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Promessa argentina sente o peso de ser o 'novo Messi'

Dia 27/10/2015
21:15

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Num sábado de abril, cerca de 50 pessoas enfrentaram a fria manhã do subúrbio de Buenos Aires para assistirem às partidas da base do Boca Juniors. Nem de longe o baixo quórum e as discretas manifestações de apoio davam a entender que, em campo, havia um garoto de 13 anos que já carrega a alcunha de "novo Messi". O cenário é até compreensível. Primeiro, pelos incontáveis sucessores do camisa 10 barcelonista. Segundo, pela pressão cada vez maior sobre estes jovens – o que torna seu futuro no futebol ainda mais imprevisível.

Guido Vadala, o garoto em questão, vive sob holofotes de todo o mundo desde os 11 anos. Com esta idade, já era comparado a Messi e corria o mundo passando por testes em clubes como Barça, Juventus e Atalanta. Empresários e agências passaram a segui-lo atentamente. Os contatos com seu pai, Fernando, eram frequentes – em geral, acompanhados de tentadoras ofertas.

A chance, no entanto, virou problema. Na família de Guido, havia incerteza se era a hora de rumar à Europa. As conversas simultâneas com vários clubes deixaram os interessados desconfiados. Para piorar, Fernando teve dificuldades para lidar com o caso e falava abertamente sobre propostas – motivo que, segundo a imprensa espanhola, levou à desistência do Barça. No fim, até o mercado argentino se fechou.

– Eu queria contratá-lo muito antes. Já vinha observando o Guido há tempos. Mas ele ficava mais tempo fora, visitando clubes, do que em sua casa – afirma o diretor da base do Boca, Horacio Garcia.

Em 2010, Guido foi contratado por uma agência. Ligada ao Boca, a Newplayer mudou radicalmente a condução da carreira do garoto: colocou-o no clube de La Bombonera, blindou seu entorno e proibiu o pai Fernando de conceder entrevistas.

De início, as coisas vão bem para Guido. É o camisa 10 do time 1997 do Boca e vem tendo tranquilidade para desenvolver suas habilidades. Um cenário melhor, mas que não tira a desconfiança sobre seu futuro.



– É um garoto de 13 anos que tem de incorporar um monte de coisas. É cedo dizer qualquer coisa – avisa o técnico do garoto, Luis Luquez.

Semelhanças visíveis
Seria inevitável não comparar Guido a Messi. Os motivos são vários – a começar pelos estilos de jogo similares. Baixinho e esguio, a promessa do Boca conduz a bola como se estivesse grudada ao pé. Os passes saem no último instante possível, com notável precisão. Dribla apenas com toques curtos e giros que surpreendem. A calma em campo também impressiona. Tudo como o ídolo argentino.

As origens de Guido também se misturam às de Messi. Ambos nasceram e viveram a infância na cidade de Rosário, cidade localizada a 300km de Buenos Aires. A jovem promessa começou a jogar no Provincial, clube localizado a cerca de cinco quadras do Newell's Old Boys, onde o astro do Barça arriscou os primeiros chutes.

Por outro lado, as diferenças na condução da carreira dos dois são relevantes. Messi chegou à Espanha aos 13 anos para jogar pelo Barça. Foi acompanhado da família, sempre observado de perto pelo pai Jorge, que até hoje cuida de sua carreira. O irmão Rodrigo também o ajudou com o passar dos anos, evitando a proximidade com interesses de empresários. O caminho até a fama foi discreto, sem badalação.

Negociação conturbada
Ainda distante de ser profissional, Guido já viveu sua primeira transferência conturbada. A saída do Provincial, clube amador de Rosário, para o Boca Juniors teve vários e longos capítulos até, enfim, se concretizar.

No início, a negociação foi conduzida pela Newplayer. Porém, a empresa que agencia Guido abandonou as conversas após problemas burocráticos com o Provincial. O pai do garoto, Fernando, teve de tomar a frente.

– O Fernando levou como pode. Mas falamos que a empresa deveria ter ficado ao seu lado – afirmou Eduardo Bossi, coordenador de futebol do clube.

Os problemas se deram em virtude de dificuldades econômicas vividas pelo Provincial. Há nove anos, o clube decretou falência e, para se manter em atividade, teve de sofrer intervenção judiciária.

A negociação acabou se arrastando em virtude de seguidos pedidos feitos pelo interventor. No fim das contas, a transferência agradou ao Provincial.

– Foi uma cifra histórica para uma instituição amadora. Ficamos também com um percentual em uma futura venda – disse Bossi



Apenas mais um
Badalado na Europa, Guido é tratado apenas como mais um no Boca. Na base do clube, uma das principais preocupações é manter os pés da garotada no chão. Em outras palavras, nada de "novos Messis".

– Em nenhum momento tratamos de compará-lo a nada. Fazemos com que ele não se sinta um fenômeno, mas que também não se veja como qualquer um – explicou o técnico Luis Luquez.

A verdade é que, em várias oportunidades, Guido ainda passa despercebido. Primeiro, pelo pouco tempo de casa, já que está há apenas oito meses no Boca. Além disso, divide atenções com outros talentos.

– Você veio ver o Guido? Precisa ver é o Leczczuk – disse um dirigente do clube, referindo-se ao camisa 10 da categoria 1995.

Além de Leczczuk, um meia hábil e goleador, destaca-se também o apoiador Ortiz. Este perdeu o posto para Guido e teve de ser reposicionado na direita, mais recuado. Mesmo assim, seguiu brilhando. Seu estilo lembra o do ídolo boquense Riquelme.

– É um jogador completo – afirmou Luquez sobre Ortiz.

Confira bate-bola exclusivo com Horacio Garcia, coordenador da base do Boca Juniors:

LANCENET!: Como e quando você conheceu Guido?
Eu o vi com 12 anos, quando jogava pelo Provincial, de Rosário. Mas o problema é que ele viajava para todos os lados. Estava na Espanha, na Itália... Nunca estava aqui. Um dia estivemos juntos e ofereci para que jogasse pelo Boca. Ficou convencido e veio.

LNET!: Como você avalia Guido?
Tem muita habilidade, técnica, visão de jogo. Nesse sentido, parece diferenciado. Fisicamente, ainda é pequeno, não sabe desarmar. Mentalmente, parece mais velho.

LNET!: Você teme que, diante de tanto assédio do exterior, Guido deixe o clube antes de ser profissional?
Sempre pode acontecer algo, mas temos de confiar nas pessoas. São riscos que se corre. Não há muitos Messis. Muitos parecem geniais, mas não despontam.

LNET!: O que você acha da comparação entre Guido e Messi?
Não se pode colocar esse peso nas costas dele. É preciso deixá-lo crescer naturalmente. Nosso papel enquanto clube é tirar a pressão dele. O problema é o entorno, como representantes. Para eles, é um negócio. Mas é apenas um garoto, um bebê. Há cabeças que não suportam essa pressão.

LNET!: Quantas vezes você já foi apresentado a um "novo Messi"?
Muitas. Mas só há um Messi.

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