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Santos disseca contas de 2014 e vê prejuízo que faz Damião 'valer Iniesta'


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O Conselho Fiscal do Santos reprovou as contas de 2014 contidas no Balanço Patrimonial do clube. Após a auditoria contratada junto à empresa Parker Randall, o grupo de conselheiros responsável pela análise das finanças concluiu que há irregularidades em compra, venda e empréstimos de jogadores, além de outras ações no último ano de mandato do presidente Odílio Rodrigues. No documento enviado a todos os conselheiros do clube, ao qual o LANCE! teve acesso, tem especial destaque a compra de Leandro Damião do Internacional.

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Damião assinou com o Santos em dezembro de 2013, quando foi comprado do Internacional por 13 milhões de euros (cerca de R$ 42 milhões na época). O acordo só foi possível porque o clube fechou uma parceria de financiamento com o fundo maltês Doyen Sports, que parcelou ao Peixe quatro parcelas de 3 milhões de euros, com o último 1 milhão de euros sendo responsabilidade do próprio Santos. Os valores foram pagos ao Inter em quatro parcelas (duas em janeiro de 2014, uma em abril e a última em novembro).

Mesmo comprometendo receitas futuras, como cotas de TV (veja mais abaixo) e negociando até percentuais de outros jogadores para pagar os valores à Doyen, o clube perdeu Leandro Damião na Justiça em razão de três meses de salários atrasados. A rescisão do contrato ainda não é definitiva, posto que o Santos recorreu, mas a preocupação é grande porque "caso o atleta fique livre antes do término do prazo do contrato de trabalho, o Santos restituirá 18 milhões de euros para a Doyen", diz o parecer.

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Em valores atuais, o Santos pode passar a dever R$ 62 milhões à Doyen assim que a Justiça decidir pela rescisão do contrato de Damião com o clube. Isso sem contar mais R$ 13 milhões dos salários até o fim do contrato e R$ 1,8 milhão de salários atrasados não pagos. Além de tudo o que o Peixe já pagou (R$ 42 milhões), a "operação Damião" ainda pode chegar a mais R$ 80 milhões de novas dívidas pagáveis até 31 de janeiro de 2017. Ao todo, R$ 122 milhões, aproximadamente. Ou 35 milhões de euros, mais ou menos o valor de Sergio Ramos (Real Madrid) ou Iniesta (Barcelona), segundo o site especializado Transfermarkt.

O documento que o Conselho Fiscal submeterá ao Conselho Deliberativo em reunião extraordinária na próxima quinta-feira ainda cita diversos valores que a diretoria de Odílio Rodrigues antecipou das futuras administrações - não só de Modesto Roma Júnior, como também a próxima. Os valores antecipados com cota de participação no Paulistão de 2015 e negociação de jogadores chegam a quase R$ 20 milhões.

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Agora, o parecer do Conselho Fiscal depende da aprovação do Conselho Deliberativo para ser encaminhado à outra comissão interna do Santos, a de Inquérito e Sindicância. Neste último ponto o clube decidirá se responsabiliza ou não dirigentes da última gestão, com punições internas ou a busca da Justiça comum para ressarcimento em último caso.

VEJA DETALHES DO PARECER DO CONSELHO FISCAL SOBRE AS CONTAS DE 2014:

MIRALLES POR ELANO: CADÊ O DINHEIRO?

O Santos repatriou o meia Elano em 2011, por 2,9 milhões de euros (R$ 6,4 milhões) pagos ao Galatasaray (TUR) por 100% dos direitos econômicos, além de R$ 1,2 milhão em impostos. Poucos meses depois, negociou 20% para a Teisa (empresa criada e gerenciada por empresários que apoiaram a campanha de Luis Alvaro de Oliveira Ribeiro para a presidência do clube, em 2009) por R$ 1,56 milhão. No ano seguinte, Elano perdeu a condição de titular e foi trocado pelo atacante argentino Miralles, do Grêmio.

O Santos manteve 15% de Elano e repassou 65% ao Grêmio em troca de 85% de Miralles. Depois de mais um ano, o argentino foi negociado com o Atlante, do México, mas nenhum valor constou na contabilidade de 2014. Segundo o Conselho Fiscal, "nitidamente existe uma lacuna na transação do atleta Miralles". Ou seja, após pagar mais de R$ 7 milhões por Elano, o Santos ficou sem nada após duas temporadas.

FELIPE ANDERSON, DAMIÃO E GABIGOL? TUDO A VER!

O Santos vendeu o meia Felipe Anderson à Lazio por 7,5 milhões de euros (R$ 25 milhões) em julho de 2013. O clube italiano ficou de pagar três parcelas (duas de 2,7 milhões e uma de 2 milhões de euros, em 2013, 2014 e 2015). O problema é que o fundo Doyen Sports detinha 50% dos direitos do jogador, e cada parcela deveria ser meada entre clube e grupo, o que não ocorreu com as duas primeiras parcelas, que terminaram de vencer em julho de 2014.

