou.
Depois de o Palmeiras fazer 1 a 0 com Zinho - resultado que já levava a partida para a prorrogação - Henrique recebeu o segundo cartão amarelo e deixou o Corinthians com um a menos. No lance quase que seguinte, Edmundo deu um carrinho forte em Paulo Sérgio na lateral do campo e teve sua expulsão cobrada por alvinegros. A jogada aconteceu em frente ao também juiz Oscar Roberto Godói, que atuou como assistente naquela final. Após ouví-lo, José decidiu só advertir o Animal.
- Este lance vai ficar marcado, sem dúvidas. Mas é só medir o grau de dificuldade. Era um jogo de alto risco e foram 120 minutos, não foi um joguinho qualquer. Foi extremamente tenso. Hoje vendo, em casa, na televisão, tomando cerveja, poderia ter expulsado o Edmundo. Pelo ângulo que tinha no campo, não expulsaria de novo. Sentado no sofá você vê o lance de frente, mas ele aconteceu de costas pra mim. Para mim, o Edmundo se jogou na bola, e o Paulo Sérgio, que era um "cai-cai", quis com aquela atitude provocar a expulsão do Edmundo - relembrou.
- E o Godói me ajudou em 80, 90% naquele lance, porque não pegou. Ele fez um sinal discreto, balançou a cabeça depois que eu perguntei, fazendo sinal de não. Se ele abaixasse a cabeça dizendo que teria pego, seria expulso, não teria a menor dúvida disso - acrescentou.
No segundo tempo, Ronaldo deixou o Corinthians com dois a menos ao ser expulso por cometer falta em Edmundo fora da área - no mesmo lance, Tonhão se encontrou com o goleiro, que fingiu a cabeçada. O zagueiro palmeirense também recebeu o vermelho, segundo José Aparecido por conta de uma agressão verbal e como forma, também, de "salvar o jogo".
Ao especular sobre o motivo pelo qual é tão cobrado por aquele jogo, o juiz da decisão considera que tem a ver com o fato de o Corinthians ter ficado 23 anos na fila (entre 1954 e 1977) e haver o desejo de ver o rival ficar ainda mais tempo sem conquistas. Hoje trabalhando no ramo de viagens e turismo e agora "de bem com a vida", ele desabafou ao ser questionado se valeu a pena ter apitado a final de 1993.
- (Silêncio) Diante das coisas que me aconteceram, as ameaças que sofri, minha família, de ter que sair, pessoas querendo me agredir no meio da rua, uma ameaça de bomba no banco que eu trabalhava, minha mãe ficou muito apreensiva no interior. Por tudo isso, não gostaria de ter apitado. Mas no meu caso, não ia mudar muito, porque já tinha apitado a final de 90 e 92. E estas apitaria mais 10 vezes se fosse o caso. Só a de 93 não - completou.
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