Para quitar o débito de 2,3 milhões de euros que não havia sido repassado, o Santos comprometeu a quarta parcela da compra de Leandro Damião, já em 2014, no valor de 4 milhões de euros. Assim, com um pouco de "crédito" com a Doyen, o clube precisou se virar para pagar a parcela que vencia em novembro ao Internacional. A solução encontrada foi a venda dos direitos econômicos de três promessas da base: Gabigol (1,15 milhão de euros por 20%), Geuvânio (750 mil euros por 35%) e Daniel Guedes (250 mil euros por 25%).

Em todas essas operações, o Santos usou receitas futuras como garantia: patrocínio da Volkswagen (ligado ao Paulistão) de 2016, acordo com empresa que licencia produtos até 2019 e contrato de fornecimento de material esportivo de 2018.

A matemática simples mostra que as vendas dos percentuais dos três garotos mais o "crédito" anterior não foram suficientes para pagar a quarta parcela de Damião ao Inter. Assim, o Peixe solicitou à Lazio a antecipação da terceira parcela da venda de Felipe Anderson e comprometeu um valor que poderia ser recebido em julho deste ano. 

Assim, o Conselho Fiscal conclui que o "comprometimento de direitos econômicos de atletas e de comprometimento de receitas futuras do Santos até 2019... se destinaram a honras os pagamentos pela aquisição de um único atleta, Leandro Damião".

MAIS DOYEN: LUCAS LIMA

Em dezembro de 2013, o Santos comprou 40% dos direitos econômicos do meia Lucas Lima junto ao Internacional por R$ 3 milhões. Até maio de 2014, porém, não havia pago o valor, e recorreu à Doyen para realizar a quitação. Mais tarde, em outubro, o clube resolveu aproveitar a "pechincha" do empresário Edson Khodor e comprar outros 40% do meia por R$ 2,5 milhões. Novamente, o clube não teve dinheiro e apelou para o fundo maltês.

Em troca dos R$ 5,5 milhões, em novembro, o Santos repassou os direitos de Lucas Lima à Doyen, e hoje conta com apenas 10%. Valorizado após a conquista do Paulistão, o camisa 20 está prestes a ser negociado com o Porto por 10 milhões de euros (R$ 35 milhões), mas o Santos só terá direito a 1 milhão de euros (R$ 3,5 milhões), além de 20% do lucro da operação.

Além do prejuízo financeiro obtido em um ano, o Santos usou como garantia da operação "futuras receitas com patrocínio master em 2017". O clube não conta com um apoiador fixo na camisa desde janeiro de 2013.

ALISON POR MONTILLO?

O Santos vendeu 70% dos direitos do volante Alison ao Coimbra (clube do banco BMG) por R$ 4,7 milhões a ser pago em parcelas, sendo a última em dezembro de 2014. A primeira parcela da venda não foi registrada pelo clube pois serviu para "saldar dívidas de inadimplência em repasses de porcentagens sobre direitos econômicos de atletas negociados". Assim, segundo o documento, o clube vendeu Alison para pagar uma dívida antiga por Montillo, contratado no início de 2013 e negociado no início de 2014, praticamente pelo mesmo valor.

O Conselho Fiscal ainda diz que a venda ocorreu "no prazo em que as operações... já eram vedadas pelo artigo 91 do Estatuto".

RILDO E SOUZA: EMPRÉSTIMOS COM COMISSÕES

O Conselho Fiscal do Santos questiona as comissões de intermediação pagas aos empresários de dois jogadores que passaram pelo clube em 2014: o atacante Rildo, que agora pertence ao rival Corinthians, e o volante Souza, que está no Bahia. Os dois foram emprestados ao Peixe com registro de contrato "sem intermediários" na CBF. Isso significa que nenhum valor, em teoria, seria pago aos empresários da dupla.

Porém, o Santos registrou o pagamento de R$ 700 mil de comissão aos empresários de Souza, sendo que o Cruzeiro emprestou o jogador gratuitamente. Com Rildo, o Santos pagaria R$ 400 mil pelo empréstimo e mais R$ 75 mil de intermediação não declarada.

JUROS ABUSIVOS? SEM PROBLEMA

Em maio, junho e outubro de 2014, o Santos antecipou o valor de R$ 10 milhões que receberia como cota de participação no Campeonato Paulista de 2015, também comprometendo uma receita da gestão seguinte. Para retirar esses valores, o clube se submeteu a juros de 16,27%. Ou seja, pagou R$ 11,6 milhões para receber os R$ 10 milhões. Esses valores também foram "retirados" do que a atual diretoria poderia ter à disposição nos primeiros quatro meses do ano.

RESPOSTA DA DIRETORIA

O ex-presidente do Santos, Odílio Rodrigues, não respondeu aos telefonemas da reportagem no sábado e no domingo. O ex-presidente do Conselho Deliberativo, Paulo Schiff, disse ao jornal "A Tribuna" que "o Santos teve mau desempenho, mas não irregularidades" em 2014.

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